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Por que “Três Anúncios Para Um Crime” tem tudo para ganhar o Oscar

Por que “Três Anúncios Para Um Crime” tem tudo para ganhar o Oscar

Ana Flavia Gerhardt - 1 de Março de 2018

Este texto contém spoilers sobre a narrativa de “Três Anúncios Para Um Crime”, sobre o qual se pode ler a crítica de Matheus Fiore.

Tenho lido muitos textos de críticos brasileiros sobre “Três anúncios para um crime” (doravante “Três anúncios”), um dos nove filmes indicados este ano ao Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Quase todos eles apontam os problemas estruturais do filme, incluindo deficiências de temática, de roteiro e de atuações. No entanto, nenhum deles descarta a hipótese de que “Três anúncios” acabe levando a cobiçada estatueta, assim como seus dois outros importantes indicados: Frances McDormand (atriz principal) e Sam Rockwell (ator coadjuvante). E isso nem será novidade, já que, ao longo da história do prêmio, produtores de filmes ainda mais fracos têm levado o homenzinho dourado para casa. Mas o que pode fazer uma obra problemática como “Três anúncios” arrebatar o prêmio cinematográfico mais importante do mundo?

Essa pergunta leva a uma outra: por que alguns filmes excelentes de 2017 não foram incluídos na lista deste ano, que contém nove obras, quando no passado já incluiu até dez? Por que estão ausentes pelo menos dois filmes excepcionais, “Projeto Flórida”, de Sean Baker, e “Ao Cair da Noite”, de Trey Edward Shuts, este último eleito pelo Plano Aberto o melhor filme do ano passado, mas sequer mencionado em qualquer categoria do Oscar? Afinal, que mistérios estão por trás da seleção dos filmes que chegam a uma das cerimônias mais assistidas em todo o mundo?

Frances McDormand realizando na ficção o sonho de muitos estadunidenses.

Este texto de forma alguma pretende destrinchar tão complexa questão, mas sim reconhecer que há uma discussão importante para muito além do fato de que a diferença de qualidade entre os filmes não reside apenas em eles serem bons ou ruins. Também aparece quando observamos, entre outros aspectos, que eles são representativos de formas de pensamento que lhes permitem ser aceitos ou não por determinados públicos. E essa aceitação muitas vezes independe das qualidades intrínsecas dos trabalhos que chegam às telas.

Sob a capa do “american way of life” escondem-se vidas disfuncionais.

Sabemos todos que o Oscar, como outras premiações, sobretudo as estadunidenses, está mergulhado em comprometimentos comerciais que regem não apenas quem é premiado, mas também quem é indicado. A mera indicação faz um filme receber uma injeção monumental de benefícios que incluem divulgação gratuita e massiva em todas as mídias e aumento de salas de exibição – o que significa, no fim das contas, dinheiro, muito dinheiro. No entanto, tem sido cada vez mais presente a abordagem ideológica dos filmes como um dos fatores que pesam na sua indicação e premiação. Dependendo do que está explodindo como questão político-social nos Estados Unidos, alguns filmes recebem mais apostas nos bolões do Oscar. E, não raro, acabam sendo premiados determinados filmes num ano em que suas temáticas coincidem com o que está na mídia afetando de alguma forma o país.

A abordagem ideológica de “Três anúncios”, ou as abordagens, porque o filme parece atirar para muitos lados mas sem potência para atingir qualquer alvo (e a dispersão temática nem de longe é seu pior problema, mas sim consequência dele), é que o eleva à condição de favorito, mais até do que obras de Arte como o excelente “Trama Fantasma”, de Paul Thomas Anderson, que recebeu crítica de Matheus Fiore aqui no Plano Aberto. Apontarei cada uma dessas abordagens e sugerirei por que elas são tão caras aos estadunidenses, mas antes é necessário falar rapidamente do filme em si, antes de definir o encaminhamento que pretendo conferir a este texto.

Um microcosmo da “América profunda”

A filha de Mildred Hayes (Frances McDormand) foi estuprada e morta perto de sua casa, nos arredores de uma pequena cidade do interior do Missouri, Estado que fica no miolo do Meio-oeste estadunidense, portanto longe demais das luzes progressistas dos grandes centros urbanos das Costas Leste e Oeste. Esse dado é importante porque contextualiza o entorno do crime: a inépcia da polícia, que arrasta por mais de um ano uma investigação sem encontrar um suspeito sequer; o racismo dos policiais, em especial Jason Dixon (Sam Rockwell), que praticou atos violentos contra um afro-americano e permanece impune; a própria existência disfuncional de Mildred, que vivia às turras com a filha e era agredida pelo marido, mas, divorciada, não consegue retomar a vida, ainda mais com a morte da filha sem solução.

