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Vestígios do Dia

Vestígios do Dia

Ana Flavia Gerhardt - 19 de agosto de 2018

Uma das falácias sobre a linguagem verbal é a de que, por ser muito acessível, ela pode em todos os casos dissecar e explicar completamente aquilo que foi expresso em outro tipo de linguagem mas não está ao alcance do entendimento de pessoas leigas. Tal falácia se baseia na ilusão de que tudo pode ser traduzido em palavras, e nada pode estar mais distante da verdade. Isso se comprova na existência das várias linguagens disponíveis para dizermos aquilo que se passa em nosso coração e nossa mente: as línguas de sinais, as Artes plásticas, a Arquitetura, a Música, a Dança, o Cinema… Diante de um filme deslumbrante como “Vestígios do dia”, de James Ivory (1993), preciso me lembrar dessa realidade para expressar minimamente, por escrito, o reconhecimento de sua riqueza e importância.

Assisti pela primeira vez a “Vestígios do dia” à época de seu lançamento, e minha atenção se voltou quase exclusivamente para o título do filme, que, tanto em português quanto em inglês, remete à definição Freudeana para os sonhos: grosso modo, sonhos são vestígios do dia, fatos que vivemos no período de vigília e retomamos enquanto dormimos. Nos sonhos, nossas experiências se misturam com nossos desejos reprimidos, que emergem travestidos em outros símbolos, a fim de que não nos perturbemos com seu impacto, se vividos literalmente. Em outras palavras: os sonhos servem para que consigamos viver dormindo o que não temos coragem e condições de viver acordados.

Ao inverter a perspectiva de observação da aristocracia britânica, “Vestígios do dia” revela a complexidade e os conflitos da classe trabalhadora inglesa numa sociedade estratificada em castas.

A partir dessa definição, minha primeira leitura do filme se baseou no sentimento de amor do mordomo James Stevens por sua colega Miss Kenton (Emma Thompson), impossível de ser vivido em função das repressões que permeavam a vida do personagem, as quais ele mesmo se impunha. Revi o filme recentemente, depois de sua inclusão na plataforma Netflix, e minha leitura agora incorpora questões sociais e históricas. Por isso, passei algum tempo buscando amarrar os fios finamente enredados pela roteirista Ruth Prawer Jhabvala a partir do livro de Kazuo Ishiguro, e transformados em luz, sombra, som e atuações pelas mãos de Ivory, Hopkins, Thompson e outros mais que abrilhantaram a história de Stevens.

Entre o lançamento de “Vestígios do dia” e sua inclusão na Netflix, outras obras também buscaram inverter perspectivas no cenário aristocrático inglês, baseado na diferenciação de classes sociais por nascimento (praticamente castas, portanto) e, paradoxalmente, alvo de imenso fascínio em todo o mundo – fascínio esse também lembrado no filme. Cito, por exemplo, Downton Abbey, que propunha um tratamento igualitário entre os salões sofisticados e a cozinha das imensas, luxuosas e antiquíssimas propriedades inglesas, mas acabou dando mais tempo e espaço às tramas da aristocracia.

A crença de que as pessoas nasceram para servirem ou serem servidas é passada de geração para geração.

Mas, em “Vestígios do dia”, tudo é sempre sobre James Stevens, e isso fica evidente na forma como o personagem é alocado na tela: frequentemente ele ocupa a posição central, mesmo em presença do patrão ou de outro personagem aristocrata. O jogo centro-periferia, em que Stevens alterna posições em tela, acontece quando Ms. Kenton está presente. Junto com a atuação milimétrica de Hopkins, essa alternância denota a força do sentimento de Stevens, que lhe causa conflitos capazes de abalar seu autoequilíbrio. A absoluta centralidade de Mr. Stevens na trama de Ivory sobrevive na segunda leitura que fiz do filme, o que ratifica a potência do personagem e a inesquecível atuação de Hopkins.

A primeira impressão que tive do filme centrou-se no microcosmo da propriedade cuja criadagem Stevens dedica sua vida a coordenar. A ela agora soma-se a camada que envolve o macrocosmo da sociedade britânica no período pré-Segunda Guerra Mundial. Nessa época, a aristocracia britânica não havia ainda sido relegada ao papel turístico e decorativo que tem hoje. Isso salvou a Inglaterra de um destino como o do Brasil, onde os donatários das capitanias hereditárias se mantêm no poder à força de uma lavagem cerebral que faz o povo acreditar que eles merecem o poder e os privilégios de que desfrutam sem nenhuma vergonha na cara.

