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Ao Cair da Noite e a ascensão da extrema direita no Brasil

Ao Cair da Noite e a ascensão da extrema direita no Brasil

Ana Flavia Gerhardt - 4 de setembro de 2017
Este texto contém spoilers sobre a trama do filme que descreve.

O Projeto Genoma foi uma iniciativa científica internacional lançada em 1990 para identificar e registrar a sequência de três bilhões de moléculas que compõem o mapa do gigantesco DNA humano. Essa iniciativa magnífica trouxe junto, além do conhecimento sobre o nosso DNA, a possibilidade de caracterizar e diferenciar geneticamente o Homo sapiens em comparação com as outras espécies que habitam a crosta terrestre. O interesse sobre o que nos diferencia e singulariza no planeta tem aumentado à medida que reconhecemos mais e mais semelhanças entre nós e elas – quase sempre, os outros primatas ocupam as primeiras posições da fila, embora os cetáceos, como golfinhos e baleias, também sejam objeto de interesse, e alguns outros animais corram por fora, como os inteligentíssimos cefalópodes.

Canais de TV como Discovery e NatGeo se encarregam de despertar e alimentar a curiosidade das pessoas leigas nas Ciências que estudam direta ou indiretamente esse assunto, mas não são apenas elas os mordidos pelo fascinante mundo dos que passam a vida pesquisando o que nos torna humanos. Muitos cientistas dedicam suas vidas a dar visibilidade aos achados do Projeto Genoma, ainda mais porque ele trouxe, como descoberta mais significativa, a constatação de que compartilhamos pelo menos 99 por cento do nosso código genético com a espécie que nos é biologicamente mais próxima: o chimpanzé bonobo.

Um desses cientistas é o psicólogo estadunidense Michael Tomasello, que, desde a década de noventa do século passado, se dedica a compreender e propor hipóteses acerca de uma série de aspectos do Homo sapiens em comparação com os outros três grandes primatas que até seis milhões de anos atrás compartilharam conosco um ancestral comum: os atuais chimpanzés, os orangotangos e os gorilas. Identificando as diferenças de comportamento social que guardamos em relação a eles, Tomasello busca entender o que constitui e o que decorre do um por cento de diferença genética que distingue o Homo sapiens como espécie única no mundo, já que esse um por cento é que proporcionou a abissal diferença cognitiva, social e cultural entre nós e todos os outros animais do planeta.

A premissa de Tomasello é simples e muito bonita: se não se pode identificar essa diferença apenas nas bases da Biologia, já que um por cento de diferença de DNA é uma quantidade quase irrelevante, então se pode entender que essa pequena diferença, para ser notável, precisa estar atrelada a uma outra dimensão – no caso, a dimensão social. Tomasello afirma que o que nos tornou Homo sapiens, há duzentos mil anos, poderia ter sido uma distinção na forma como vemos a nós mesmos e às outras espécies; ao longo dos milhares de anos, essa distinção não apenas nos constituiria como espécie, como também seria fundamental para edificarmos as comunidades, as sociedades e as culturas que foram e são essenciais para superarmos os desafios da sobrevivência neste planeta.

Essa distinção, para Tomasello, é o fato de conseguirmos reconhecer os outros membros da nossa espécie como seres iguais a nós – capacidade que emergiu durante nossa evolução e que, no nosso desenvolvimento, aparece mais ou menos aos nove meses de idade. Contudo, por volta dos quatro anos de idade, desenvolvemos também a percepção acurada de que as pessoas também são diferentes de nós e, por isso, passamos toda a vida navegando na corda bamba dessas duas ideias antagônicas, construindo todas as nossas visões de mundo, todas as nossas verdades, com base neste paradoxo. Dar conta dele é vital para a nossa sobrevivência, porque, a partir da ideia de que somos, ao mesmo tempo, iguais e diferentes das outras pessoas, selecionamos quais, entre todas elas, serão nossas companheiras de vida e quais serão ameaças a nossa sobrevivência. Dessa seleção, deriva a construção das nossas sociedades, que se perpetuam por meio das regras de pertencimento a elas.