Após o pagamento de três outdoors cobrando do xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson) uma investigação efetiva para o crime que vitimou sua filha, a vida de Mildred na cidade se torna um verdadeiro inferno, já que o xerife, além de ser boa-praça, está gravemente doente, e seu suicídio acaba caindo sobre as costas da mulher. Duas outras pessoas são diretamente afetadas pela insistência de Mildred em manter os outdoors: o publicitário que os confeccionou, agredido violentamente por Dixon, e sua colega na loja em que trabalha, presa por um motivo insignificante. A entrada de um novo xerife, por sinal negro, parece indicar alguma mudança no rumo dos acontecimentos, mas isso não ocorre. Ao fim do filme, Mildred e Dixon, este aparentemente redimido em função da morte de Willoughby, partem, sem nenhuma certeza nem planejamento, em busca de uma vingança qualquer que possa apaziguar seus espíritos.

Frances McDormand poderá embolsar seu segundo Oscar por encarnar uma personagem com a qual seus conterrâneos se identificam: injustiçada e revoltada.

Ao público e à crítica estadunidense, “Três anúncios” parece ser o retrato da contemporaneidade de um país perplexo com a eleição de um troglodita, do qual a grande maioria das pessoas quer se ver livre de qualquer forma. À guisa de um começo de auto-crítica, o filme revolve temas relacionados à ultra-direita estadunidense que sempre foram abafados em função de uma imagem de país livre, democrático e justo: a violência dentro da família; a violência contra a mulher; o racismo; os bolsões de atraso cultural onde os rednecks imperam, orgulhosos de sua ignorância e nacionalismo fundamentalista. Todos esses elementos, ingredientes da fórmula que elegeu Donald Trump. Denunciá-los é um serviço à causa progressista (nos moldes estadunidenses, claro) que Hollywood abraça com toda a força e influência de que dispõe. Portanto, premiar “Três anúncios” é reforçar o horror a Trump e plantar em terreno fértil para que as próximas eleições sejam vencidas por um candidato democrata, porque oito anos de Trump é algo simplesmente inadmissível. Ninguém merece.

Na terra do Oscar, ser ruim e ser favorito não é um paradoxo

“Três anúncios” parece ter sido feito especialmente para a propaganda pró-democratas, e, a meu ver, residem aí os seus problemas estruturais. Aliás, o propósito de ser propaganda de alguma coisa sempre resulta em filmes com problemas estruturais, e o extremo disso é, como lembrou um querido amigo, o horrendo “Polícia Federal – a lei é para todos”, de Marcelo Antunez, que também recebeu crítica aqui no Plano Aberto. Mas, diante do meu argumento, há quem diga que “Três anúncios”, ao contrário de “Polícia Federal”, contém boas intenções, portanto ele deveria ser considerado um bom filme. No entanto, a pretexto de ser propaganda progressista, “Três anúncios” termina por ser a reafirmação das contradições estadunidenses, que se identificam não apenas entre os de direita que votaram em Trump, mas também entre os que são seus opositores. E esse é o problema que torna “Três anúncios” um filme problemático: os seus atos falhos, que revelam as grandes questões que a sociedade estadunidense fatalmente terá de enfrentar mais cedo ou mais tarde.  Mas também o torna um dos favoritos ao Oscar de Filme deste ano, porque esses mesmos atos falhos aparentemente não estão sendo percebidos pelos estadunidenses.

Os atos falhos do filme se escondem justamente no excesso de temas citado acima, os quais, na proposta de abordar os assuntos explosivos da contemporaneidade estadunidense, o transformam em algo que é muita coisa, e, ao mesmo tempo, nenhuma, porque nenhum tema é pormenorizado de forma a chegar a algum mínimo desenlace. Ao abordar, aparentemente de forma crítica, racismo, machismo, falência institucional, violência contra minorias e preconceitos interioranos em geral, “Três anúncios” tem suas boas intenções postas por terra quando, como alguns críticos acertadamente pontuaram, a abordagem dos personagens negros é realizada sem qualquer desenvolvimento: eles existem apenas para preencher um checklist de obras politicamente corretas. Quando uma mulher espancada pelo marido acaba por generosamente lhe conceder salvo-conduto para um novo relacionamento com uma mulher muito mais jovem, seguindo a cartilha machista que impõe às mulheres tolerância absoluta a todo desrespeito. Quando um policial que, remorso algum, havia praticado violência extrema contra uma pessoa negra, hesita em matar um branco agressor de mulheres.

