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BR 716

BR 716

Matheus Fiore - 31 de outubro de 2016

BR 716, novo filme de Domingos de Oliveira, retrata a vida de jovens em Copacabana, no período pré-Golpe Militar de 1964, quando o Rio de Janeiro, berço cultural do país, era um verdadeiro palco de histórias de ode à liberdade. A narrativa acompanha Felipe (Caio Blat), um jovem engenheiro que, apesar de sua formação, possui uma forte paixão pela arte (assim como o diretor e roteirista do filme, também formado em engenharia) e vive suas paixões e amizades intensamente.

Como anunciado já no começo da projeção, a ideia é retratar que os personagens estão quase sempre bêbados ou entorpecidos. Este conceito é muito bem estabelecido principalmente pela direção do filme, que utiliza muitos ângulos abertos e câmera em constante movimento, competentemente inserindo o espectador no ponto de vista alcoolizado dos personagens.

O filme possui um forte tom niilista, sem ter uma narrativa focada em estruturar uma história com início, meio e fim bem definidos. Aqui, estamos apenas acompanhando as festas e emoções dos personagens. É um verdadeiro retrato de um poético período onde o povo carioca era mais sorridente e livre. A fotografia em preto & branco é outra escolha acertada, e funciona não  só para ambientar a história em seu devido período como para destacar a parte ficcional dos trechos extra-diegéticos que abrem e fecham a película, mostrando o processo de preparo do elenco e equipe de produção para gravar BR 716.

A escolha de mostrar elementos extra-diegéticos aliados à construção da mise-en-scene com planos conjuntos e atuações espontâneas (com fortes indícios de improvisos) constroem um bem-vindo clima teatral no longa, o que é bem coerente se observarmos que o diretor e roteirista Domingos de Oliveira é oriundo do teatro. A linguagem cinematográfica, porém, prevalece principalmente no uso de plongées e contra-plongées que, por serem mais alternados por movimentos de câmera do que por cortes, soam muito naturais e fazem inclusive referência à estética da Nouvelle Vague francesa, que estava em evidência na época.

Caio Blat está impecável no papel protagonista. Apesar de não emular o sotaque carioca, o ator encontra um meio-termo entre o espontâneo e o técnico e constrói um jovem símbolo de sua geração, sendo extremamente passional, inquieto e despojado. O aspecto mais interessante do personagem é sua facilidade de se apaixonar e desapegar. Como o amor é, além da arte, o único elemento capaz de faze-lo parecer sóbrio, quando encontra uma mulher que o fascina, além de mudar sua postura e olhar, a câmera abandona os excessos e fica estática, focada, como o olhar de Felipe.

Outro fator interessante e extremamente sutil é a alienação do carioca em relação à tensa situação política do Brasil. O tema só é introduzido na trama com a chegada de um personagem de fora do Rio de Janeiro. Mesmo assim, o clima da cidade logo abafa os medos e receios e reconduz a trama às festas. Apesar de ser condizente com o tom saudoso do filme, mostrar o lado negativo da vida boêmia e desapegada apresentada era uma ideia bem-vinda e daria mais peso à narrativa. O filme poderia, afinal, servir também como crítica ao período da ditadura.

Sendo o grande vencedor do Festival de Gramado em 2016, BR 716 é divertido e nostálgico ao retratar um período de extrema liberdade de parte do povo carioca, mas não deixa de trazer uma sutil melancolia ao evidenciar que, por alienar-se no entretenimento, na arte e nas ideologias, o brasileiro não previu a chegada do período de maior opressão da história do país, onde provavelmente boa parte daqueles interessantes personagens viria a ser perseguida, torturada e até assassinada.

 

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