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‘Vingadores: Guerra Infinita’ e a revolta contra Deus

‘Vingadores: Guerra Infinita’ e a revolta contra Deus

Ana Flavia Gerhardt - 30 de abril de 2018
Este texto contém spoilers sobre “Vingadores: Guerra infinita”.

Ao longo da história da civilização ocidental, o Deus cristão, que é o mesmo da narrativa bíblica, se impôs de forma absoluta. Nas sociedades de base cristã, acreditar nele é uma decisão naturalizada, e os ateus ainda são uma ínfima minoria. As diferenças de crença entre os cristãos de todo tipo são superficiais: todos igualmente esperam por um outro mundo após a existência carnal, o qual lhes será franqueado se eles acreditarem que Deus é a entidade divina que criou o universo, guia as suas vidas e é o artífice de tudo o que acontece no mundo, de bom e de mau. E por tudo isso ele deve ser louvado.

Para quem acredita em Deus, o mundo está cheio de injustiças e violência, mas elas são todas creditadas ao espírito humano, que por natureza é perverso, corrompido e viciado. A dor e o sofrimento são muitas vezes a materialização da justiça divina, e a prosperidade é uma bênção de Deus aos afortunados que ele escolhe conforme sua vontade. Para ser premiado com a felicidade na vida terrena e eterna, o crente precisa ser grato a todo tempo, não importa quanto sofra.

“Vingadores: Guerra Infinita” aborda o conflito entre diferentes convicções acerca do Bem e do Mal. Mas nem sempre o que pensamos sobre isso vale para todas as ocasiões.

As obras de ficção de todo tipo reconhecem no Deus cristão um personagem extremamente interessante. Esse interesse se justifica em parte nas grandes contradições presentes no conceito de Deus, que as religiões buscam neutralizar à custa de muito tempo e esforço, mas que não são um problema para os fiéis. No entanto, livre da obrigação de louvar uma divindade e ser grato a ela a todo tempo, o universo da ficção acaba sendo muitas vezes o espaço para a construção e expressão de uma espécie de revolta contra Deus.

Assistindo a “Vingadores: Guerra Infinita”, não pude deixar de pensar que se trata de um filme sobre o Deus das religiões cristãs, mas exposto em todos os seus pontos fracos. Para chegar a esse resultado, os irmãos Russo contaram com os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, e também com Josh Brolin e sua leitura multifacetada do poderoso Thanos, que o singulariza e o liberta do rótulo de “vilão”. Juntos, eles conseguiram o que o pretensioso “Mãe!” sequer chegou perto de alcançar: escancarar os paradoxos do Deus bíblico, que seus fieis precisam suspender para continuar acreditando nele.

O melhor ficou para o fim: Thanos (Josh Brolin) é o personagem mais interessante e multifacetado da série cinematográfica Vingadores.

Uma série de elementos de “Vingadores: Guerra Infinita” reproduzem a narrativa bíblica, mas agora em torno de Thanos, o que nos permite problematizar a ideia de um ser divino, todo-poderoso, onipotente, onisciente e onipresente.

Deus é o criador do universo, portanto estava lá desde sua origem, que os físicos definem como tendo acontecido com a explosão conhecida como o Big Bang. Thanos, embora tenha nascido muito tempo depois, apropria-se das Pedras do Infinito, formadas no Big Bang, para conquistar e incorporar o poder absoluto, primordial e perpétuo – ou seja, um poder divino – que elas contêm. Ao reunir para si o poder das Pedras, Thanos torna-se Deus, com todas as prerrogativas que os seres humanos imaginam para ele.

O projeto de Thanos é o de higienizar os planetas por que passa, a fim de eliminar pela raiz os problemas sociais e ecológicos que podem causar em outros planetas a dizimação que destruiu seu planeta natal. Para o personagem, dissolver metade dos habitantes de um planeta é fazer-lhes um bem, já que com menos pessoas é possível haver melhor administração, mais justiça e mais alimentos para todos. Inflexível nessa convicção, Thanos perpetra assassinatos em massa com um planejamento preciso e a serenidade de um sábio que tem a noção exata do que está fazendo e dos efeitos “benéficos” dos seus atos.

A função de Ebony Maw (Tom Vaughan-Lawlor) é lembrar aos povos dizimados por Thanos que eles precisam agradecer por seus mundos se tornarem lugares melhores.

Ora, na narrativa bíblica, Deus procedeu regularmente a projetos de dizimação de cidades inteiras (Sodoma e Gomorra), de países inteiros (o Egito de Moisés) e do mundo inteiro, com o dilúvio descrito no Gênesis. Os motivos de Thanos são uma atualização das razões de Deus: na Bíblia, os problemas eram, em sua maioria, a degeneração dos costumes e a deterioração moral; em “Vingadores: Guerra Infinita”, as justificativas são as catástrofes ecológicas e a injustiça social. Entretanto, para uma mesma ação, Deus é louvado em sua justiça, e Thanos não passa de um genocida.

