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Três curtas disponíveis online

Três curtas disponíveis online

Marina Pais - 10 de julho de 2018

Curtas-metragens são uma forma mais acessível de produção de conteúdo. A sua duração reduzida permite que diretores independentes se arrisquem a desengavetar ideias e realizá-las com menos recursos. Além disso, pequenas equipes podem adotar um estilo de animação mais perfeccionista, e a restrição do tempo de narrativa pode incentivar a criatividade no desenvolvimento de personagens, que deve ser mais objetivo. Aqui, selecionei três filmes disponíveis online que, muito embora sejam curtas, conseguem resultados grandiosos:

Tend“, de Tom Judd e Ed Barrett (2018)

Definir uma ordem de prioridades para cuidar de uma família é uma tarefa difícil. Há necessidades básicas a serem atendidas, como abrigo e alimentação, mas há também aquelas que mesmo que não estejam fisicamente ligadas à sobrevivência são imprescindíveis, como carinho e atenção. Em “Tend”, Tom Judd e Ed Barrett discutem essa escala de importância através de uma animação que é paradoxalmente simples e detalhista.

A simplicidade da direção de arte aliada a ausência de diálogos permite que elementos essenciais para o desenvolvimento da história sejam mostrados de forma sutil, e em consequência, a narrativa se torne aberta a interpretações. Pode ser uma história sobre um workaholic. Sobre uma obsessão. Um vício. Ou só o retrato da rotina de um pai que tenta manter a fogueira acesa enquanto cuida do seu filho.

As cores desempenham um papel importante na construção dessas sutilezas: os dois personagens principais, por exemplo, são sempre retratados com o mesmo tom, o que indica a existência de uma familiaridade – reforçada pelas semelhanças no visual, como o uso do mesmo desenho de nariz. As variações na gradação de cores também servem para demarcar mudanças narrativas, e é interessante ver o contraponto entre as cenas situadas ao redor da fogueira, fortemente iluminadas, e as que se passam na chuva, quando todas as cores parecem ficar desbotadas.

“Tend” é uma discussão sobre o que de fato significa cuidar. Muito embora se inicie com a figura do pai arrancando parte da sua barba para reacender as chamas da fogueira, o que parece um sacrifício razoável, a incorporação do crepitar das chamas ao desenho das suas pupilas em um momento posterior demonstra que o fogo tem um fim em si mesmo. E quando isso acontece, de quem estamos de fato cuidando?

Joy Joy Nails“, de Joey Ally (2017)

“Joy Joy Nails” é um retrato sobre a rotina de Sarah (Kahyun Kim) em seu primeiro dia como gerente recém-promovida no salão que dá nome ao título. Além disso, é também um comentário sobre poder, classes, machismo e as complexas relações entre vítimas e algozes.

O desenvolvimento narrativo se encaixa com a objetividade típica (e necessária) dos curtas-metragens. Por isso, a promoção de Sarah não é mostrada através de uma comparação com a sua situação anterior, mas através de um plano inteligente em que a câmera se move em torno dela, e sua expressão – e a reação das colegas – é suficiente para transmitir o que precisamos saber sobre a sua ascensão.

A música também é uma característica marcante desse projeto, e além de servir para dinamizar o ritmo também proporciona recursos interessantes. Em uma cena específica, quando Sarah está organizando as coisas pelo pátio do salão, a música é utilizada de forma a não deixar claro se o que estamos ouvindo é uma parte da trilha sonora (portanto um elemento não diegético) ou uma representação do que está se passando em sua mente, em uma tradução do desejo da personagem por sucesso e amor. Assim, é interessante notar como a música se interrompe quando ela transita pelo salão, dando ordens às suas colegas, e só retorna quando está sozinha.

Ainda, a trilha obtida através da mixagem de som é igualmente eficiente. Em uma sequência notável (que, aliás, já vale por todo o curta), a tensão de Sarah é construída através da montagem ágil das atividades rotineiras do salão vistas (e ouvidas) em zoom que, associadas ao desconforto no seu olhar, transmitem toda a apreensão que ela está sentido.

O uso das cores também é interessante. A projeção é, em geral, dominada por tons de rosa que refletem as cores de Sarah, o que ecoa a influência da sua perspectiva subjetiva. Mia (Yi Liu), a funcionária nova com quem Sarah disputa, é a única que veste um avental verde, cor que também domina a pequena sala onde pode falar mandarim com liberdade. O uso das cores complementares para retratar a distância entre as personagens funciona para sedimentar a sua rivalidade.

Em síntese, não só “Joy Joy Nails” oferece uma ótima e estilizada análise de jogos de poder como pontua relevantes críticas sociais (como a intoxicação causada pelo uso dos materiais de beleza, além do descaso dos patrões na compra de materiais de proteção). É um olhar sobre a artificialidade da rotina em um salão que, quando vista de perto, revela o soterrado desconforto.

Jonas and the Sea“, de Marlies Van der Wel (2018)

Nesse último curta acompanhamos Jonas, que, como o título indica, sonha em morar dentro do mar (o que pode envolver ser engolido por um grande peixe, como aquele outro Jonas). Para isso, ao longo da sua vida ele constrói uma série de instrumentos para tentar concretizar o seu desejo, como um batiscafo improvisado e algo que só pode ser definido como um foguete aquático.

A vida de Jonas é tão bem dirigida quanto a obra que a retrata. Um ponto que merece destaque é a forma como a transição entre as cenas é feita: quase sempre é estabelecida uma relação entre o elemento que sairá de cena e o que o substituirá, o que cria rimas visuais muito coerentes. As músicas também servem para amarrar bem a narrativa, e as valsas aquáticas encaixam tão bem que parecem ser capazes de contar a história por si só.

O enredo é estruturado em paralelos feitos entre a infância, adolescência e a idade adulta de Jonas, o que cria uma cronologia interessante que evidencia a sua persistência, destacada pelas pequenas mudanças na sua aparência causadas pela passagem do tempo, como o surgimento de um bigode.  Ainda, é possível notar como a sua engenhosidade vai aumentando, e é interessante ver como ele preserva os apetrechos usados em suas tentativas anteriores – afinal, tudo pelo que já passamos faz parte de nós, até mesmo (ou principalmente) os nossos fracassos.

Resultado da jornada real da diretora pelas praias da Holanda durante cinco anos, Jonas é um ótimo conto sobre a persistência. A distância entre a definição de um objetivo e a sua consecução compreende uma boa dose de disciplina. E, quando não alcançamos os nossos sonhos, é porque de fato fracassamos… ou só desistimos?

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