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Venom

Venom

Gustavo Pereira - 4 de outubro de 2018

Desde os primeiros teaser trailers, estava claro que “Venom” seria uma adaptação muito distante do vilão do Homem-Aranha que surgiu nos quadrinhos em 1988. Esse é, inclusive, o primeiro conselho que se pode dar a quem for ao cinema ver o filme estrelado por Tom Hardy: esqueça dos quadrinhos. À exceção de nomes e pequenos detalhes sobre a origem do simbionte, o diretor Ruben Fleischer contou uma história quase que autoral.

Isso não significa que Fleischer tenha feito um bom trabalho. Ao contrário: “Venom” é uma das piores adaptações de quadrinhos já feitas. Rivaliza com “Batman & Robin” e “Mulher-Gato”. Porque, se a ideia de levar o personagem por novos caminhos é até interessante, não há nenhum esforço de pavimentar esta estrada com coesão, coerência, ritmo e engajamento.

Venom Tom Hardy Marvel 2018 Michelle Williams

Começando pelo mais importante: Eddie Brock (Tom Hardy) é retratado como um repórter investigativo com “perfil Pulitzer“, alguém capaz de sacrificar a vida pessoal pela profissão. Mais efetivo que falar, seria mostrar essa fibra moral no protagonista, mas isso é algo que se pode relevar, pensando nas limitações do editor em montar um filme de duração “comercial”. Porém, na primeira atividade profissional efetiva, Eddie se prova, ao mesmo tempo, um péssimo repórter e nada obstinado. Não consegue extrair a verdade de seu entrevistado, expõe e prejudica suas fontes e desiste. Não há nada, além da palavra do roteiro, que prove a sua competência e a dificuldade desta tarefa em específico. Essa é a primeira quebra grave na coerência interna do personagem.

O vilão Carlton Drake (Riz Ahmed) parece vagamente inspirado em Elon Musk, o bilionário que quer desbravar o espaço, mas vira e mexe aparece metido num trambique. Mais uma vez, “Venom” falha na simples tarefa de dar consistência a um personagem: o desprezo de Drake pela humanidade não tem uma origem com o mínimo apelo no público. Dessa forma, ele parece um vilão genérico de desenho animado, que só quer “o mal pelo mal”. Filmes muito menos ambiciosos, como “Rampage“, conseguiram estabelecer melhor seus antagonistas.

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Mais do que apresentar mal seus dois personagens principais, o filme não tem nenhum ritmo para desenvolver sua narrativa. Existem filmes, como “O Predador“, que não querem oferecer bases sólidas para nada, querem ir direto para a “porrada” e não têm vergonha em admitir isso. “Venom”, entretanto, anda em círculos como uma galinha bêbada: há saltos temporais que não existem para nada além de justificar um pequeno avanço na história, cenas inúteis que só reforçam ideias simplórias (Brock é um fracassado e Drake é uma encarnação do Mal) e inúmeras pequenas regras sobre a dinâmica simbionte/hospedeiro, que somente tentam dar um ar “científico” ao filme, mas são ignoradas ou diretamente desrespeitadas de acordo com a conveniência do roteiro.

A própria relação entre Venom e Eddie, a única ideia minimamente interessante do filme inteiro, é arruinada por desconhecimento da referência utilizada: os diálogos entre o alienígena e o repórter são claramente inspirados em “O Médico e o Monstro”. No livro de Robert Stevenson, o Doutor Jekyll é confrontado por Mr. Hyde (Hyde é um homófono de “hide”, verbo em Inglês que significa “esconder”). O “Senhor Escondido” nada mais é do que um lado da personalidade do próprio Jekyll que se torna independente e incontrolável. Se Venom servisse para destravar desejos reprimidos de Brock e lhe fizesse conhecer melhor a si próprio, o filme teria um conflito que, em si, se bastaria. Em vez disso, temos uma relação de parasitismo virando mutualismo, sem nenhuma base além de empatia. Por mais que o cinema não seja obrigado a se submeter aos quadrinhos, pensar em Venom como uma criatura empática é um pouco além da conta.

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Se esses problemas seríssimos afetam os personagens mais importantes, o que dizer dos secundários? É quase criminoso o desperdício de um talento como o de Michelle Williams, que interpreta Anne, o interesse romântico de Eddie, com a profundidade de uma folha de papel. Jenny Slate, que em 2014 estrelou o excelente “Entre Risos e Lágrimas”, tem três cenas antes de ser descartada pelo roteiro. O mais frustrante é que nem as cenas de ação compensam: muitos cortes, iluminação quase zero e um personagem cuja cor predominante é o preto fazem de cada perseguição e confronto uma grande confusão visual em que pouco há para se apreciar.

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Pode parecer crueldade, mas a melhor parte de “Venom” é sua segunda cena pós-créditos: um teaser de “Homem-Aranha: No Aranhaverso”.

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