“Como assim?” é a pergunta que a grande maioria dos estadunidenses se faz quando se lembra de que seu presidente é Donald Trump.

Por trazer conforto aos estadunidenses com a aparente ideia de que está tratando dos problemas fundamentais de um país em crise ética, e pelo visto isso parece ser suficiente a eles, “Três anúncios” é forte concorrente ao Oscar deste ano. Analogamente, a capacidade de provocar e desconfortar parece queimar as fichas de filmes que são inegavelmente ousados e diferenciados, mas que trazem questões realmente incomodativas, difíceis de discutir. Isso afasta a possibilidade de que eles sequer concorram à estatueta. É o que ocorreu com “Ao cair da noite”, que denuncia a falácia da perspectiva amplamente individualista que tem sustentado historicamente a sociedade estadunidense; e com “Projeto Flórida” que joga na nossa cara o resultado concreto dessa falácia: o fracasso da promessa feita a todos os herdeiros dos pioneiros de um país que nasceu para ser livre e próspero: ou seja, os brancos.

A quem “Três Anúncios” se destina?

Recentemente, numa viagem marítima, estive em contato por duas semanas com anglo-saxões (estadunidenses, britânicos, neozelandeses e australianos), bem como com chineses e indianos, junto com uma equipe de hotelaria composta quase exclusivamente por filipinos. Durante esse tempo, pude constatar o horror que os anglo-saxões alimentam de Trump e suas estripulias infantis, mas graves o suficiente para provocar ataques atômicos. Todos perplexos diante do fato de que, no país das liberdades, o exercício delas desaguou num presidente caricato e perigoso.

Rednecks sendo rednecks.

Porém, o discurso progressista que eu ouvi era desmentido por ações de indisfarçada repulsa ao nosso comportamento espontâneo, para eles escandaloso e mal-educado. Tratava-se, em realidade, de um grupo de pessoas que mal conseguia suportar o fato de que estava ocupando um espaço em pé de igualdade social com gente que, para eles, lá no fundo, deveria estar servindo a eles, ou os entretendo (caso de nós, brasileiros, que, aos olhos do mundo, somos especialistas em entretenimento). E isso os tornou, a meus olhos, tão preconceituosos quanto os eleitores de Trump – talvez até mais, porque eles não pareciam ter coragem de se assumirem assim. O fato de nos recusarmos a ocupar o lugar em que eles queriam nos colocar era para eles um crime de lesa-sociedade, a ser punido com o desprezo que já dedicavam aos filipinos que, heróis em seu país (como me informou uma querida amiga filipina), estavam trabalhando para tornar menos difícil a vida dos seus familiares.

O comportamento dos anglo-saxões com quem tive de conviver, mesmo por um breve período, me convenceu de que a coxinhice é um fenômeno mundial, porque na prática eles não eram em nada diferentes de determinados setores demófobos e desavergonhados da classe média brasileira, que quiseram destituir uma presidente acreditando que com isso não mais iriam dividir o aeroporto com gente não-branca calçando havaianas. Entretanto, embora os coxinhas brasileiros já tenham há muito saído do armário, os que conheci no barco não se assumiam como tais. Isso os impedia de reconhecer os atos falhos que cometiam, e muito provavelmente os leva a louvar a premiação de obras que se cobrem com o verniz progressista que vi brilhar sobre seus corpos, mas que não penetra além de suas epidermes.

“Três anúncios para um crime” tem tudo para ganhar o Oscar porque é um filme auto-indulgente, destinado a agradar estadunidenses brancos também auto-indulgentes e ainda incapazes de observar a si mesmos verdadeiramente. Quando o fizerem, e espero que o façam em breve, eles compreenderão que só se libertarão de ameaças como Donald Trump, assassinatos em massa dentro de escolas e violência contra pessoas não-brancas quando aceitarem que elas são causadas por suas próprias contradições e preconceitos. Essa compreensão não cabe apenas a eles; cabe também a todos os países onde a violência e a desigualdade social fazem parte do cotidiano, de forma tão pervasiva e naturalizada que muitos cidadãos não conseguem mais perceber.

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