A Metamorfose dos Pássaros

A Metamorfose dos Pássaros

Dialética entre narração e imagens faz de filme de Catarina Vasconcelos obra-prima sobre finitude humana

Matheus Fiore - 12 de outubro de 2020

Exibido pela primeira vez no Festival de Berlim de 2020, Metamorfose dos Pássaros é um filme cuja dificuldade de criticar em palavras só se compara com a beleza de sua execução. O longa-documentário da portuguesa Catarina Vasconcelos parte de um estudo sobre a vida do casal Beatriz e Henrique para se tornar uma obra bastante experimental, que alia narração e imagens em uma dialética que tem, como resultado, um estudo sobre a finitude da vida, a pureza de nossos sentimentos e sobre nossa própria existência.

Vasconcelos consegue manter sempre o desenvolvimento de sua narrativa calcado nas reflexões sobre conflitos e eventos familiares, principalmente pelo uso da narração. Essa voz em off, mesmo que esteja presente por todo o filme, nunca soa como um recurso gratuito, já que está constantemente em diálogo direto com as imagens. Ao mesmo tempo, essa voz não é exatamente uma condução, já que as imagens selecionadas pela diretora conseguem utilizar o texto comentado para discussões muito maiores. Assim, mantendo o filme falando simultaneamente sobre questões tão simples da vida mundana e sobre toda a existência humana, que A Metamorfose dos Pássaros consegue se tornar um ensaio sobre nosso lugar no universo e sobre o quão breve e, ao mesmo tempo, grandiosa, a vida consegue ser.

Cenas como uma em que uma criança da família comenta sobre a expectativa de vida de diferentes espécies – de insetos que vivem por alguns dias ou semanas, passando por nós, humanos, que vivemos por menos de um século, até tartarugas e baleias, que vivem por, às vezes, mais do que um século inteiro – pontuam essa busca por estudar o quão efêmera é a passagem humana. É partindo de questões pessoais simples e chegando ao que é mais grandioso possível que Vasconcelos consegue fazer com que seu filme seja, ao mesmo tempo, um relato bastante íntimo e humano, mas capaz de propor um diálogo universal, construindo poesia com suas imagens e fugindo de qualquer modelo de narrativa clássica em sua ideia central.

As imagens de riachos, folhas, campos e montanhas chegam para definir a ideia de Vasconcelos. O cenário, o mundo por onde passamos, tudo ao redor, permanece, e os personagens vem e vão sem uma ordem muito clara. E utilizando essas imagens com as narrações sobre questões tão íntimas deixa claro que, Metamorfose dos Pássaros demonstra com clareza como, no fim, o que fica da passagem humana é a memória, espelhada nos descendentes e naqueles que tocamos. Metamorfose dos Pássaros mostra a força da arte como registro de nossa existência, nos lembrando o quão efêmeros e, ao mesmo tempo, grandiosos somos.


Esse texto faz parte de nossa cobertura para a edição de 2020 do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. Para ir até a página principal de nossa cobertura, clique aqui.
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