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Aggretsuko – 2ª Temporada

Aggretsuko – 2ª Temporada

O karaokê no escritório está de volta

Marina Pais - 21 de agosto de 2019

No livro “Desvendando os Quadrinhos” Scott McCloud explica por que desenhos cartoonescos tendem a fazer com que o leitor se identifique – e por isso são mais populares. Como eles são bastante simples, sem fisionomias detalhadas e pouco realistas, é fácil pensar que poderiam ser qualquer pessoa, inclusive nós mesmos. Por isso é tão comum que o leitor se projete nessas histórias, e essa é uma das razões pelas quais personagens como Snoopy e Calvin têm um apelo tão universal. A segunda temporada de “Aggretsuko” se beneficia dessa característica.

Consciente do potencial de identificação que seus personagens carregam, a série se aprofunda no tema de ‘busca pela identidade’ iniciado na primeira temporada. No primeiro episódio dessa nova saga, Retsuko (Kaolip) é confrontada com as visões de mundo da sua mãe, que tenta fazer com que ela pense no futuro e arranje um marido. Ela ainda se sente deslocada, perdida entre tradições que não a atraem e a própria falta de rumo. A série retoma do mesmo lugar em que a deixamos: da inadequação.

Aggretsuko

Mas esse é só o ponto de partida. Ao longo dos dez novos episódios, Retsuko consegue chegar um pouco mais perto de si mesma. Há uma mudança sensível na sua forma de pensar, e, se ela continua com problemas para fixar um objetivo, ao menos agora sabe definir as suas prioridades. Ela aprende, também, a reconhecer e abraçar o seu desejo por uma certa estabilidade mais tradicional enquanto continua a alimentar seus hobbies mais peculiares (o death metal entre eles).

Essa jornada de evolução se estende a outros habitantes daquele universo. Se a primeira temporada teve por objetivo apresentar os personagens, esta se dedica a desenvolvê-los. É dado um contexto mesmo a um personagem tóxico como o Sr. Porcão (Sota Arai), e a hipópotomo Kabae (Yuki Takahashi) assume um papel importante para a história que ultrapassa o estereótipo de fofoqueira. A série também desconstrói as ‘figuras bem-sucedidas’, que parecem ter tudo resolvido através de Gori (Maki Tsuruta). Há um momento em que ela fala sobre como se sente aos 40 anos, com dúvidas que não somem, mas com motivos para se sentir feliz de qualquer forma, que é particularmente reconfortante.

Aggretsuko

Esse apego a uma construção de personagens humanos, tão perdidos quanto qualquer um de nós, é um dos elementos de destaque em “Aggretsuko”. Em um episódio, por exemplo, Retsuko resume sua rotina a ‘trabalhar, chegar em casa, ficar no celular e dormir’. Tenho certeza de que muitas pessoas se identificam com essa descrição. Mas esse tipo de insatisfação, por mais comum que seja, não costuma ser televisionado. Há um vídeo do Nerdwriter que traz ótimos pontos sobre o porquê de celulares serem tão pouco citados, e ele contabiliza que nas oito maiores bilheterias de 2018 só há 1 minuto de cenas que envolvem um aparelho celular. A explicação? Queremos ver na tela algo distante da nossa realidade.

“Aggretsuko” vai na contramão disso. Como já dito, é fácil se identificar com Retsuko, e por isso é gratificante ver que a série faz uso desse poder com responsabilidade: ela oferece caminhos para solucionar queixas que são universais. Mudanças pontuais na rotina ajudam a criar hábitos novos, cantar death metal é ótimo para desabafar e dirigir pode abrir novos caminhos. A maior lição é que não há problema em se sentir perdido, improdutivo ou ocioso.

Aggretsuko

Com um entretenimento tão povoado por super-heróis, é legal assistir à jornada de alguém comum (que, se tivesse um superpoder, seria a insegurança). Na verdade, não é só legal. É saudável. “Aggretsuko” reflete nosso tempo, e faz isso com otimismo. Estar perdido é normal, e esse sentimento não some aos 20, 40 ou 60 anos. Ele só diminui. No fim das contas, é impossível ter certezas na vida. Mas é possível se sentir bem de qualquer forma.

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