Uma imagem para imprimir e emoldurar: a cena mais arrebatadora de um filme lindíssimo.

Mr. Stevens cresceu acreditando que o nascimento em uma determinada classe social definiria a vida de uma pessoa para sempre. Uma férrea e autoatribuída dignidade acompanha seu empenho em servir ao nobre que paga seu salário. Ao ouvir os discursos de Stevens que justificam sua servidão cega, lembrei-me de um vídeo a que assisti sobre o antigo lixão de Gramacho, no Estado do Rio. Nele, as pessoas, em seus relatos, buscavam deixar uma impressão de vida digna, que poderia ser bem pior caso estivessem, por exemplo, mendigando nas ruas do Rio. Assim como elas, Mr. Stevens também procurava manter, a duras penas, o sentido e a honra em servir pessoas que julgava superiores a ele, suportando ofensas e humilhações, e sendo por vezes obrigado a agir contra sua ética, moral e sentimentos. Estava tão conectado àquela vida que sentia seu caráter mesclado ao do patrão.

Esse sentido é partilhado na mesma medida por seu pai, mas já é problematizado por Miss Kenton e pelos empregados mais jovens, o que evidencia as grandes mudanças sociais que já estavam em curso na Inglaterra. Mas, para Mr. Stevens, ele ainda constitui sua percepção de mundo e de si mesmo, e observar isso é interessante para notarmos como a opressão se perpetua também entre muitos oprimidos, que não conseguem reconhecer outra forma de viver diferente daquela que já têm. Além da dignidade, eles encontram gozo e satisfação sendo oprimidos, assim como Stevens encontra satisfação em servir. Essa satisfação chega a ser superior à possibilidade de felicidade no amor que a chegada de Miss Kenton oferece.

A criadagem vivia dramas imensos, e os patrões, alienados do que existia fora de sua classe, não faziam a menor ideia de nada.

O quadro completo da natureza do personagem, com os conflitos que a vida lhe apresenta e a forma encontrada para responder a eles, se descortina na magnífica sequência do jantar de gala com os nazistas. Nela, Stevens precisa lidar com vários problemas ao mesmo tempo: a condução da criadagem e o trabalho no salão de jantar; o convidado com dores no pé; o pai que se encontra à morte; e o impacto da revelação pessoal que este lhe fez. Nessa sequência, Hopkins é magnífico em deixar evidente, mas com muito pouca informação expressiva, o caos interior de Stevens diante de tantas crises simultâneas, além de já nos antecipar a qual tarefa dará prioridade.

Porém, mais do que nas situações desafiadoras, é no amor por Miss Kenton que o personagem se situa com precisão no atravessamento entre o micro e o macrouniverso que o filme aborda. Mesmo reconhecendo a necessidade daquela mulher em sua vida, Stevens é incapaz de aprender a viver de outro modo e construir outro sentido para viver que não servir. Receoso de perder sua tão bem cultivada dignidade, ele prefere abrir mão da promessa de felicidade na companhia de Miss Kenton. Age assim provavelmente temeroso de que ela não aceitaria a vida com ele se ele abandonasse aquilo que assumiu como missão de vida – o ápice que alguém de sua sua classe social poderia ambicionar. Ser algo mais na vida além de um mordomo seria trair seu patrão, tornando-se assim indigno de ser feliz.

O último encontro entre Stevens e Kenton: sentimentos que iluminam uma vida em que os sonhos não podem ser realizados.

“Vestígios do dia” mostra como é poderosa a construção discursiva que, ao longo dos séculos, transforma uma vida de sofrimento miserável numa vida satisfatória a ponto de as pessoas a escolherem em detrimento da felicidade – isso tudo para que um punhado de privilegiados continuem agarrados ao luxo e ao poder. Essa história já foi contada em muitas obras literárias e cinematográficas: “1984”, de George Orwell, por exemplo, é genial por descrever o passo-a-passo dessa construção. O que temos em “Vestígios do dia” é os efeitos desse processo na mente de um personagem fascinante, encarnado com vigor por um ator excepcional, num filme que encanta e arrebata pelo capricho, competência e sentimento na forma como foi realizado.

Assista a “Vestígios do Dia” na Netflix clicando aqui. Para mais textos da série “Canto Cult”, clique aqui.

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