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As Boas Maneiras

As Boas Maneiras

Matheus Fiore - 14 de junho de 2018

Costuma-se dizer que um bom filme sintetiza toda a ideia central da narrativa em seus primeiros planos. Isso, claro, não é regra, é apenas algo recorrente em grandes obras. Há, porém, casos como “As Boas Maneiras”, quando um filme é tão rico e diversificado em ideias e gêneros que seria impossível sintetizar suas ideias em poucos fotogramas. Afinal, o filme de Juliana Rojas e Marco Dutra transforma-se inúmeras vezes, mesmo que sempre mantenha temas sociais como alicerce para as experimentações estéticas.

A trama de “As Boas Maneiras” acompanha Clara (Isabél Zuaa), uma mulher negra em busca de emprego. Clara acaba conseguindo um trabalho como empregada de Ana (Marjorie Estiano), mulher de quem tem que cuidar nos seus meses finais de gravidez e ajudar nos afazeres domésticos. Aos poucos, porém, Clara começa a notar comportamentos estranhos de sua chefe, incluindo sonambulismo, uma vontade incessante de comer carne e agressividade.

Assim como boa parte das obras do cinema nacional, “As Boas Maneiras” tem muita preocupação em debater questões sociais. O diferencial aqui é como os assuntos influenciam na forma de contar a história. Vemos, por exemplo, como “As Boas Maneiras” inicia-se como um suspense, já que não fazemos ideia de o que se passa no local de trabalho de Clara. Há uma tensão constante, construída tanto pela trilha, que traz acordes agudos dissonantes, quanto pelos enquadramentos, que aproveitam o ambiente asséptico e relegam a protagonista ao canto do quadro em alguns momentos, como se ela fosse uma peça destoante do lar de Ana.

Essa tensão cria prontamente um leque de alegorias sobre situações de racismo e conflito de classes. O primeiro plano do filme, por exemplo, traz Clara tentando entrar em um condomínio de luxo para uma entrevista de emprego, e sua entrada é dificultada por duas portas de vidro que demoram a se abrir. É como se as barreiras sociais se materializassem e separassem a câmera da protagonista, que têm dificuldade até para aproximar-se do público.

A relação patrão-empregado também é trabalhada. E aqui, é elogiável que a obra consiga trazer metáforas que não só enriquecem as alegorias sociais, mas também podem servir à narrativa fazendo sentido dentro da proposta mística dos realizadores. Há, por exemplo, um momento no qual a protagonista literalmente dá seu sangue para alimentar sua patroa, o que simboliza tanto o sacrifício da empregada em prol de sua chefe, quanto sua determinação para alimentar o monstro que está prestes a descobrir – a personagem de Marjorie Estiano, Ana, afinal, passa a se comportar de forma cada vez mais agressiva e demonstra desejo por carne e sangue.

Mesmo que o suspense seja dominante no primeiro terço do filme, a obra jamais nega seu potencial fantástico. A fábula está sempre presente no universo de “As Boas Maneiras”. Há desde elementos mais óbvios, como o revólver de prata que remete diretamente ao mito do Lobisomem, e detalhes que demonstram um elogiável carinho da equipe artística pelo filme. Há, por exemplo, um trabalho especial para que todas as fontes de letras presentes em livros, jornais, propagandas e letreiros, sejam curvadas e serifadas, característica típica de uma estética fantástica.

Esses elementos fantásticos, inclusive, têm suas aparições intensificadas ao longo da trama. Se nos primeiros momentos, esses elementos surgem sempre de forma discreta, já que os gêneros dominantes são o suspense e o terror, quando a obra tem um salto em sua segunda metade, a fantasia é abraçada pelo filme. Desde grilhões dignos de calabouços de filmes baseados em obras de J.R.R. Tolkien até uma fotografia cada vez mais interessada em luzes de cores fortes, como o rosa e o amarelo, tudo conversa para que “As Boas Maneiras” se torne uma fábula mágica. Ao ponto de haver, quem diria, um número musical próximo ao fim da trama.

A divisão das duas partes do longa permite inúmeras reflexões. Por exemplo, Isabél Zuaa, que vive a protagonista, tem duas abordagens muito diferentes para sua personagem, uma para cada fase da vida. Se na primeira metade, quando ainda descobria o mundo em que estava entrando, Clara era uma personagem mais reativa, tímida, na segunda parte vemos uma mulher mais incisiva e decidida. Conseguimos, portanto, ver na Clara adulta os reflexos dos acontecimentos que permearam a vida da Clara jovem.

Paralelamente ao desenvolvimento da protagonista, há também uma inversão de referências na trama. Na primeira parte, o desconhecido surge como um elemento a ser descamado, degustado aos poucos. Há um foco em como a protagonista vai desvendar o mistério. O mesmo elemento misterioso da primeira parte, quando na segunda, se torna um “personagem” e passa a ser algo comum, rotineiro, a ponto de ser mostrado sem nenhum pudor por Dutra e Rojas. Ao contrário do suspense inicial, na segunda parte do longa ele está sempre lá, e todos os elementos da rotina de Clara se moldam ao redor de sua existência.

Enquanto na primeira metade, os elementos fantásticos eram mais presentes nas ambientações externas e no céu de São Paulo, na segunda a fantasia está dentro do lar de Clara. E é gratificante ver uma obra do cinema nacional ser capaz de apresentar algo místico e, mesmo que inicialmente deixe no fundo do plano, aos poucos traz para o centro e o transforma no coração do filme. A Rojas e Dutra, palmas pela coragem de fazer um filme que, assim como um de seus personagens centrais, se transforma.

É um cinema refinado e audacioso, que merece elogios. Um filme capaz de desconstruir seus próprios alicerces dramáticos para que a obra acompanhe a trajetória de seus personagens. Que pérola do cinema brasileiro.

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