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Colette

Colette

Colette reencena a sua história. 

Gabriel Carvalho - 28 de janeiro de 2019

“Colette” é uma cinebiografia que pode ser enxergada como comum em muitos sentidos. Os seus enquadramentos mais tímidos, sem uma ousadia aparente, e as suas seguras movimentações de câmera são possíveis exemplos que justificariam uma passividade do longa-metragem. Será que nociva ao conteúdo apresentado? Uma visita supostamente morna à virada do século XIX para o XX inicia-se com um casamento, e Wash Westmoreland possui todos os adereços necessários para movimentar essa jornada de época. Os figurinos são extremamente elaborados, constantemente variando e dando vida aos personagens, em cada uma de suas várias reencarnações. As roupas assumem uma responsabilidade narrativa, entrecortando gêneros e situações conturbadas, que é quase primordial ao conjunto da peça. E a cenografia consegue transportar corretamente o espectador à época em questão. Como se o feminismo pertencesse a uma época. “Colette” é, acima de tudo, sobre o reconhecimento de quem está escrevendo a história. E essa mulher realmente contribuiu para escrever a história, não apenas a de alguns livros, mas a do mundo.

A assinatura da personagem principal é uma marca que estampa os pôsteres de “Colette” e também o seu coração, o cerne do seu enredo. A protagonista, interpretada por Keira Knightley, é uma mulher que, ainda ingênua – e igualmente coagida -, permitiu o seu marido, aqui encenado por Dominic West, ganhar prestígio através das desventuras da personagem Claudine, pensadas e escritas por ela, mas assinadas por Willy. Uma poderosa jornada de emancipação feminina começa em consequência. Mas os méritos nascem da constatação que a obra usufrui justamente de uma serenidade cinemática, menos desesperada em ser algo maior, para então conquistar o seu âmago. Wash Westmoreld, enquanto cineasta responsável pela obra, quer dar voz à autora, não ser a voz dessa representação passada de Colette. Eis uma direção correta o máximo que consegue ser e pronto. O que não é necessariamente uma característica negativa, porque Westmoreld consegue consolidar o roteiro e suas respectivas intenções muitíssimo bem. “Colette” até parece uma obra cinematográfica que seria feita nos anos noventa. O seu charme está na sua simplicidade e, de certa maneira, na sua abordagem de uma obra de época como sendo verdadeiramente uma obra de época.

“Colette”, em contrapartida, surge mais de um século após os acontecimentos que retrata. Entre uma produção dos anos noventa, e que certamente ganharia uma indicação ao Oscar em tempo, já são décadas. Mas essa é uma história que, mais do que nunca, urge ser resgatada. E ser resgatada assim, com uma anacronia mais incômoda, embora imprescindível. Um projeto perdido no tempo e que, com isso, exemplifica a atemporalidade de suas temáticas e de certas lutas. O pioneirismo é revelado em camadas mais usuais de cinema, engrandecido por mostrar-se concreto mesmo perante uma estrutura menos inovadora. Do contrário, a história em questão que é a principiante por excelência. Um confronto que surpassa décadas e até mesmo maneiras de se realizar cinema. O cineasta responsável simplesmente se entrega ao enredo e a trajetória da protagonista. Quando é para “Colette” ser maior que uma produção ordinária, Keira Knightley é quem a comanda, no momento do real reconhecimento e da verdadeira emancipação da sua personagem. O exemplo é um dos planos, mais para frente na narrativa, que exalta os olhos de Colette em um close-up. Os olhos mais selvagens que poderiam ser expostos. Westmoreld está à mercê completa de quem fora essa mulher. Knightley, como mesmo afirma em uma passagem, é Claudine, que é Colette. O quão poético é termos uma cinebiografia sendo interpretada pela própria lenda, não em carne, mas em alma.

Um longa-metragem que consegue, em outra instância, resistir à tentação, compartilhada com outras cinebiografias, de ocupar-se com toda a vida de certo personagem, ao invés de um recorte menos grandioso. A segunda opção é a de “Colette”. Os anos passam sem pressa, e o enfoque é mais conciso do que de costume a projetos da mesma espécie. As aventuras entre marido e mulher são encaminhadas ao nosso conhecimento, principalmente o quanto ambos vão cada vez se separando mais. “Que triste”, se entristece Willy quando recupera um antigo presente concedido a sua esposa. A missão de “Colette”, enquanto cinema, mesmo sendo cinema de outrora, é objetiva: reconhecer quem está assinando e quem possui a aura do artista que nunca será esquecido. Wash Westmoreland está contando uma excelente história – e está contando-a muito bem. Os pequenos passos são exemplificados, rejeitando uma correria costumeira para que a personagem já alcance, abruptamente, o êxito esperado. O texto, porém, está muito longe de ser o mais preciso de todos os tempos, o que se contrapõe com a trilha-sonora, acertando nas proposições. Thomas Adès coerentemente permite essa sua serena melodia, ainda assim vigorosa, encorpar tanto a atmosfera de época, menos enviesada, quanto os momentos que contra-argumentam a rotina de submissão da personagem.

A protagonista anseia conseguir alavancar o seu nome por si só e se emancipará cautelosamente. O que aconteceu já aconteceu, apenas precisa de alguém para contar ao mundo. Mas a revolução não é armada da noite para o dia. Como são fatos de uma era pertencente ao passado, Colette conquista a propriedade de si mesma aos poucos, comendo pelas beiradas, mas comendo. Cada uma das proezas são sentidas. O envolvimento amoroso com uma outra mulher. O uso de roupas teoricamente masculinas. A exposição do seu peito nu em uma peça teatral. O beijo lésbico em uma outra. “Colette” consegue ser ácida enquanto resiste, cinematograficamente, no escopo menos agressivo imaginável – o das cinebiografias de época. Não é gratuitamente que o longa-metragem se encerra com o reconhecimento da artista. Outros projetos insistiram em mostrar os momentos posteriores de sucesso de suas estrelas, enquanto, aqui, o reconhecimento é suficiente. Essa incrível mulher é, portanto, aclamada pelo seu público, para nunca mais ser esquecida. “Colette” é um grande autógrafo do ícone homônimo, reescrito para um novo século repetir o seu nome para as próximas gerações. Colette… Colette… Colette.

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