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A Juíza

A Juíza

De nada adianta falar de pessoas extraordinárias usando narrativas convencionais

Ana Flavia Gerhardt - 23 de maio de 2019

A experiência de assistir a “A Juíza”, documentário de 2018 dirigido por Julie Cohen e Betsy West, é muito mais enriquecedora para quem já viu o ótimo “Loving” (2016), de Jeff Nichols. Ambos os filmes, embora de gêneros diferentes, abordam uma mesma questão: a luta contra o preconceito no palco legal estadunidense. Mas, tendo assistido a “Loving”, o espectador aprende que é possível falar sobre o tema de uma forma verdadeiramente desafiadora, algo que “A Juíza”, que louva – merecidamente, é imprescindível pontuar – a Ministra da Suprema Corte estadunidense Ruth Bader Ginsburg, não logra alcançar.

Uma lembrança rápida de “Loving” pode ajudar em minha argumentação. O filme conta a história de Mildred  e Richard Loving (Ruth Negga e Joel Edgerton), ela, negra, ele, branco. Na década de cinquenta do século passado, eles ousaram se casar em Washington D. C. e viver juntos no Estado da Virgínia, onde o casamento inter-racial era ilegal. Condenados pela Justiça da Virgínia e expulsos do Estado, Mildred e Richard apelaram para a Suprema Corte estadunidense por uma permissão para retornarem sem ser presos. O deferimento do seu pedido produziu uma jurisprudência que obrigou todas as cortes dos Estados Unidos a não mais proibirem casamentos inter-raciais.

O cinema estadunidense tem dificuldade em lidar com mulheres poderosas.

O que singulariza “Loving” é a perspectiva assumida por Jeff Nichols para contar a história de um casal comum, duas pessoas lutando pelo direito de ficar juntas. As grandiosas cenas de tribunal, enfeitadas pela retórica inflamada e a enunciação de verdades universais, algo tão admirado pelos fãs de filmes e séries sobre leis e Direito, cedem lugar a como decisões legais afetaram a vida cotidiana de Mildred e Richard, e a como as ações e questões ligadas ao seu pleito são ressignificadas no âmbito da cumplicidade do casal. Testemunhamos seu medo de que a turbulência causada pelo processo os separasse, seu sofrimento pelo preconceito de quem era incapaz de compreender seu sentimento, e sua angústia diante da iminente impossibilidade de viverem e criarem seus filhos como desejavam.

Ao enquadrar na esfera micropolítica a profunda e assustadora violência que as leis de segregação, quaisquer que sejam elas, impõem sobre as pessoas não apenas em suas relações cotidianas, mas também naquilo que as move como indivíduos potentes, “Loving” tornou ainda mais assustadora toda a humilhação e brutalidade sofrida por um casal que teve o direito de escolha de um parceiro afetivo conspurcado, o seu leito profanado, as escolhas de criação dos seus filhos proibida, o seu sentimento tratado como imoralidade, e seus filhos julgados socialmente ilegítimos, apenas por serem o que são (confesso que eu, que prezo o amor e a união sexual-afetiva entre as pessoas como direitos sagrados, ao escrever todas essas absurdas aberrações juntas, meu coração dispara e meu sangue ferve de indignação).

Pode parecer clichê, mas Ruth Ginsburg é de fato uma mulher à frente do seu tempo e do seu país.

Ao transformar a história de pessoas comuns numa narrativa estruturalmente diferenciada, “Loving” é um exemplo acabado de como o tratamento artístico é fundamental para o impacto sobre a audiência da história contada e das ideias postas em questão. Tivesse sido filmado de uma forma convencional, para garantir o conforto estético e a aceitação de pessoas acostumadas a narrativas construídas sempre sob um mesmo formato, o filme seria mais um a ser esquecido no baú empoeirado dos filmes que nada acrescentam.

Isso tudo para falar de minhas impressões sobre “A Juíza”, e um pouco também, já que o tema é o mesmo, de “Suprema” (2018), filme de Mimi Leder que conta a história do início da carreira de Ruth Bader Ginsburg. “Suprema” padece do mesmo problema de construção fílmica que mantém a obra numa zona de conforto ao encaixar-se no enorme conjunto de filmes de tribunal que oferecem embates impactantes, defesas lacradoras e vereditos que lavam a alma, para o espectador sair feliz por ter testemunhado o mundo se tornando mais justo. Só que não.

Ruth Bader Ginsburg é uma pessoa única na história dos Estados Unidos. Está entre as pioneiras da discussão feminista estadunidense. Cursou Direito em Harvard numa época em que o sentimento masculino de propriedade em relação à universidade era mais arrogante e virulento do que (ainda) é hoje. Nós mulheres intuímos o que Ginsburg sofreu porque sabemos o que é tentar minimamente sair dos lugares que nos foram historicamente destinados pelo patriarcado: o que se tem é assédio, violência, estupro e assassinato como mostram depoimentos de mulheres profissionais em mundos masculinos. Porém, da passagem de Ginsburg por Harvard, o que temos em “Suprema” são frases lacradoras em resposta às rabugices do reitor. É claro que não foi só isso. Mas Mimi Leder preferiu não ferir as suscetibilidades dos conservadores, que não aguentam mais do que pitadas de feminismo pronunciadas por uma mulher que tem o marido como grande motivador.

