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A Morte do Demônio (2013)

A Morte do Demônio (2013)

Mario Martins - 12 de outubro de 2017

Segundo Stephen King, pai do medo na literatura e referência no gênero, existem três maneiras de se provocar tal sentimento: terror, horror e a brutalidade (popularmente chamado de gore e sendo considerado um subgênero dos dois outros termos). O terror é o sentimento que precede a experiência terrível, a ansiedade, o nervoso, a aflição. O horror é o choque pós o ocorrido, é a repulsa pelo que acabou de ser vivenciado. O gore é o explícito, grotesco, quando algo acontece de forma tão visceral que promove pânico. Isso já é uma forma de se avaliar obras que se destinam a serem propulsoras de tais sensações, afinal, alguns filmes abusam do “mostrar demais”, enquanto outros se tornam maçantes por ficarem somente na expectativa. É necessário trabalhar bem as intenções, sem necessariamente usar mais do que um dos gêneros. Destacam-se realizadores que dominem estas três maneiras de provocar medo, como o próprio King e Sam Raimi, diretor de filmes como A Morte do DemônioArraste-me para o Inferno.

Em 2013, o diretor uruguaio Fede Alvarez dirigiu o remake de Evil Dead (A Morte do Demônio), clássico da filmografia de Raimi. Se fazer adaptações já costuma ser uma responsabilidade extra, refilmar um clássico cinematográfico torna-se quase falta de juízo. Contudo, se é comum considerarmos algumas cenas do original de 1982 cômicas, por conta dos efeitos especiais da época, a tecnologia veio como um adendo e uma ferramenta para reavaliar a obra por uma óptica intrigante. Entramos em contato com todas as três formas de se provocar medo mencionadas.

A cena inicial de A Morte do Demônio mostra uma menina ensanguentada, caminhando lentamente por um bosque de árvores secas e névoa pairando sobre o horizonte. Por ser logo o primeiro take, ficamos um pouco atordoados, ansiosos por esclarecimentos. Percebemos então que ela está sendo seguida, assim como a má visibilidade da floresta, a névoa gerou algumas sombras de pessoas que parecem estar na direção da garota em foco. E então, após ser pega e amarrada em um ambiente escuro, ela acorda com pessoas desconhecidas com aparências berrantes e deformadas, bichos empalhados em arame e um livro sujo em cima da mesa. A ilustração presente em uma das páginas, já sugere o que está prestes a acontecer, a garota é queimada viva. O único e real motivo de eu descrever tais cenas, que não somam mais do que dois dos minutos iniciais do longa –não é spoiler-, é demonstrar o quão gradual e bem trabalhado foi o uso das três ferramentas. O desconhecido, o medo do que está acontecendo e o choque da maneira como está ocorrendo. Terror, horror e a brutalidade respectivamente.

A forma harmoniosa e caótica de como A Morte do Demônio inicia, dá gancho para que o espectador respire enquanto conhece os personagens, ao mesmo tempo que já o mantém alerta para que se quebre a  ideia de que coisas ruins só acontecem no segundo ato de um filme. Alvarez pontua tão bem esse contraste, que ficamos inclusive mais atentos para a história dos protagonistas e o ambiente em que eles estão chegando, os dois pilares super bem desenvolvidos durante a trama.

Conhecemos David, Natalie, Eric, Olivia e Mia, irmã de David. Eles se reencontram numa cabana no meio da floresta, onde o encontro parece ser uma forma de cerimônia entre eles, fato este destacado com a presença de fotos deles mais novos espalhados pela casa. Lá, Mia (Jane Levy) faz uma promessa de se afastar das drogas. A maneira como a condição da personagem afeta não só a narrativa, como também a percepção dos jovens diante os acontecimentos da cabana é primoroso.Toda a atmosfera sobrenatural que os cerca é direcionada para aquela que se mostra a mais fraca psicologicamente, ou seja, Mia.

A Morte do Demônio Mia

A fotografia do filme é extremamente luminosa, outra coisa que contradiz os padrões de filmes do gênero. A ideia aqui é simples, se é para te aterrorizar, então é melhor que você veja com clareza tudo o que está prestes a acontecer. O fato de ambientes iluminados nos passar diretamente segurança, faz com que a má visibilidade ao fundo, elemento que será utilizado o tempo inteiro, nos deixe desestabilizados, gerando um desconforto que ainda não sabemos que vamos ter, mas que vai sendo construído com cada elemento da cenografia.

A Morte do Demônio

Se engana quem pensa no elemento gore como estímulo somente visual. A sonoplastia e a textura de cada cena de estrangulação, membros decepados ou qualquer tipo de fluído liberado em cena de violência extrema, é incrível e prova como um filme pode explorar os nossos cinco sentidos a favor do impacto necessário no desenvolver da história. Afinal, há várias maneiras de promover a imersão do espectador no universo cinematográfico, sendo essa, uma das melhores.

A Morte do Demônio está disponível na Netflix e você pode assistí-lo agora mesmo clicando aqui. Para ler mais textos do especial Outubro Trevoso, clique aqui.

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