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Homem-Aranha: No Aranhaverso

Homem-Aranha: No Aranhaverso

Uma das melhores adaptações do Amigão da Vizinhança para outra mídia

Gustavo Pereira - 9 de janeiro de 2019

“Homem-Aranha: No Aranhaverso” tem a alma formada por autoconsciência e homenagem. Ao mesmo tempo que é diferente de todos os seis filmes (!) live action do Cabeça de Teia, funciona melhor precisamente por conta deles. Ao lado de Batman e Superman, o Aranha é um dos heróis com mais adaptações além-quadrinhos: gerações cresceram com ele e têm suas próprias referências sobre o personagem. O que “Aranhaverso” faz é colocar todos esses elementos numa história coesa, reconhecendo o legado da instituição Homem-Aranha na ficção.

Homem Aranha no Aranhaverso Spider Man Into The Spider Verse

Já no começo do filme, a citação do Tio Ben de Cliff Robertson “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades“, uma das mais marcantes do gênero super-herói, define o tom da obra e de seus protagonistas. O Homem-Aranha é o único caso em que a vida da pessoa por trás da máscara piorou com os poderes (alguém lembra de “Homem-Aranha 2”, quando Peter Parker rejeita a vida de herói e consegue estudar, ter um emprego e reconquistar Mary Jane?), mas que não é capaz de abdicar deles. O Homem-Aranha é um herói forjado pela dor da perda e movido pelo senso de dever. Com isso em mente, versões alternativas de origem, tempo e espaço são ilimitadas.

Para começar, com o protagonista de “Aranhaverso”: Miles Morales (Shameik Moore) é um garoto negro de ascendência hispânica, morador do Brooklyn e filho de um policial (Jefferson Davis, dublado por Brian Tyree Henry) que considera o Homem-Aranha um justiceiro infrator da lei que deve ser preso. Quando Miles é picado por uma aranha geneticamente modificada e o Peter Parker de seu universo (Terra-1610, a título de curiosidade) é assassinado pelo Rei do Crime (Liev Schreiber), ele não se importa com o fato de não ter a mínima ideia de como usar seus poderes ou mesmo o alcance desses poderes. Ele assume como uma meta inegociável continuar a obra do Homem-Aranha e concluir o trabalho de Parker, evitando que Fisk abra o portal interdimensional que destruirá não apenas o seu universo, mas a Realidade em si.

Homem Aranha no Aranhaverso Spider Man Into The Spider Verse

Essa trama pode parecer mirabolante (e, no fim das contas, é mesmo), mas é quando a mídia ajuda: num filme live action, seriam necessárias inúmeras explicações sobre como a tecnologia para viajar entre dimensões foi criada e toda a história por trás da motivação para ela existir. Em uma animação, além de naturalmente existir uma maior suspensão de descrença, o uso da técnica narrativa na qual o começo da história acontece fora da tela (in media res, latim de “no meio das coisas”) torna o ritmo do filme mais dinâmico. Miles  está na escola, o Homem-Aranha  é um herói conhecido, Wilson Fisk  é um bilionário ligado a atividades ilícitas, o portal  foi criado etc. Quando algo precisa ser explicado com mais detalhes, um flashback de segundos basta.

Homem Aranha no Aranhaverso Spider Man Into The Spider Verse

Este é o ponto central de “Aranhaverso”: o filme funciona como uma introdução ao(s) universo(s) do Teioso e sua história é contida dentro de si mesmo (há, inclusive, algo raro no gênero como um todo, a motivação do vilão é comovente e gera empatia na audiência), mas pessoas com “bagagem” sobre o Homem-Aranha vão aproveitá-lo mais. Na condição de um jovem adulto que cresceu vendo a trilogia de Sam Raimi no cinema, digo que um sorriso de orelha a orelha brotou espontaneamente nos meus lábios quando percebi que o Peter Parker mentor de Miles é o da Terra-96283, exatamente a versão eternizada por Tobey Maguire. A cópia brasileira de “Aranhaverso” conta inclusive com o mesmo dublador, o carioca Manolo Rey (a voz original é de Jake Johnson).

Se valendo da liberdade inerente às animações, “Aranhaverso” tem uma fotografia de paleta saturada, contrastante, viva. A sequências de ação, não sendo limitadas por nenhuma questão prática, são das mais inventivas do passado recente: ao mesmo tempo que utilizam movimentos inviáveis na “vida real” (como uma inversão de câmera em queda livre), o ritmo e a montagem das lutas permite uma riqueza acima da média de informações sem nenhuma perda de sentido. O tempo inteiro, temos noção de espaço, movimentos e lógica intrínsecos a lutas, perseguições e pura diversão.

Homem Aranha no Aranhaverso Spider Man Into The Spider Verse

Porque essa é a cereja no bolo de “Homem-Aranha: No Aranhaverso”: o filme é organicamente divertido. As piadas, sejam elas visuais ou de roteiro, fazem parte das cenas, em vez de serem simplesmente encaixadas à força no meio delas. Fazer Miles Morales, Peter Parker, Mulher-Aranha, Spider-Ham, SP//dr e Homem-Aranha Noir (este dublado por ninguém menos que Nicolas Cage!) funcionarem em equipe, cada um respeitando suas particularidades (como a incapacidade de Aranha Noir de distinguir cores ou os dispositivos cartunescos do Spider-Ham), naturalmente cria situações cômicas. O filme não perde nenhuma delas.

Homem Aranha no Aranhaverso Spider Man Into The Spider Verse

E, por favor, não saia do cinema até que as luzes acendam: a segunda cena pós-créditos é a melhor já feita em qualquer filme da Marvel.

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