Em 2016, Michael Tomasello publicou um livro dedicado a explicar que a ideia do reconhecimento das outras pessoas como ao mesmo tempo iguais e diferentes construiu o nosso senso de moralidade e ética. Segundo ele, a intencionalidade partilhada que deriva dos auto e hetero reconhecimentos leva a propósitos e ações comuns para superar os desafios da sobrevivência. Mas o aumento da complexidade dos grupos sociais foi impondo novos e maiores desafios, em âmbitos e círculos de relação mais e mais amplos. Isso necessariamente leva à definição de regras de convivência que também buscam a cooperação, mas agora de uma forma diferente, já que, no que diz respeito a uma sociedade inteira, as regras de cooperação precisam abarcar pessoas que não convivem, não dividem os mesmos espaços, não guardam parentesco nem amizade entre si etc., mas que precisam estar juntas em algum momento para trabalhar em conjunto por um propósito comum.

Essas regras são as normas sociais, que precisam ser partilhadas por todos para que possamos encontrar pessoas que nunca vimos antes e tecer expectativas sobre como elas vão se comportar. O conhecimento das normas sociais, ou seja, o conhecimento comum de uma estrutura de expectativas relacionadas ao comportamento das pessoas estranhas, que estão distantes de nós quase todo o tempo e se encontram conosco eventualmente, é uma das garantias de que as pessoas que não são nossas companheiras, ou seja, não são iguais a nós, também não sejam consideradas como ameaças, já que a suposição de que outras pessoas são ameaçadoras é diretamente proporcional à incerteza de se elas conhecem ou não as mesmas normas sociais que nós conhecemos. Para chegar a isso, fomos, ao longo de nossa história cultural, expandindo os círculos de entendimento e ações de cuidado dos outros, primeiro em relação àqueles que conhecemos e estão próximos, para aqueles que não conhecemos e não estão próximos.

As normas sociais de moralidade baseadas no cuidado e no companheirismo, que vão ampliando as esferas de práticas de vida para grupos cada vez maiores e distantes – primeiro, a família, depois, a comunidade, depois, a sociedade, depois, o planeta – servem para que passemos a acreditar que os outros são muito mais companheiros do que ameaças. Vamos criando um universo de verdades e razões para ver as pessoas assim. Mas, numa situação de crise profunda e grande ameaça à sobrevivência, a relação de forças pode se inverter, e o delicado equilíbrio cede espaço à imposição do sentimentos e certezas que derivam do fato de que os outros são basicamente inimigos, e como tais devem ser tratados, até o ponto em que não há mais espaço para a mínima suposição de que qualquer pessoa que se aproxima possa ser um companheiro.

Ao cair da noite, roteirizado e dirigido por Trey Edward Shults, é o exemplo perfeito da existência e finalidade das normas sociais conforme a proposta de Michael Tomasello, e do fato de que tanto ver o outro como companheiro quanto ver o outro como ameaça vem da necessidade de sobreviver e do fato de que sozinhos não conseguimos fazer isso. Por vermos os outros como iguais, nos agregamos a eles para planejar tarefas conjuntas que tornem a vida menos difícil de ser vivida. Diante da situação de calamidade global causada por uma epidemia aparentemente sem controle, Sarah (Carmen Ejogo), uma das duas mães do filme, menciona o fato de que juntar duas famílias melhorará as chances de sobrevivência para convencer o marido a ver como companheiro, e não como ameaça, um desconhecido (Christopher Abbott) que capturou perto de sua casa e mantém cativo. Mas a mesma necessidade de sobrevivência também faz com que vejamos os outros como ameaças. A diferença entre uma coisa e outra é mínima, por isso é que é muito fácil que uma pessoa, ou um grupo, ou uma nação passe rapidamente de companheira a uma ameaça. O que vai causar essa inversão são os fatos e a nossa interpretação deles.

