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Aggretsuko – 1ª temporada

Aggretsuko – 1ª temporada

“Aggretsuko” levanta questões essencialmente humanas em um mundo povoado por animais

Marina Pais - 18 de dezembro de 2018

“Aggretsuko” é um anime da Sanrio (a companhia da Hello Kitty) protagonizado por Retsuko (Kaolip), uma panda-vermelho socialmente inadequada e fã de death metal que trabalha no setor de contabilidade de uma empresa japonesa. A peculiaridade dessa descrição traduz a natureza da narrativa: ao representar uma personalidade que normalmente seria deixada de fora das telas, “Aggretsuko” consegue fazer com que o espectador se identifique facilmente com a sua protagonista.

Com um título que é a junção das palavras ‘Agressiva’ e ‘Retsuko’, não demora para ficar claro que sobram motivos para a indignação da personagem. Cinco anos depois de se formar com a expectativa de uma carreira promissora, Retsuko permanece estagnada em um emprego que não vai a lugar algum, onde é chefiada por um porco chauvinista (literalmente). Assim, embora ela tenha muito a dizer, ninguém parece disposto a ouvi-la.

Além da rotina de trabalho desgastante, Retsuko enfrenta doses diárias de algum tipo de constrangimento. Os problemas vão de coisas simples, como comprar algo em uma loja sem que uma vendedora insista que faça o cartão do local, a coisas mais complexas, como a dificuldade de encontrar um relacionamento ou um emprego satisfatório que permita que se sustente. A série é prato cheio para introvertidos em geral e, embora os personagens sejam animais, o universo por eles habitado não lembra de forma alguma um zoológico. Vá lá, lembra um pouco uma selva, mas pela acepção de ”cada um por si” do termo, não pela fauna.

Mais do que falantes, esses animais são verdadeiramente humanos, com suas angústias, desejos e falhas de caráter. Há uma hipopótamo fofoqueira, uma gazela puxa-saco, uma cobra que tem dificuldades para abrir potes, uma raposa que analisa minuciosamente o comportamento dos seus colegas tentando inserir lógica no caos… A lista é longa, e a personalidade de todos é interessante o suficiente para, nas próximas temporadas, cada um deles ser o foco de um episódio.

Mas o protagonismo sem dúvida merece permanecer com Retsuko. A série é tão bem sintonizada aos sentimentos dela que todos os momentos parecem ser um pouco subjetivos. As emoções exageradas típicas do anime não são só um estilo de desenho, mas refletem a forma dramática como ela encara o mundo. A trilha sonora segue essa mesma regra: enquanto uma flauta alegre surge nos momentos mais esperançosos, a guitarra pesada do death metal serve para marcar as suas explosões.

E é justamente no death metal que a série encontra o seu ponto alto. Retsuko canta nesse ritmo tudo que gostaria de dizer (mas não pode). Esse é o elemento definidor da série, e considerando o design da personagem e a imagem de ‘criadora de coisas fofas’ da Sanrio, funciona como uma boa forma de quebrar as expectativas. Afinal, na vida pouca coisa acontece do jeito que esperamos – Retsuko que o diga. De qualquer forma, é muito engraçado ver a personagem cantando que quer que um raio atinja o seu chefe com lágrimas nos olhos e sede de vingança.

Como nem tudo são flores, a série tem alguns problemas de ritmo, com situações que se alongam demais enquanto que outras, mais interessantes, são resolvidas muito rapidamente. E, mesmo só tendo dez episódios, há um ou dois que parecem estar lá só para preencher. Eles não deixam de ser divertidos, mas não têm a mesma força dos demais. No entanto, só há uma temporada lançada até o momento, então pode ser que nas próximas as pontas soltas sejam amarradas.

No todo, “Aggretsuko” é uma ótima série sobre não se encaixar. Seja no mercado de trabalho, no círculo de amizades ou na busca por um relacionamento, todo mundo uma hora ou outra vai se sentir um peixe fora d’água. A sensação de inadequação é paradoxalmente universal e solitária, e é por isso que é tão reconfortante acompanhar a trajetória de Retsuko. Não dá para deixar de torcer para que ela se encontre: estamos torcendo, também, por nós mesmos.

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