fbpx

Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

No Portal da Eternidade

No Portal da Eternidade

A representação definitiva do artista trágico

Gustavo Pereira - 6 de fevereiro de 2019

Vincent Van Gogh (1853-90) é autor de algumas das obras mais caras da História da Arte, além de ser considerado um dos pintores mais relevantes do Ocidente. Mas não foi em vida que alcançou fama e reconhecimento. O holandês, tido como um louco fracassado, é o símbolo do artista trágico, incapaz de conciliar a genialidade criativa às trivialidades da vida cotidiana. O foco de “No Portal da Eternidade” é esse Van Gogh alienado, marginalizado e infeliz. Alguém capaz de conceber quadros como “A Noite Estrelada” e “Os Girassóis”, mas que realmente gostaria de ser normal, de “ser um deles”.

No Portal da Eternidade At Eternity's Gate Willem Dafoe Vincent Van Gogh Oscar

O diretor Julian Schnabel – que também é pintor – trabalha o tema da alienação em cada oportunidade que seu filme lhe proporciona. As narrações, feitas pelo próprio Van Gogh, constroem uma persona triste e desiludida; a fotografia, uma experiência semi-epilética; a trilha sonora, um improviso caótico; o roteiro, um protagonista sem um arco evolutivo claro.

A cada conclusão de ato, Van Gogh (Willem Dafoe) faz algum comentário sobre quem é e sobre quem gostaria de ser, introduzindo o ato seguinte. Essas narrações são feitas em tela preta, sem acompanhamento musical. É como se cada decisão tomada pelo holandês o jogasse momentaneamente num vazio existencial, descolado da realidade, de onde consegue analisar quem é. É o primeiro recurso – e o mais óbvio – para inserir o espectador na própria mente do pintor. Mas não é o único.

“No Portal da Eternidade” fotografa sua história de duas formas: câmeras em primeira e terceira pessoa. Os “pontos de vista” (POV) têm a função mais direta de “emprestar” o olhar de um personagem para a audiência, de modo que ambos entendam a dinâmica de uma ação ou diálogo da mesma forma.

Quando Van Gogh é questionado por um médico sobre o motivo para ter cortado fora sua própria orelha, este ocupa uma posição superior à linha do olhar de Vincent, com uma ligeira distorção de fundo, tornando as feições do interlocutor mais proeminentes e a experiência, como um todo, desequilibrada e desagradável. Quando em momentos criativos, os POV contam com um filtro amarelo e um borrão em parte da lente, ilustrando as famosas “visões” de Van Gogh (que hoje podem ser explicadas por um quadro clínico de epilepsia e envenenamento por absinto). Vincent também olha muito para o chão e para o céu, reforçando a ideia de que o pintor não tinha os mesmos interesses de seus contemporâneos.

No Portal da Eternidade At Eternity's Gate Willem Dafoe Vincent Van Gogh Oscar

Mantendo o padrão estético dos POV, os registros em terceira pessoa não são elegantes master shots que ambientam cenários e dão espaço para os personagens “respirarem”. São movimentos enérgicos de câmera na mão, indo de um lado para outro. Isso também coloca o espectador “dentro” do filme, a diferença é que desta vez ele é o olhar da ação. Quase uma testemunha ocular dos fatos, “correndo” para acompanhar o protagonista.

Essas escolhas tornam “No Portal da Eternidade” um filme tão difícil de assimilar quanto as obras do próprio Van Gogh. A trilha sonora, assumidamente guiada por “sentimentos e improvisos“, tenta acompanhar e ilustrar os sentimentos e gestos de Vincent, o que a obriga a ter uma harmonia espaçada, de acordes com duração longa. Uma tentativa frustrada de antever o que se passa com o protagonista, só podendo se limitar a responder o mais rápido possível ao que acabou de acontecer.

No Portal da Eternidade At Eternity's Gate Willem Dafoe Vincent Van Gogh Oscar

Cada escolha técnica de “No Portal da Eternidade” reforça no inconsciente do público uma figura tão brilhante quanto inconstante e perturbada. É aí que tanto a atuação de Dafoe quanto a estrutura narrativa transformam o filme numa joia. Não há um arco de evolução em Van Gogh. Ele não aprende algo sobre a vida ou sobre si mesmo e cresce como pessoa. Sua relação com Paul Gauguin (Oscar Isaac) não é redentora, mas angustiante. O que o roteiro faz é advogar pela tese de que o pintor estava destinado a viver por sua obra.

Já Dafoe, que conquistou sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator (já foi indicado três vezes por Melhor Coadjuvante), captura perfeitamente este sentimento: seu Van Gogh é cansado, rígido e econômico nos movimentos. Quando dialoga, olha nos olhos de seus interlocutores (nós) e demonstra uma melancolia resignada, comparável à de Jesus Cristo no Caminho ao Calvário (não à toa, a epifania do filme se dá numa conversa com um padre, brilhantemente interpretado por Mads Mikkelsen).

O Van Gogh de Julian Schnabel não acha que o mundo está errado sobre ele, mas concorda com o mundo sobre os piores julgamentos feitos a seu respeito. E nem mesmo esta aceitação lhe traz paz, o que faz de “No Portal da Eternidade” um filme tomado pela tristeza do começo ao fim. Algo em perfeita sintonia com a história de um dos artistas mais injustiçados de todos os tempos.

Topo ▲