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Canastra Suja

Canastra Suja

A narrativa rodrigueana é atualizada, mas os personagens ainda dependem de valores conservadores para se salvarem.

Ana Flavia Gerhardt - 11 de janeiro de 2019

A primeira imagem de “Canastra Suja”, filme realizado por Caio Sóh em 2016,  situa a casa da família retratada em posição central no plano. Um dos seus moradores nos convida a entrar e conhecer os ambientes da casa e quem vive nela. A maneira como Sóh conduz sua câmera a fim de nos oferecer o máximo de conhecimento possível sobre espaços e personagens antes de iniciar a narrativa em si nos faz mergulhar e reconhecer, de partida, que se trata de uma obra artística localizada na linha dramatúrgica rodrigueana, que busca explicitar as hipocrisias familiares da sociedade brasileira. Porém, como obra contemporânea, “Canastra Suja” atualiza a perspectiva de Nelson Rodrigues para os tempos atuais, tornando-se com isso um documento sociológico relevante na busca de entendermos as raízes micropolíticas do pensamento ultraconservador, que assumiu o poder no Brasil este ano.

Como nas narrativas rodrigueanas, em “Canastra Suja” há algo de podre a desvirtuar o papel de cada uma das figuras típicas do patriarcado: o pai provedor, a mãe dona de casa e os filhos jovens e sexualmente atraentes, respondendo ao chamado dos hormônios fora do casamento. Assim, logo se vê o pai alcoólatra, frustrado, impositivo e em competição constante com o filho, a filha de comportamento moral dúbio, a outra filha pura e inocente, a mãe que vive uma existência paralela quando os filhos saem para trabalhar, além de um elemento externo e perturbador a denunciar a perigosa instabilidade emocional da família – na primeira de três das possíveis leituras metafóricas do título, ele seria o coringa a sujar a canastra.

A composição híbrida elaborada por Caio Sóh pode ser tomada como um dos aspectos da família brasileira contemporânea, que já não tem condições financeiras para manter o patriarcado mas ainda luta para concretizar os valores que persistem no imaginário brasileiro e que compuseram, como personagem principal, a base ideológica da campanha vitoriosa para a presidência do Brasil em 2018. Nesse sentido, o termo “canastra suja” acaba motivando outra metáfora possível: se olharmos um pouco mais de perto, a canastra perfeita almejada pelos brasileiros mais conservadores, símbolo da família heteronormativa, a família de propaganda de margarina, em que todos os papeis sociais e de gênero idealizados estão presentes, é inviabilizada pelo coringa que é a realidade sócio-econômica, que diminui o seu valor no jogo da vida.

O grupo familiar composto por Batista (Marco Ricca), Maria (Adriana Esteves) e seus filhos Emília (Bianca Bin), Pedro (Pedro Nercessian) e Rita (Cacá Otoni)  materializa de forma brilhante pela decadência financeira que deteriora as condições de vida dos brasileiros de classes sociais menos favorecidas e lhes rouba a dignidade. Batista sustenta a casa com um emprego de valet hum hotel de luxo e suporta a grosseria dos hóspedes; a bebida lhe serve como escape emocional e é sua desculpa para desrepresar seus instintos violentos na competição com Pedro, mais jovem e mais potente sexualmente. Este, por sua vez, não tem emprego nem qualquer perspectiva profissional, e obviamente se sente diminuído por depender do pai.

No grupo das mulheres, Emília, também sem perspectivas, usa a beleza e juventude em busca de um marido que possa sustentá-la. Maria, sem renda própria, precisa humilhar-se para financiar o projeto de retardar o próprio envelhecimento – num dado momento, Esteves imprime um sutil rancor à fala de sua personagem que reconhece a beleza da filha. Rita é autista e portanto sem agenciamentos, mas é elemento catalisador essencial na dinâmica familiar.

A questão econômica definindo os conflitos é um dos componentes contemporâneos de “Canastra Suja”, e encontra contraponto no esforço emocional imenso de todos os personagens em se manterem unidos, mesmo com todas as dificuldades de relacionamento causadas pelas circunstâncias adversas, que embrutecem as afetividades e transforma em violência e truculência as manifestações de amor e preocupação que eles mantêm entre si.

E a câmera que Sóh sempre traz à mão, concentrada em capturar de perto a expressividade de atores completamente entregues à verdade de cada personagem, reforça a certeza de que estamos diante de pessoas que se amam, mas as feridas da vida as levam tanto a se culparem mutuamente como a buscarem válvulas de escape (essa busca é mais evidente nos personagens de Esteves e Ricca) que lhes permitam aguentar dividir a mesma casa junto com outras pessoas tão miseráveis quanto.

Evidentemente, o feito de Sóh só seria possível com grandes atores a defender a humanidade de seus personagens com sangue e espírito. O grupo está coeso em termos de entendimento das questões do filme e registro de atuação, apenas com Adriana Esteves destoando do grupo em dados momentos, quando incorpora a Carminha de “Avenida Brasil” e escorrega no overacting. Marco Ricca é o grande nome do filme: está soberbo compondo uma figura multifacetada, completamente fora dos estereótipos da embriaguez; entrega-nos um personagem desprovido de afeto e capaz de uma violência que pode explodir a qualquer momento, mas sua imensa infelicidade nos provoca simpatia e desejo de que em algum momento ele consiga sair do abismo existencial.

Os filhos Pedro, Rita e Emília também defendem seus personagens com grande talento, que se ilumina mais ainda com a juventude dos atores. É notável a organicidade da atuação de Pedro Nercessian, que, em dupla com Ricca, provoca a tensão constante que resulta das frustrações de homens que, na contemporaneidade, não conseguem sequer disfarçar que ainda mantêm alguma proeminência na família, e não fazem ideia de como agenciar novas identidades sociais.

Diante da inaptidão emocional dos homens da família, que não sabem o que fazer quando seu papel de machos-alfa é desafiado pelos mais jovens e pela precariedade financeira, a Emília de Bianca Bin aparece como a personagem que se soma à mãe Maria, e cada qual à sua maneira, para constituir o alicerce existencial do grupo. Essa agentividade agregadora feminina é o segundo componente contemporâneo do drama familiar de “Canastra Suja”: quando os homens estão perdidos e sem chão, fica mais aparente ainda o que as mulheres têm feito por séculos nos núcleos familiares, que é o que lhes restou no patriarcado: manter as pessoas unidas, não importa quão difícil é elas conviverem sob o mesmo teto, por todas as razões que todos os que crescem num ambiente familiar conhecem muito bem.

O problema é que o roteiro, também assinado por Caio Sóh, ainda opta por soluções conservadoras à moda rodrigueana, as quais exigem o sacrifício dessas mesmas mulheres para resolver a vida das quatro e tristes figuras em conflito. E ele está reservado à caçula Rita, a filha autista, imolada em nome da comprovação de que os outros personagens ainda trazem algo de bom, por isso vale a pena acreditar neles. Rita é o elemento que permite uma terceira leitura para a metáfora da canastra: como o grande coringa, ela surge involuntariamente para unir de vez aquelas pessoas e mostrar que, juntas, elas podem virar o jogo. Mas é de se lamentar que isso tenha acontecido com a adoção de soluções patriarcais, machistas e nada originais para as crises pessoais e de relacionamento que o filme aborda.

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