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High Flying Bird

High Flying Bird

A energia revigorante da política

Wallace Andrioli - 11 de fevereiro de 2019

Quem cresceu na década de 1990 deve se lembrar do locaute que ameaçou a temporada 1998-1999 da NBA. Michael Jordan havia acabado de se aposentar pela segunda vez, após conquistar seu sexto título da liga americana de basquete, e jogadores e donos de equipes entraram em desacordo a respeito de seus respectivos ganhos financeiros. Após seis meses de paralisação, um campeonato mais curto que o normal foi disputado. “High Flying Bird”, de Steven Soderbergh, ambienta sua história num cenário semelhante. O foco recai sobre Ray Burke (André Holland), agente esportivo que representa Erick Scott (Melvin Gregg), calouro da equipe do New York Knicks sobre o qual é depositada grande expectativa. Após um semestre de locaute, Burke precisa lidar com uma série de incertezas, que vão de sua situação econômica ao futuro da carreira de Scott.

O protagonista de “High Flying Bird” tem uma relação ambígua com o status quo da NBA. A partir de certo momento da narrativa, ele parece querer destruí-lo. Burke chega a verbalizar essa intenção e articula planos para concretizá-la. Há aqui uma ideia de amor ao jogo, muito bem construída por Soderbergh e pelo roteirista Tarell Alvin McCraney através de um inesperado componente emocional, num personagem central quase sempre calculista. É bastante sincero o afeto de Burke pelo passado do basquete, encarnado no filme tanto na memória de seu primo já falecido, ex-jogador profissional que (provavelmente) cometeu suicídio por não poder se assumir homossexual, quanto na nostalgia do velho treinador Spence (Bill Duke).

No entanto, no fim das contas o protagonista está trabalhando não para destruir a NBA e criar uma nova forma de organização do esporte, como anuncia em determinado momento, mas simplesmente pelos interesses dos atletas e, especialmente, o retorno do campeonato, que é seu ganha-pão. Na cena final, Burke recebe em seu escritório o sociólogo e escritor Harry Edwards, autor do livro “The Revolte of the Black Athlete”, a tal “Bíblia” entregue a Scott logo no início. Edwards é considerado um reformista do meio esportivo e McCraney e Soderbergh se alinham a seu pensamento em “High Flying Bird”. O protagonista ameaça com a revolução para obter a reforma. Afinal, como ser revolucionário num meio movido a cifras milionárias? Como esperar um ataque às estruturas de alguém que lucra com a permanência, ainda que atenuada, do estado das coisas? Daí Burke ser esse misto de cínico e utópico.

“High Flying Bird” marca a segunda experiência de filmagem de Soderbergh com iPhone, após “Distúrbio” (2018). Mas o estranhamento produzido pelas imagens do filme vem menos do dispositivo do que de escolhas de enquadramento (os constantes plongées e contra-plongées) e de efeitos óticos (a emulação do uso de lentes grande angulares, que, distorcendo o espaço da ação, reforça o estado de instabilidade em que os personagens se encontram, por conta do locaute). Nada, portanto, que não pudesse ser produzido com câmeras convencionais.

Soderbergh se comporta, assim, de forma semelhante a Burke. Sem de fato almejar destruir as estruturas hollywoodianas há muito estabelecidas, ele experimenta, incorpora tecnologias, trafega por gêneros e diferentes formas de produção e distribuição (“High Flying Bird” foi lançado pela Netflix). Vai, aos poucos, contribuindo para borrar mais as fronteiras entre cinema independente e mainstream, filmes feitos para a tela grande e para a TV. Mas, nesse caso específico, para além do valor de experimentação, há o mérito de uma volta do diretor à boa forma. A escrita afiada de McCraney, co-roteirista de “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (2016), contribui para a construção de um filme de trama e diálogos intrincados, nunca enfadonhos, mesmo lidando com um universo burocrático. E, sobretudo, parece injetar em Soderbergh uma energia política revigorante.

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