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Clímax

Clímax

Provocação confortável

Wallace Andrioli - 31 de janeiro de 2019

Gaspar Noé apresenta os personagens de “Clímax” por meio de entrevistas exibidas numa TV rodeada de livros sobre cinema e de fitas VHS de alguns filmes queridos seus. Dentre eles, “Suspiria” (1977), de Dario Argento, “Salò ou os 120 Dias de Sodoma” (1975), de Pier Paolo Pasolini, e “Possessão” (1981), de Andrzej Zulawski. É interessante pensar o peso dessas referências sobre “Clímax”. Do primeiro, Noé parece tirar a ambientação no universo da dança e a presença de um componente demoníaco por trás dele. Do controverso “Salò” vem o crescente horror que se desenrola num espaço delimitado. Do filme de Zulawski, a relação com o estranho, com o absurdo, e o comportamento extático dos personagens.

No entanto, “Clímax” está também muito bem localizado no cinema de seu diretor. Noé frequentemente se interessa por situações limítrofes, pelo borrar de uma linha tênue que separa a vida da morte, a alegria do desespero, o cotidiano do extraordinário. Ao narrar de trás para frente a história de “Irreversível” (2002), ele reforçou a efemeridade dos bons momentos, potenciais antecessores de verdadeiros pesadelos. Já em “Viagem Alucinante” (2009), os personagens se referem à semelhança entre os efeitos de determinada droga e a experiência da morte – e o filme tem um protagonista que, usuário de substâncias alucinógenas, continua vagando pelo mundo dos vivos após morrer. Em “Clímax”, trabalho e diversão (ambos caracterizados pelo ato de dançar), viagem lisérgica e horror, festa e inferno se confundem.

A vontade de impactar o público com imagens e situações extremas é uma constante no cinema de Noé. Mas, mesmo se repetindo nessa pretensão, “Irreversível” e principalmente “Viagem Alucinante” possuem alguma dimensão de experimentação. O primeiro, na construção de uma determinada relação imagética com a passagem do tempo. O segundo, no flerte com certa cafonice espiritualista ao contar a história de um espírito errante, bem como em algumas opções visuais (a câmera subjetiva que organiza quase todo o olhar para o universo do filme) e de distensão temporal, que tendem a tornar a experiência de vê-lo excessivamente enfadonha – o oposto, portanto, da intensidade ininterrupta de “Irreversível”.

Já “Clímax” é um retorno de Noé a um estado de conforto, ainda que travestido de provocação. O diretor repete não só recursos estéticos (os planos-sequências e o recorrente uso de ângulo zenital, a brincadeira com os créditos iniciais e finais), mas temas e situações de seu filme mais famoso e divisivo. A segunda parte da narrativa, em que a bad trip coletiva acontece, é basicamente uma espécie de versão estendida da sequência do bar gay de “Irreversível”. A ideia de “descida ao inferno” é retomada abertamente, com a única novidade de se dar, dessa vez, num ambiente restrito a pessoas que se conhecem minimamente.

A primeira metade de “Clímax” guarda momentos mais interessantes, sobretudo pela mise-en-scène das sequências de dança, eficaz em capturar a energia da interação profissional dos muitos personagens. A segunda, por sua natureza extrema, remete um pouco ao segmento equivalente de “mãe!” (2017), de Darren Aronosfky, já que cada retorno da câmera (geralmente acompanhando Sofia Boutella, mas nem sempre) ao salão principal carrega certa imprevisibilidade, podendo significar algum tipo de reconfiguração das ações e relações ali desenvolvidas. No entanto, Noé tem muito pouco a oferecer de verdadeiramente surpreendente, ao contrário de Aronofsky. Afinal, era bastante previsível que tudo descambasse para sexo e violência, tanto pelo mote do filme, quanto pelas predisposições de seu diretor.

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