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As Aventuras de Pi (2012)

As Aventuras de Pi (2012)

Mario Martins - 1 de agosto de 2017

Em 2012, o diretor Ang  Lee ganhou mais uma vez destaque dos principais festivais de cinema. Depois de trabalhar a responsabilidade de uma escolha em O Tigre e o Dragão (2000) e a sensibilidade amorosa de um casal homossexual em O Segredo de Brokeback Mountain (2005), era a vez de lidar com a peculiaridade da religião e o que ela representa.

(O colorido ambiente nas cenas em que Pi está na Índia)

As Aventuras de Pi se inicia contando a simples vida de Piscine Molitor Patel e sua família, dona de um zoológico na Índia, através de uma entrevista para um jornalista que se interessou por sua história. Nos é mostrada a dificuldade do protagonista de ter que optar por uma religião em seu país tão dividido e rico culturalmente e religiosamente. Mas apesar dos desafios da juventude e adolescência, ele gosta da vida que leva. Após uma decisão de vender os animais do zoológico no Canadá, o personagem precisa deixar para trás seu país, sua amada e seus costumes, frustrações interrompidas por conta de um acidente com o navio cargueiro, que naufraga e o obriga a dividir um bote com um tigre de bengala, um orangotango, uma hiena e uma zebra.

A linguagem visual, sonora e metafórica do filme acompanhará Pi por toda sua jornada dentro do barco. Definindo já no começo do filme como “uma história para acreditar em Deus” a viagem não planejada, o protagonista tem sua fé inalterável fortalecida o tempo inteiro através de suas falas e da premiada trilha sonora de Mychael Danna, que preenche todo o deslumbre e parte lúdica do filme com cítaras, percussões em ostinato e instrumentos de corda tocados em intervalos orientais, que visam nos transportar diegeticamente para o ambiente da Índia, que possui sua cultura moldada pela religião e costumes. Os recursos metalinguísticos marcam constante presença nas cenas de confronto com a natureza, para nos lembrar o tempo todo do que se trata realmente aquele conflito.

A fotografia faz constante uso de espelhos entre o céu e o mar, o que torna a imensidão deserta da solidão, ainda maior. Na imagem acima podemos observar Pi em cima de seu improvisado bote de pedaços de madeira e bóias salva vida, sendo comparado a um objeto que ele mesmo atira na água, provando que ele se sente como apenas uma gota em todo o oceano. Podemos também destacar o uso da cor amarela nas cenas de esperança. Conforme sugerido pela psicologia das cores, esta trata-se de uma coloração que transmite otimismo, curiosidade e alegria. Usando o sol como principal fornecedor de tal ambiência, a metáfora da “luz” transmitida representa diretamente que Deus continua o acompanhando, até mesmo nos momentos de isolamento completo.

A relação entre homem e animal vai mostrando amadurecimento na convivência com a natureza. Sempre destacando narrativamente a amizade –não necessariamente correspondida- com o tigre de bengala, Pi traz a tona como somos capazes de tirar força e motivação para continuar em qualquer coisa. Uma situação, um objeto, uma companhia, uma promessa ou uma lembrança. A fé é a grande engrenagem da trama, por aos poucos se tornar a única coisa que o personagem tem desde o começo. Ele perde sua família, seus planos, sua casa, sua paixão e fica somente com sua fé.

Com um surpreendente final, o roteiro da obra passa sua principal mensagem. Ao apresentar uma segunda versão do que aconteceu dentro do barco, Pi diz que a imprensa não estava acreditando em sua história. Ele então decide metaforizar os animais como se fossem humanos. O orangotango representaria sua mãe, a hiena seria o cozinheiro –o qual é mostrado debochando do veganismo da família Patel antes do naufrágio- , a zebra era um marinheiro e o tigre representa ele mesmo, o que faz todo sentido se pararmos para analisar que o único que o acompanha em toda sua história de sobrevivência é Richard Parker (nome do tigre de bengala). Cria-se então duas vertentes da história, a de animais seguindo sua natureza de sobrevivência e a de humanos envolvidos num lamentável incidente (sem spoilers).

Quando o jornalista se mostra chocado com a versão humanizada dos fatos, Pi pergunta diretamente ao jornalista qual sua versão favorita. Ao confirmar que foi a mesma passada para a imprensa, é provada a intenção de demonstrar que sempre escolhemos amenizar as situações e principalmente no que vamos acreditar, seja ela verdade ou não.

 

Ender Molina, 29 anos: venezuelano residente no Brasil.

 

 

Plano Aberto: No início de As Aventuras de Pi, ele revela que os deuses para ele é como se fossem super heróis, mostrando inclusive quadrinhos de deuses hindus. Você teve/tem algum herói? Alguém serviu de influência para o Ender de hoje?

Ender Molina: A minha principal influência sempre foram meus pais, eles são os responsáveis pelo que eu sou agora.

Mas eu tenho um super herói sim, é o Chapolin Colorado.

Plano Aberto: Quando partindo da Índia para o Canadá, Pi se mostra frustrado em estar deixando tudo para trás, principalmente por ter sido uma decisão totalmente tomada pelos seus pais, que gera insatisfação nele. O fato de você ter deixado seu país por vontade própria, impediu que você sentisse o mesmo tipo de frustração?

Ender Molina: A frustração não é por ter deixado o país por vontade própria ou por situações que obrigaram a tomar a decisão. A frustração é  que de qualquer forma estamos deixando para trás uma vida inteira cheia de sonhos e ilusões, é um processo de troca do que até o momento era real e certo por uma coisa surreal que não sabemos onde possa terminar. É muito diferente se despedir falando até logo,do que falar “até” (e não ter ideia de quando vamos estar de novo diante das pessoas e coisas que amamos naquele momento).

Plano Aberto: Em certa parte do filme, Pi se mostra dividido entre o cristianismo, hinduísmo e o islamismo, religiões muito presentes na realidade indiana. Você em algum momento de sua vida se viu dividido ou confuso religiosamente?

Ender Molina: Eu me considero uma pessoa crente, acredito na existência de um Deus, mas não sigo nenhuma religião específica. Sempre faço questões das religiões, gostaria entender o porquê da complexidade, para mim é bem mais simples.

Plano Aberto: É necessário criar uma versão metafórica da história para ser contada à imprensa na conclusão do filme. Você acha que homem e animal selvagem sejam incapazes de conviver num ambiente limitado como de um barco?

Ender Molina: Sim, com certeza. Infelizmente é o que o ser humano tem mostrado até agora. A história é essa e só. “Eu saltei do bote e nadei até achar terra firme, senão ia ser devorado pelas feras”, no bote ainda estão pessoas que amo… e as feras também. Por isso estou aqui.

Plano Aberto: Como citado na pergunta anterior e na crítica, o final possui duas versões que fica a gosto do espectador decidir qual de fato aconteceu. Em qual delas você prefere acreditar e por quê?

Ender Molina: Fico com a versão dos animais, é bem mais confortável ver seres vivos “irracionais” atuando de forma  do que ver seres “racionais” atuando de forma antinatural. Os animais sempre são inocentes, os humanos não.

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