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Bandidos na TV – 1ª temporada

Bandidos na TV – 1ª temporada

Minissérie documental da Netflix mostra como se destroem vidas, inocentes ou culpadas, no império da pós-verdade

Ana Flavia Gerhardt - 7 de junho de 2019

Uma das imagens mais recorrentes de “Bandidos na TV”, minissérie documental brasileira exibida pela Netflix, é aquela que exibe em zênite o espantoso encontro das águas dos Rio Negro e Solimões, que ocorre a alguns quilômetros da cidade de Manaus, onde os fatos abordados pela produção acontecem.

Quem já esteve nesse ponto singular no planeta sentiu as diferentes densidades, temperaturas e consistências das águas café com leite e coca-cola dos dois rios, que caminham juntas por quilômetros e quilômetros até finalmente se misturarem, formando o grandioso Amazonas.

A distinção precisa entre os rios é uma metáfora, mas ao mesmo tempo motiva perguntas feitas mais ou menos explicitamente nos depoimentos de algumas das pessoas que permaneceram vivas após o caso Wallace Souza: é possível enxergar igualmente todos os fatos e lados de uma história com nitidez igual à que as águas juntas do Negro e do Solimões exibem? A fronteira entre a verdade e a mentira é sempre tão definida quanto a que separa as correntes desses rios? Ou a verdade e a mentira, tal como os rios tão diferentes, são capazes de dividir o mesmo percurso? Ou será que verdade e mentira sequer existem, já que no fim ambas criarão o mesmo rio?

Este é Wallace Souza, amado pelo povo no auge da carreira.

As pessoas leigas à área de Letras não costumam pensar com frequência nos significados das palavras, mas, como regra do ofício, passo boa parte do tempo detectando polissemias. A da palavra “verdade” é a que mais tem me interessado ultimamente. Me intrigou outro dia saber de uma pesquisa que concluiu que muitas pessoas não se importam se o que estão lendo na internet e nos grupos de WhatsApp é fake news ou não.

Mas será que o que para uns é fake para outros também é? Pergunto isso porque a existência de fake news está relacionada também à suposição de que há fronteiras nítidas entre verdade e mentira. Mas acho que esses conceitos não são iguais para todas as pessoas.

O que é a pós-verdade

Tenho percebido que, para uns, uma ideia verdadeira é aquela categorizada após investigação e análise sobre a congruência com fatos, a checagem de quem falou e a qualidade da pesquisa relacionada, entre alguns outros “selos” de autenticidade. Mas, para outros, o que é verdadeiro é aquilo que se identifica com suas crenças – ou seja, é uma forma narcísica de verdade.

Por exemplo, se uma pessoa acredita piamente que mulheres que acusam de estupro homens poderosos estão querendo ser famosas, então, para essa pessoa, qualquer mulher que alegue ser estuprada por um poderoso está só querendo aparecer.

E, também, se uma pessoa acha que um juiz de primeira instância é um herói porque tornou inelegível um ex-presidente, não importa a ela se depois esse mesmo juiz se tornar ministro do candidato cuja eleição foi favorecida por suas ações. E ela manterá sua certeza à revelia da existência de fortes argumentos contra a ideia que centraliza todos os problemas do Brasil na corrupção de um só partido político.

Por essa razão, entre outras, é  sempre bastante difícil o diálogo entre os partidários dos dois conceitos de verdade que apresentei acima.

A materialidade reunida pela acusação passava longe de qualquer prova conclusiva.

O conceito narcísico de verdade talvez seja o que muitos têm denominado pós-verdade: é a verdade que dá à pessoa que acredita nela a sensação de ser inteligente, sagaz, porque no mundo acontecem coisas que confirmam crenças que ela é incapaz de suspender. Para a nossa desgraça, principalmente no Brasil, temos vivido o império da pós-verdade, e não é de hoje, como “Bandidos na TV” mostra.

Uma obra que só propõe perguntas – e isso é muito bom

A excelência do trabalho idealizado e dirigido por Daniel Bogado e Suemay Oram traz entre seus componentes a coragem de, diferentemente do que José Padilha fez no péssimo “O mecanismo“, reconhecer que o tempo presente é um mosaico discursivo e factual. Justamente por isso, não se pode ter a presunção de saber com quem está a verdade, qualquer que seja o significado dessa palavra.

A ideia dos realizadores é outra: a de escancarar do que é capaz a pós-verdade, algo de que lançam mão os principais lados da história: o de Wallace Souza, apresentador acusado de chefiar junto com o filho uma quadrilha de traficantes e assassinos; e o da polícia, encarregada de usar de absolutamente todos os expedientes, inclusive os abusivos, para convencer o povo, a Justiça e a classe política amazonense da culpa do apresentador.

Para jogar gasolina no incêndio, aparece a imprensa, interessada apenas naquilo que pode render mais audiência e patrocinadores, independente das consequências de suas ações: “Taí, ele tá morto. Tá satisfeita?”, pergunta Willace Souza, filho de Wallace, à jornalista investigativa Paula Litaiff.

E, por trás disso tudo, evidentemente, grupos mais poderosos ainda, artífices principais das guerras em que os outros é que se matam, e que vão sair ganhando mais ainda, não importa quem aparentemente vença, e não importa se precisarem destruir tudo ao redor. É porque, no império da pós-verdade, ganhando ou perdendo, todos perderemos, como profetizou a presidenta retirada do cargo.

