Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Annabelle 2: A Criação do Mal

Annabelle 2: A Criação do Mal

Mario Martins - 17 de agosto de 2017

O gênero terror, assim como a comédia, está totalmente sucateado. À medida que ficou fácil produzir conteúdo “cômico” apelando muitas vezes para nudez, estereótipos e o uso de drogas, também se tornou extremamente simples assustar com as obras audiovisuais mais recentes. Sentimos medo de algumas tentativas de gerar risadas e damos risadas com tentativas de dar medo. Contudo, a criação de tensão, terror e até mesmo de um bom suspense é muito mais complexo do que fazer alguém sentir pânico com violinos agudos, jump scares e crianças pequenas com vestidos brancos.

Annabelle 2: A Criação do Mal se inicia de forma majestosa. Somos apresentados a oficina de bonecas feitas artesanalmente do Sr. Mullins (Anthony LaPaglia) e a câmera vai suavemente acompanhando as peças que serão usadas, isto é, as partes do corpo dos brinquedos. Um começo extremamente digno tendo em vista o título do filme e no que ele se propõe a realmente mostrar. Somos apresentados aos hábitos, bordões e objetos que serão futuramente usados como link de associação, ferramenta importantíssima quando não se deseja entregar a trama em diálogos fúteis ou recheados de obviedade.

Figurino, atuações e cenografia em sintonia com a época abordada. A carismática Miranda Otto faz o típico papel materno no ambiente familiar religioso e conservador. Tudo ia bem no começo do filme, o diretor sueco David F. Sandberg (também diretor do curta metragem “Quando as luzes se apagam”) mostra seu talento sempre que há oportunidade e quando não há, ele simplesmente cria. Seja nos presenteando com lindos enquadramentos –palmas também para a fotografia do filme- ou com um ótimo uso de foco e desfoco de câmera. Em alguns momentos pensava estar me deparando com os pequenos acertos que oportunamente ocorrem com relação a filmes deste gênero (destaca-se A Bruxa e Ao Cair da Noite).

A moral do filme começou a cair à medida que os acontecimentos sobrenaturais foram dando as caras. Pense em todos os clichês além dos já mencionados no começo do texto e acrescente uma trilha sonora que entrega todos os ápices de tensão e serenidade. É quase como se houvesse alguém segurando placas dizendo “prepare-se para gritar”, “pode relaxar agora, não vai acontecer mais nada”. Inclusive o grande câncer que tanto afeta os longas atuais é exatamente não permitir espaço para a surpresa. É tolice não trabalhar em conjunto com o elemento mais assustador de todos, a imaginação do espectador. O resultado é o observado dentro da sala de cinema, risadas.

Em alguns momentos o filme se perde e se esquece que todos os núcleos e personagens dividem o mesmo ambiente, uma casa. Se uma criança é capaz de reconhecer o assovio do pai em um shopping lotado no domingo, pessoas de audição saudável são capazes de ouvir alguém berrando por socorro ou batendo nas madeiras que estruturam a casa no meio do nada com um invejável silêncio pela madrugada. Além disso o filme faz algumas tentativas de potencializar o medo, acrescentando lugares e seres que só serviram para tentar ganhar pontos fazendo referência a outras obras de terror, o que teria sido ótimo se a homenagem se encaixasse com a narrativa.

Contudo, é extremamente satisfatório ver o universo de Invocação do Mal se expandir de forma tão sutil e inteligente. Nos são deixadas algumas pistas do que está por vir em termos de história e também temos regressões a personagens e ambientes que se conectam temporalmente a essa grande saga.

O terceiro do ato do filme chega e mostra que alguma lição foi tirada do desastroso primeiro filme de Annabelle. O diretor parece ter escutado todas as críticas que são recorrentemente feitas à boneca e ao filme num geral e vai consertando-as aos poucos. Ele quase me convenceu a perdoar os deslizes catastróficos cometidos minutos antes, mas não conseguiu, o estrago já estava feito.

É extremamente compreensível ler tantos comentários e críticas positivas com relação a Annabelle 2: A Criação doMal. Se o começo do filme é extremamente bem construído e funciona, espere para ver o incrível final que nos lembra onde foi parar a qualidade mostrada inicialmente. Mas não se pode anular o fato de que algumas cenas conseguem estragar um bocado qualquer filme de qualquer gênero. Bom filme com ótimos momentos, mas já se passou da hora de renovar essa fórmula. Os fãs de terror merecem conteúdo melhor.

Topo ▲