Num dado momento do filme, Paul (Joel Edgerton), marido de Sarah e chefe da família em torno da qual a trama se desenrola, encontra dois desconhecidos que o atacam, e ele os mata sem sentir nenhum remorso: isso já é uma suspensão de regras de moralidade para a vida em comum. Por sua vez, o homem desconhecido que chega, logo ao início do filme, é ameaçador, mas, na cena excelentemente descrita por Matheus Fiore nesta crítica, torna-se conhecido e traz a própria família para que todos convivam e trabalhem juntos para sobreviver. Em pouco tempo, todos os personagens, em conjunto, começaram a fazer atividades e desenvolver sentimentos comuns: cuidaram de si mesmos, partilharam recursos e experiências, tornaram-se conhecidos e próximos; por isso, as ações que Paul perpetrou sobre eles lhe causou grande remorso. Mas o que o filme, mais para o seu final, deixa como ideia é que, se perdurar o estado de coisas que fez com que pessoas conhecidas e empatizadas se matassem, dali a algum tempo já seria possível matar pessoas próximas sem qualquer hesitação e remorso.

Destruídas as normas de vida em sociedade, destrói-se o tecido social, ocasionando um movimento contrário ao que consolidou a presença humana na Terra: os círculos de convivência vão retroagindo e desaparecendo, restando somente o núcleo básico, que é a família. É o que se vê no filme: o primeiro contato entre os homens se torna facilitado justamente quando eles se reconhecem mutuamente como chefes de família, o que resgata, pelo menos por algum tempo, a ideia de que são iguais, portanto poderiam conviver e ser companheiros. Mas essa convivência só é possível durante algum tempo, ao fim do qual um deles começa a supor que o outro é mais diferente do que igual, e por isso representa uma ameaça. Ao cair da noite descreve um mundo em que os círculos das relações de companheirismo se reduziram à sua dimensão mais elementar, mas igualmente encaminha um mundo onde as pessoas próximas também poderão ser vistas como inimigas.

Ao cair da noite, como um todo, mostra a imensa fragilidade da construção das regras de moralidade definidas por Tomasello: o perigo de extinção, que é o problema que desencadeia a trama, pulverizou duzentos mil anos de trabalho e esforços conjuntos por nossa sobrevivência, suspendendo as normas sociais e trazendo junto o desequilíbrio entre as percepções do que são os outros para nós – companheiros ou ameaças -, pendendo perigosamente para a ideia de que qualquer um que se aproxima é uma ameaça. No caso do filme, a epidemia de alguma doença altamente contagiosa, virulenta e incurável foi o que causou um retrocesso tecnológico e social que desagregou as sociedades justamente em função do peso muito maior da imagem do outro como ameaça do que a imagem do outro como companheiro. Mas muitos outros fatos trágicos podem provocar as mesmas consequências.

Se um dia acontecer conosco o que o filme descreve, o dano sobre a nossa espécie é gigantesco: pode eliminar de vez tudo o que, por duzentos mil anos, construímos com o um por cento que nos separa das outras espécies. Ser uma evidência disso, junto com as suas imensas qualidades cinematográficas, torna Ao cair da noite um dos mais importantes e necessários filmes a que assisti este ano. Seu tema precisa ser debatido com urgência, porque estamos passando um tempo em que as pessoas se tornam inimigas umas das outras com uma facilidade assustadora, porque alguma coisa na necessidade de sobrevivência leva muitos a enxergar como inimigos os que não pensam como eles, transformando o igual em diferente quando convém. Odiar quem pensa diferente, repetindo no século 21 erros do passado das civilizações, mostra que nada aprendemos com os fracassos e destruições que sofremos por conta de enxergarmos os outros como ameaças. Pelo jeito, isso demanda uma maturidade que ainda não conquistamos; como humanidade, ainda não saímos da infância.

É evidente que pessoas que veem os outros como ameaças acabam elegendo representantes que elas acreditam defendê-las e aos seus valores. Isso está acontecendo no mundo inteiro, e não seria diferente no Brasil, com a extrema direita ganhando espaço público e político cada vez maior e abrindo a possibilidade de eleger governantes, como aconteceu, por exemplo, nos Estados Unidos. Os grupos políticos ultraconservadores brasileiros estão pífia e mediocremente representados no Legislativo e defendem modelos anacrônicos de desenvolvimento, que mantêm o Brasil na eterna condição de fornecedor de commodities para os países ricos. Seu raio de influência e visibilidade tem se expandido não por méritos próprios, não por realizações históricas relevantes, mas sim pelo fracasso da esquerda no Brasil, que não logrou ter seus projetos de sociedade concretizados durante os treze anos em que, para todos os efeitos, ocupou as instâncias máximas de poder.