Nos evangelhos, Deus manifesta seu amor à humanidade entregando em holocausto seu filho Jesus para tentar ajudar os seres humanos a aprenderem alguma coisa. Thanos também entrega sua amada filha Gamora em sacrifício por sua missão de tornar o universo um lugar melhor. A dor de Thanos ao fazer isso é a mesma descrita como a dor de Deus no Novo Testamento, e isso não o dissuade de impor a si mesmo o sofrimento em função de um bem maior. Mas o gesto de Thanos é visto como egoísmo, em vez de generosidade.

Gamora (Zoe Saldana), assim como Jesus, é o cordeiro imolado pelo bem do universo.

Uma das obrigações dos cristãos é agradecer a Deus por tudo, o que há de bom e também o que há de ruim, porque tudo se realiza de acordo com um determinado projeto divino cujo conhecimento não é permitido à humanidade. Deus é misericordioso porque tem um plano para cada um e não descuida de ninguém, então o sofrimento humano deve ser suportado com alegria e gratidão. Reduzindo a população dos planetas à metade, Thanos também está seguro de ser misericordioso, porque sua ação é benéfica e no futuro trará prosperidade ao planeta. Portanto, todas as pessoas, inclusive as que vão desaparecer, precisam agradecer a ele, porque seu sacrifício tornará seu mundo um lugar melhor. Entretanto, diferentemente da aceitação do crente por tudo o que é enviado por Deus, a misericórdia de Thanos não foi reconhecida.

Num breve momento do filme, Thanos e o Capitão América se encaram, em plena luta desigual. Esse é, entre tantos outros, um dos instantes marcantes do filme, porque Thanos, cara a cara com o Capitão, experimenta sua única hesitação em todo o filme, e uma leve perplexidade. Nada mais previsível diante de um personagem clássico da Marvel que, ao ser reformulado para a atualidade, deixou de encarnar os valores estadunidenses para personificar valores éticos universais – lealdade, coerência, comprometimento, coragem, perseverança. Naquele momento,  Thanos, acostumado a ver apenas o que há de pior nas pessoas, pode ter reconhecido no Capitão América a integridade que Deus reconheceu em personagens bíblicos como Noé e Jó, que por isso foram salvos dos cataclismas impingidos à humanidade. Não ficarei surpresa se a segunda parte das Guerras Infinitas contiver alguma concessão dada por Thanos ao vingador.

Personificação dos melhores valores humanos, o Capitão América (Chris Evans) pode abalar o projeto higienizador de Thanos.

Antes de escrever esse texto, busquei na internet quem mais tivesse relacionado o personagem Thanos, no Universo Cinematográfico da Marvel, ao Deus cristão. Encontrei poucas referências, mas nenhuma sobreposição como a que realizei aqui. As pessoas com quem conversei sobre o filme também não haviam feito essa correlação. Esse fato provavelmente decorre do tabu e da interdição que é revoltar-se contra Deus e seus desígnios, ou seja, contra o ser que criou o universo, porque praguejar contra Deus é uma grande blasfêmia, mesmo num mundo que aparentemente caminha para pior. Mas todas as pessoas acreditam serem horríveis as ações de Thanos, um personagem fictício que fez as mesmas coisas que a Bíblia atribui a Deus.

Isso me faz supor que, de certa forma, a ficção existe, entre outros aspectos, justamente para esta finalidade: a de provocar emoções que possam servir como uma espécie de válvula de escape do ser humano, para que ele possa viver sentimentos que não lhe são acessíveis na experiência cotidiana. No caso de “Vingadores:  Guerra Infinita”, revoltar-se contra uma divindade na ficção o ajuda a continuar a louvar, na vida “real”, a divindade cujos caprichos podem ser os responsáveis por todos os seus infortúnios. Para que a válvula funcione, ele não pode de forma alguma, em momento algum, reconhecer no personagem qualquer traço da entidade correspondente na vida “real”, para que essa entidade continue mantendo sua integridade divina.

Mas a revolta contra Deus precisa existir num espaço onde ela é uma reação sem consequências, porque Deus, para quem acredita nele, precisa continuar sendo muito mais do que a entidade todo-poderosa que vigia e castiga; é aquela que ampara, consola, motiva e premia os que creem nela.

Num determinado momento do filme, Gamora diz a Thanos: “você jamais será um deus”. Penso que era a esse deus ao mesmo tempo pai e carrasco, ao mesmo tempo generoso e cheio de ira, que ela se referia. Esse deus, de fato, Thanos nunca será.

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