Não é possível escolher lados

Em “Bandidos na TV”, ninguém é inocente. Wallace Souza teve fama e acumulou alguma fortuna explorando a violência urbana à frente de um desses programas de TV que incitam as pessoas a se odiarem mais do que já se odeiam, e que exibem imagens grotestas e aberrantes para a classe média racista detestar mais ainda os pobres e os não brancos que vão para o tráfico como alternativa para a miséria.

Não é à toa que Pepe Mujica proibiu a exibição de programas como o de Wallace na TV uruguaia, porque incentivam ainda mais a violência entre as populações mais fragilizadas, e o racismo da sociedade em geral, que se insensibiliza mais e mais com as imagens de homens miseráveis se matando sendo marteladas na sua cabeça.

Thomaz Vasconcelos, um dos responsáveis pelo caso Wallace Souza: nenhuma prova, mas muitas convicções.

No entanto, aqui no Brasil, esses programas não apenas escolhem livremente sua pauta como também favorecem seus apresentadores a se candidatarem a cargos políticos e serem votados massivamente, a partir da certeza corrente de que a fama traz conhecimento e competência a alguém.

Foi o que aconteceu com Wallace Souza, e não é de se admirar que a ascensão política do apresentador, que dispunha de um palanque televisivo gigantesco e por isso foi eleito sucessivamente para a Assembleia Legislativa do Amazonas, tenha incomodado quem está há séculos no poder se locupletando com a miséria do povo. É claro que eles não admitiriam um concorrente ao banquete.

A polícia e o ministério público também não são inocentes. Chega a dar vergonha o desespero das forças legais em encontrar algo que incriminasse o apresentador (ensaio para o que aconteceu depois no Paraná?). Eles tinham um problema gigantesco: todos os depoimentos que apontavam Wallace como líder de quadrilha e de grupo de extermínio eram de traficantes que cediam rapidamente às ameaças imediatas da polícia. Eram portanto pessoas de baixa credibilidade, e também de pouco valor moral aos olhos do povo.

Eles precisavam de peixes grandes, sendo a grandeza aqui medida pela isenção de crimes. Voltaram-se então para a equipe do programa, mantendo pelo menos um de seus componentes preso, na ansiedade incontrolável de arrancar qualquer informação que pudesse destruir a vida do apresentador, porque cassar seu mandato não era suficiente. Era preciso cortar pela raiz Wallace Santos como ideia de liderança popular.

E o povo?

No meio desse imbróglio todo, a sociedade amazonense era jogada pra lá e pra cá, perdida nas crenças que são o insumo de suas verdades. Os que são facilmente manipuláveis pela mídia mudavam frequentemente sua opinião, ora pela inocência, ora pela culpa do apresentador, já que nada era afirmado por tempo suficiente para se transformar em ideia permanente.

Em vez disso, só o que havia era testemunhos pouco confiáveis e imagens pouco nítidas, congruentes com a falta de nitidez de todo o acervo de acusações e defesas que compunham o processo. Durante o linchamento público e julgamento de Wallace, e a despeito dos esforços das partes envolvidas, de preciso mesmo só havia duas coisas, e a primeira delas era a diferença entre o Negro e o Solimões.

Wallace Souza foi julgado em um teatro dentro do Fórum de Manaus. E que outro lugar poderia ser?

A segunda era a miséria e a violência a que o povo do Amazonas era exposto todos os dias, e com as quais nem Wallace nem os poderes públicos estiveram realmente preocupados. Essa é a conclusão a que se chega ao fim da série.

Aliás, é a única conclusão verdadeira – não a verdade das crenças, mas a dos fatos: o fortalecimento das redes do tráfico; a ampliação do alcance de grupos poderosíssimos que disputam território à custa de mortes de dezenas de pessoas; a condição animalizada dos infelizes que abarrotam os presídios, algo de que os governos antes disfarçavam cuidar.

Porém, agora, com a emergência da ultradireita às esferas do poder nacional, a violência se agrava com a necropolítica que se torna regime oficial, muito embora, como “Bandidos na TV” mostra, na prática ela já vigora há anos, tendo tido Wallace Souza como um de seus agentes efetivos.

Mesmo assim, houve um vencedor

Mais uma morte entre aquelas que costumava divulgar em seu programa, Wallace Souza, estranhamente, acabou saindo vitorioso na contenda com os poderes que o desafiaram. Ao morrer, ele assumiu a direção do curso do rio: decidiu quando seu processo pararia, calou seus inimigos, lhes disse para onde deveriam ir, e a quem deveriam condenar.

Tendo seu corpo morto carregado nos braços do povo e  enterrado sob os aplausos finais que a carreira de apresentador nunca lhe negou, Wallace leva consigo o benefício da dúvida: realmente inocente, de fato, ou esperto demais para ser pego? Seus inimigos viverão o tempo que ainda tiverem neste mundo com a vaidade ferida, sentindo na boca o gosto amargo da vitória de que não puderam gozar.

“Bandidos na TV” é uma das melhores produções brasileiras deste ano porque, além de não recusar enfrentar a complexidade dos problemas sociais brasileiros, foi capaz de compreender o quanto do presente trágico que estamos vivendo já estava sendo engendrado anos atrás, quando acreditávamos que as mentes das pessoas poderiam ser mudadas por políticas públicas e investimentos sociais.

Por ser denunciadora de muitos dos sintomas da doença histórica que hoje nos queima de febre, pelo ódio, pela exploração dos mais fracos e pela incapacidade de remover do poder os canalhas que lá fincaram pé há séculos, “Bandidos na TV” se torna imperdível para os que desejam estar além da pós-verdade e começar a problematizar suas crenças, porque sempre é tempo de fazer isso, enquanto se está vivo.

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