Por conta disso, os representantes da extrema direita lançam luz sobre os erros dos políticos de esquerda sempre que possível, já que a luz sobre a incompetência alheia é uma estratégia fundamental para que sua própria incompetência permaneça nas sombras. Uma das suas ações mais efetivas nesse sentido é tratar a esquerda como os personagens de Ao cair da noite tratavam as pessoas desconhecidas: segundo a extrema direita brasileira, a ideologia de esquerda, totalizada no Partido dos Trabalhadores, é uma epidemia: os políticos inscritos na sua sigla, as pessoas a ele filiadas, os eleitores que votaram em Lula e Dilma Roussef, e, ainda, os grupos sociais beneficiados pelas políticas implementadas nos governos do PT estão todos infectados; essa infecção incurável torna-os inimigos, porque eles podem infectar outras pessoas que ainda não foram contaminadas; por isso, precisam ser exterminados.

Como a ideia fundamental da direita é a de que a injustiça e a desigualdade são fatos naturais do mundo, e que a pobreza e a exclusão é culpa unicamente do pobre e do excluído, a ideia de que os grupos sociais beneficiados pelas políticas de diminuição da desigualdade são inimigos se fortalece com o fato de que esses grupos são, para o pensamento ultraconservador, os causadores da decadência da sociedade: a mudança de pensamento que eles propagam podem destruir a moral e os bons costumes, e os direitos que eles demandam na verdade são privilégios, já que eles não fazem nada de bom para merecê-los. O medo de que essas pessoas possam dominar a sociedade move o seu desejo de colocar no poder pessoas que, segundo o seu pensamento, podem evitar isso.

As pessoas que acreditam nessas ideias se parecem com o adolescente Travis (Kelvin Harrison), filho de Paul e Sarah, que obedecia às regras de sobrevivência dadas pelo pai, mas exprimia em pesadelos toda a angústia que elas lhe causavam. Mergulhado em medo, Travis, em algum momento, deixa de reconhecer se os pavores que o acometem são reais ou fictícios , perdendo de vista quem é o artífice do pânico que sente. Assim como Travis, os que manifestam simpatia pelo discurso de ódio da extrema direita também estão em pânico com o mundo inventado pelos que admiram – estados fictícios de coisas nomeados com termos assustadores como “ditadura gay”, “ideologia de gênero” e “escola sem partido”, que retiram do foco os verdadeiros agentes da opressão e do preconceito e colocam em seu lugar justamente aqueles que mais sofrem com eles. Os simpatizantes da extrema direita não percebem, mas já estão sendo as maiores vítimas de um discurso que impõe certezas, incapacita para o debate e obscurece o senso crítico.

A ideia de que as pessoas diferentes são ameaças à sobrevivência, que é um dos motivos para o voto em políticos de extrema direita, é um sentimento que restringe os círculos de convivência social, impondo, ao fim e ao cabo, ações de reconhecimento dos familiares como os únicos que merecem confiança. Em última instância, esse sentimento, se transformado em ações de discriminação e violência, atinge a integridade do próprio tecido social, que não resiste a um desequilíbrio tão grande entre a percepção de quem é companheiro e quem é ameaça – sobretudo porque, num mundo em que as pessoas são uma ameaça umas para as outras, se alguém vê o outro assim, certamente por esse outro é visto da mesma maneira. Para essas pessoas se destruírem, basta uma faísca.

Eu não sou nem de longe a primeira pessoa a falar essas coisas e a defender que visões de mundo baseadas na ideia de que os diferentes são ameaças inimigas levam à desagregação do tecido social. Trey Edward Shults, ao roteirizar e dirigir Ao cair da noite, fez isso magistralmente, e por isso merece ser visto, revisto, comentado e debatido. Um dos muitos recados dados por Shults é o de que a única forma de evitar que aconteça o que seu filme descreve é nos tornarmos maiores do que aquilo que nos torna humanos, para continuarmos a ver os outros como companheiros mesmo em circunstâncias que favorecem a percepção deles como ameaças, e para pensarmos com clareza no que poderá trazer sobrevivência não apenas para nós ou nossa família, mas para a humanidade; e não apenas para o presente, mas também para o futuro. Se não for assim, talvez seja melhor mesmo torcer pela vinda do próximo meteoro.

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