Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Virgens Acorrentadas

Virgens Acorrentadas

Wallace Andrioli - 9 de agosto de 2018

Por vezes a metalinguagem em excesso parece servir de proteção contra a falta de criatividade. Esse é o caso de “Virgens Acorrentadas”, produção independente norte-americana dirigida pelo brasileiro Paulo Biscaia Filho, que acompanha a saga do roteirista Shane (Ezekiel Z. Swinford) e de sua namorada Chloe (Kelsey Pribilski) para realizar seu primeiro filme, também intitulado “Virgens Acorrentadas” (ou, no original, “Virgin Cheerleaders in Chains”). O ponto é que o roteiro de Gary McClain Gannaway tenta o tempo inteiro se equilibrar entre contar uma história abertamente filiada ao subgênero slasher e fazer brincadeiras metalinguísticas que comentam as dificuldades de filmar por conta própria, sem grandes aportes financeiros.

Gannaway embaralha ao menos três camadas de realidade: aquela que traz Shane discutindo com executivos e sendo entrevistado, ao lado de Chloe, após o sucesso do filme sobre si próprio tentando realizar “Virgens Acorrentadas”; a narrativa desse último, na qual Shane, o personagem, escreve o roteiro de um slasher; e algumas pequenas cenas desse filme dentro do filme dentro do filme. Tamanha confusão remete a Charlie Kaufman, que chega a ser citado em determinado momento. Mas há uma diferença fundamental: Kaufman consegue, em seus roteiros (dirigidos por ele mesmo ou por Spike Jonze), refletir com densidade sobre o processo criativo, ao mesmo tempo que constrói personagens complexos, cujas crises reverberam dramas humanos para além da arte; Gannaway não consegue fazer mais que repetir clichês sobre esse mesmo tema.

São parentes mais próximos de “Virgens Acorrentadas”, já que também exercitam a metalinguagem em diálogo com o horror, o brasileiro “Conceição – Autor Bom é Autor Morto” (2007), de Daniel Caetano, Samantha Ribeiro, André Sampaio, Guilherme Sarmiento e Cynthia Sims, e o norte-americano “O Segredo da Cabana” (2012), de Drew Goddard. Mas enquanto esse último de fato trafega com criatividade pelos lugares comuns do gênero, reconfigurando-os dentro de uma história inusitada, e o primeiro, tosquíssimo e extremamente bagunçado, ao menos tem momentos divertidos (a sequência em que o pênis de um determinado personagem é decepado segue inesquecível, mais de dez anos depois), “Virgens Acorrentadas” não faz uma coisa ou outra.

Diversão, aliás, é uma noção chave para entender o filme de Biscaia Filho, para o bem e para o mal. O diretor, seus atores, mesmo o roteirista Gannaway parecem ter aproveitado bastante o processo de realização de “Virgens Acorrentadas” e pretendem que a experiência do espectador seja semelhante. Mas seu êxito é pequeno nesse sentido. À exceção do ótimo plano final, o humor do filme não funciona, sobretudo por estar frequentemente concentrado em piadas bobas, óbvias, e num personagem sem nenhuma graça, Billy (Michael Morford), o amigo maconheiro do protagonista, que parece saído dos piores momentos da franquia “Todo Mundo em Pânico” (2000-2013).

Daí vale retomar a questão inicial: por que usar de maneira tão excessiva a metalinguagem quando não se sabe exatamente o que fazer com ela, como torná-la instrumento de criatividade, meio para comentar, de forma minimamente inventiva, o próprio gênero? No caso de “Virgens Acorrentadas”, fica a impressão de que seria melhor construir simplesmente um slasher tradicional, ainda que, em alguma medida, autoconsciente – é difícil não sê-lo após “Pânico” (1996) e suas continuações –, ao invés de um que acredita estar “inventando a roda” ao propor brincadeiras de linguagem que outros já fizeram de forma bem mais competente.

Em razão disso, o espírito de “cinema de guerrilha” presente em “Virgens Acorrentadas”, que o aproxima, pelo modo de produção, do primeiro cinema de Robert Rodriguez – até por também ter sido filmado, quase por inteiro, no Texas, além de repetir uma locação específica de “Sin City – A Cidade do Pecado” (2005) – acaba ofuscado pela muito mal disfarçada pretensão de Biscaia Filho e principalmente de Gannaway.

 

Topo ▲