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Vai Anitta

Vai Anitta

Série documental está tão preocupada em blindar e enaltecer sua protagonista que mais parece uma peça de marketing

Matheus Fiore - 19 de novembro de 2018

Em certo momento de “Vai Anitta”, série-documentário de seis episódios distribuída pela Netflix, a cantora carioca comenta sobre sua depressão e sobre como estava passando pela terceira crise causada pela doença. Segundos depois, um corte traz a mesma Anitta dizendo: “essa é a primeira vez que tive depressão”. Talvez esse seja um dos momentos que melhor simboliza a confusão e a artificialidade da obra. Produzida por Anitta em parceria com os irmãos John e Sam Shahidi, a série sequer finge ter um olhar diferenciado em relação à artista. Os Shahidi, afinal, são empresários da artista. O documentário soa, na maior parte do tempo, como uma massagem no ego da cantora. Em “Vai Anitta”, não há nenhum confrontamento, nenhuma análise que passe do superficial. O espectador é submetido a aproximadamente três horas de rasgação de seda ininterrupta.

Claro que nenhum documentário tem como obrigação trazer uma postura crítica ao documentado. Mas retratar a figura central como um ser perfeito e infalível, assumindo uma postura hagiográfica preguiçosa e covarde, é algo pouco criativo e artisticamente pobre. Para pegarmos um exemplo recente, o ótimo “Quincy“, que acompanha a vida e fala sobre a trajetória do maior produtor da história da música, dedica a maior parte de sua projeção a elogiar a carreira de Jones, mas há, aqui e ali, momentos em que o filme fala sobre as escorregadas do artista, suas falhas como pai e marido.

Já em “Vai Anitta”, o documentário parece estar focado única e exclusivamente em vender a artista protagonista como uma figura de talento inigualável e de caráter divino. Sem falar nos constantes e repetitivos elogios aos números de Anitta. Utilizando-se novamente o documentário “Quincy” como exemplo, pode-se notar que a obra americana tem seu ponto de partida com dois entrevistadores chegando à casa de Quincy e observando os múltiplos prêmios que o artista coleciona em sua parede. Está tudo lá, mas sem esfregar na cara do público; as premiações e honrarias existem por ser parte do cenário onde Quincy Jones é entrevistado. Já em “Vai Anitta”, a montagem insere, a todo momento, números da artista na tela, como se fosse uma informação crucial, quando, na verdade, são informações que a assessoria de imprensa de Anitta já faz questão de divulgar a todo momento, já que, semanalmente, vemos na mídia notícias sobre o sucesso da principal artista brasileira da década.

Até quando retrata algum deslize de sua protagonista, o documentário o faz de forma totalmente manipulativa. Há, por exemplo, uma menção ao caso em que Anitta criticou a postura de um fã durante um show, dizendo que a atitude deste fã era “coisa de pobre”. O documentário, nesse ponto, é tão preso à ideia de blindar sua protagonista a qualquer custo, que mostra a cena sem seu principal elemento: o som. Em vez disso, “Vai Anitta” projeta a imagem do momento acompanhada pelo áudio da própria cantora se justificando. É um nível de manipulação tão grotesco, que o público já assiste ao caso simultaneamente à defesa da cantora. Não há espaço para interpretações e análises, a única visão que cabe em “Vai Anitta” é a da egocêntrica protagonista.

Além dos erros, uma ausência que pesa muito em “Vai Anitta” é algum comentário ou análise sobre o impacto da artista na cultura popular brasileira. Anitta foi uma artista com penetração em diversas camadas da sociedade e se tornou um ícone cultural para a geração da atual década. Entretanto, “Vai Anita” dedica-se a abordar tais temas apenas sob o ponto de vista empresarial, analisando como isso lhe rendeu prêmios, patrocínios e parcerias.

É um documentário que parece desconhecer a relação essencialmente popular entre Anitta e seu sucesso, o potencial de identificação que a cantora cooptou, preferindo dar destaque aos seus relacionamentos com figuras internacionais do que qualquer outra coisa. Quando a série fala da relação de Anitta com a favela, é sempre partindo do ponto de vista da própria Anitta ou de seus amigos artistas. Por que não, por exemplo, trazer depoimentos de pessoas sem ligação direta com a artista que possam analisar o cenário musical por ela criado? Quando artista do tipo são pinçados – como Jojô Toddynho –, sua presença se resume a dizer coisas como “Anitta mudou minha vida”, reforçando a massagem de ego e pouco acrescentando a um potencial estudo sociocultural sobre o fenômeno Anitta.

Pouco diz tanto sobre “Vai Anitta” quanto uma afirmação que a própria cantora deu, após o lançamento do filme, quando questionada sobre a ausência de qualquer menção a um produtor que trabalhou com ela por boa parte de sua carreira. “Gastaria um episódio inteiro só nessa bad vibe”, diz Anitta ao falar sobre o assunto. Fica claro, então, como não há nenhum interesse por uma visão realista acerca do assunto. “Vai Anitta” é uma produção encabeçada pela própria artista, seus empresários e agentes para homenagear… A própria artista, seus empresários e agentes.

Não surpreende, portanto, que “Vai Anitta” seja narrativamente tão confuso. Parece não haver um objetivo claro para a obra a não ser tentar criar uma penetração no mercado musical americano. Episódios começam e terminam sem qualquer foco nos assuntos. Praticamente todos terminam abruptamente, e não há um esforço da montagem para organizar as imagens e eventos de forma que haja uma construção de sentido ao longo dos seis episódios de meia hora. É decepcionante perceber, por exemplo, como alguns episódios abordam temas negativos ou espinhosos apenas nos segundos finais, pouco antes de a vinheta anunciar o fim daquele capítulo. É como se os assuntos que realmente tivessem algum peso não merecessem mais do que uma nota de rodapé.

No fim das contas, “Vai Anitta” parece ser mais um making off da carreira da própria Anitta do que uma série interessada em trazer alguma novidade sobre a trajetória e vida da artista mais popular da atualidade no Brasil. Ao fim da projeção, a impressão que fica é a de que assistimos a uma peça de marketing, que omite ou literalmente silencia momentos que podem expor negativamente a protagonista, como a retirada do som quando ela desdenha da condição econômica de um fã, e potencializa todo e qualquer elogio que os entrevistados tecem quando falam de Anitta, ao ponto de algumas falas serem repetidas a fim de martelar que Anitta é “incrível”, “incomparável” e “única”.

Uma coisa não podemos negar: “Vai Anitta” é mais um exemplar da talentosa empresária que é a protagonista. Anitta é uma administradora tão controladora que nem mesmo o documentário sobre ela tem qualquer espaço para mostrar qualquer coisa que a própria Anitta não faça questão que vejamos. Anitta sob o olhar de Anitta. Uma massagem no próprio ego e nada mais.

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