A representatividade feminina nos círculos decisórios da sociedade estadunidense ainda é pequena, mas mesmo assim os homens acham que já é muito.

Em “A Juíza”, o mesmo acontece: a opção das diretoras é também pela estrutura tradicional, o que resulta numa obra que não corre riscos de ser aceita se, por acaso, tivesse optado por mudanças de perspectiva e apresentação, aumentando o impacto dos feitos de Ginsburg num tempo em que as mulheres de sua classe social eram criadas para servir a maridos pertencentes aos fechados círculos de poder decisório. E não é por falta de exemplo de como falar de pessoas excepcionais, e vou citar dois: o documentário “Não sou seu negro”, que apresenta a melhor definição do que significa lugar de fala ao garantir a centralidade do rosto e das ideias de James Baldwin na tela, para comprovar pela enésima vez que as pessoas negras, assim como as mulheres, não precisam de quem fale por elas. E o lindo “Janis: little girl blue” corre riscos ao se recusar a mais uma vez colocar em figura a garota que ansiava pela aprovação dos conterrâneos da pequena cidade do Texas onde nasceu, para tratar de uma grande artista em processo de maturação interrompido por um acidente fatal.

Mas a decisão de encaixar a pessoa da grande magistrada em uma narrativa convencional nem é o maior problema de “A Juíza”; este está na condescendência com os estereótipos femininos burgueses. Em mais de uma ocasião, menciona-se a vida doméstica e familiar de Ruth Ginsburg de uma forma que não se faz quando se trata de personalidades masculinas sendo retratadas: de quem ganhou as golas que usa sobre as becas, a que horas a família tem suas refeições, quais são seus hábitos de sono, se a juíza sabe cozinhar, se criou bem os filhos, se o marido se incomodava com sua vida pública.

É importante conhecer a história profissional das mulheres, mas não a sua vida doméstica.

Ou seja, em vez de salientar o brilho da inteligência e a precisão das ideias de Ruth Bader Ginsburg, “A Juíza” termina por alimentar a trívia sobre a vida privada de sua personagem. Nas imagens mostradas, a veterana juíza pareceu enfrentar tais menções com bom humor, mas não duvido que por dentro ela deveria estar morta de tédio. Seu marido, Martin Ginsburg, é mencionado, mais do que o necessário, como alguém que “permitiu” (essa é a palavra usada por um dos depoentes) que Ruth construísse sua vida profissional. Mal consigo acreditar que as diretoras deixaram isso passar batido.

Os desafios da vida legal antes e depois da entrada de Ginsburg na Suprema Corte também são mencionados, assim como se fez em “Suprema”, via frases lacradoras, pelo menos uma delas dita mais de uma vez. O documentário acerta ao mostrar como a juíza é influente, admirada e até amada por muitos estadunidenses em função da causa feminista que mantém em foco desde o início de sua carreira. Sabemos de seu talento e serenidade por ela própria, que nos transmite grande autenticidade e uma sabedoria conquistada por décadas no serviço público.

Mas essas imagens se enfraquecem quando as diretoras incluem outras pessoas falando sobre ela, como se precisassem cumprir um tempo de projeção que o espectador adoraria ver sendo ocupado por Ginsburg e suas ideias. E se enfraquecem mais ainda quando elas dão muito espaço ao marido como alguém que facilitou a sua vida, como para inverter a velha máxima sexista: “por trás de uma grande mulher sempre existe um grande homem”, sendo que agora esse homem parece muito maior do que qualquer mulher da máxima original.

“A juíza” ficará para a posteridade como registro da vida de uma mulher extraordinária. Poderia ser pior, mas poderia ser bem melhor.

O fato é que o feminismo ainda é bastante incômodo para muitas pessoas, então ele precisa ser disfarçado, embrulhado em embalagens que lhes sejam palatáveis, embalagens que tornem menos relevantes as ações de mulheres poderosas como Ruth Bader Ginsburg, já que, para todos os efeitos, havia homens auxiliando-as. Essa é uma das formas de minimizar o talento das grandes mulheres. Outra forma de falar de mulheres satisfazendo as plateias conservadoras é desfeminilizar a mulher que é muito poderosa, como se faz por exemplo com a atriz Michelle Rodriguez, estereotipada por seguidos papeis de “durona” Outra forma de desfeminilização é torná-la menos sensível ao sofrimento das pessoas, torná-la perversa, como se fez com Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) em “Jessica Jones”. Há muito mais exemplos, porque a criatividade machista sempre encontra formas de ser sutil, de nos valorizar nos desvalorizando.

Ao formatar uma pessoa singular em uma estrutura tradicional, não demonstrando compreender que grandes seres humanos demandam formatos criativos e inventivos para falarmos sobre eles, as diretoras produziram uma obra que pode trabalhar antagonicamente à sua intenção de revelar ao mundo a pessoa que admiram. Faltou, a meu ver, ter observado mais as lições de Ginsburg sobre a igualdade entre homens e mulheres: a grande juíza sabe que a desigualdade nas leis resulta de uma desigualdade e uma injustiça social que permeiam todas as relações e todas as produções – as artísticas entre elas. De forma que ainda estamos esperando que seja dito sobre Ginsburg algo que saliente que, mais que uma mulher extraordinária, ela é uma pessoa extraordinária. E, sobre isso, ela pode perfeitamente falar por si.

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