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Guerra Fria

Guerra Fria

Assim como “Doutor Jivago”, “Guerra Fria” mostra um amor refém de forças maiores

Matheus Fiore - 31 de janeiro de 2019

Não chega a haver uma quebra direta da quarta parede em “Guerra Fria”, novo filme de Paweł Pawlikowski (do elogiado “Ida”), mas são uma constante na narrativa planos que trazem os personagens se comunicando com a câmera. Aliás, mais do que constante, são uma marca retroativa ao longo da projeção. Os três primeiros sujeitos vistos na obra se comunicam com o público olhando diretamente nos olhos. É como se Pawlikowski visse sua câmera como uma janela pela qual aqueles personagens pudessem mostrar, com arte e com olhares, aquilo que vivem mas são incapazes de conceber. São, afinal, pessoas reféns de um contexto sociopolítico complexo e duro, no qual as pessoas parecem não ter noção da crueldade que a elas é imposta, mas sabem da dor que é estar ali.

“Guerra Fria” acompanha, ao longo dos anos, a trajetória de um casal de músicos formado por Zuzanna Lichon (Joanna Kulig) e Wiktor Warski (Tomasz Kot). O casal tenta sobreviver em um mundo que parece não ter espaço para seu amor. Por tratar desse amor impossível, que até tenta resistir ao tempo mas carece de força para transcender um sistema sólido e opressor, “Guerra Fria” lembra de um dos grandes clássicos do cinema: “Doutor Jivago”, obra de David Lean lançada em 1965.

Ambas as obras acompanham casais que tentam tornar possível um amor que vai contra a ordem de suas sociedades. Na obra de Lean, porém, a impressão que fica é que o amor, mesmo que não podendo ser contemplado plenamente, é um elemento forte o bastante para manter aqueles personagens vivos, lutando constantemente por sua própria liberdade, mesmo que suas vidas os afastem e os coloquem em caminhos opostos. Já Pawlikowski apresenta uma visão diametralmente oposta. O mundo de “Guerra Fria” é fechado, sufocante; os personagens, por mais que se esforcem, parecem não ter esperança de um final feliz, o que se reflete nas atuações deliberadamente mornas e entorpecidas do casal protagonista.

A razão de aspecto quadrada e a fotografia em preto e branco também são elementos importantes para estabelecer o universo de “Guerra Fria” como um cenário em que é impossível contemplar mudanças. São elementos silenciosos, que ajudam a estabelecer o tom e as regras da obra. Chama atenção também como Pawlikowski opta, muitas vezes, por posicionar a câmera de modo que os personagens ocupem apenas a parte inferior do quadro. É como se houvesse uma força os empurrando para baixo, uma força que os impede de ascender – escolha que, aliada às atuações frias dos personagens, ajuda a estabelecer essa ideia de que todos vivem sob um sistema insuperável.

Utilizando a marcação do tempo para evidenciar a impossibilidade de alterar esse cenário – a obra acompanha a jornada da dupla protagonista por diversos anos, mas nunca há uma transformação efetiva no universo de “Guerra Fria”–, Pawlikowski cria um drama angustiante justamente pelo fato de sabermos, desde o início, que um final feliz é extremamente improvável. Os cortes abruptos, que sempre interrompem as cenas antes que as ações sejam concluídas, tornam o filme episódico e fortalecem essa ideia de que Zuzanna e Wiktor são reféns do destino.

Os muitos planos que trazem diversos rostos em espaços apertados são a cereja do bolo na obra de Pawlikowski. Com tais imagens, o polonês nos mostra que, apesar de escolher o recorte do casal impossível, sua trama é sobre um povo inteiro. Pessoas que têm seus sonhos e desejos mutilados por muralhas intransponíveis. São indivíduos tratadas como gado, e têm até mesmo a arte, a forma máxima de expressão humana, transformada em algo gélido e sem propósito. A angústia está em perceber que a guerra de “Guerra Fria” é uma batalha perdida, mas há o alento de podermos revisitar tais obras e trabalhar para que o futuro nos reserve coisa melhor.

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