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Bauman explica

Bauman explica

Gustavo Pereira - 18 de março de 2016

Em nosso mundo de furiosa ‘individualização’, os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro.” As palavras fortes não concluem, abrem a introdução do fenomenal Amor Líquido de Zygmund Bauman, um desdobramento do seu famoso conceito de modernidade líquida. Quando assisti à primeira temporada de Love (Netflix, 2016, disponível aqui), sabia que havia mais do que uma série água-com-açúcar sobre desventuras amorosas. Entre Mickey (Gillian Jacobs) e Gus (Paul Rust), havia Bauman.

love

Esta relação pós-moderna ilustra a oposição dos conceitos de amor e desejo. Mickey vem de um relacionamento abusivo e enxerga em Gus a chance de construir uma vida melhor para si. Como sua vizinha Syd (Kerri Kenney) diz em determinado episódio, ela só vai se ver com homens melhores quando achar que os merece; Gus se considera uma vítima do mundo que não lhe deu tudo o que merece e vê a necessidade de preencher a lacuna entre o homem que pensa ser e o que de fato é. Para Bauman, “não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas” e “desejo é vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir — aniquilar”.

Enquanto Mickey busca o amor, Gus busca satisfazer seu desejo. Este é o choque que move a série e garante seus melhores momentos, inclusive com demonstrações cruas e assépticas de desapego beirando a crueldade.

“Em sua essência, o desejo é um impulso de destruição. E, embora de forma oblíqua, de autodestruição: o desejo é contaminado, desde o seu nascimento, pela vontade de morrer. Esse é, porém, seu segredo mais bem guardado — sobretudo de si mesmo.

O amor, por outro lado, é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto cuidado. Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que ‘está lá fora’. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo. Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama.”

Zygmund Bauman. Amor Líquido, p. 24

Uma visão aprofundada sobre os acontecimentos da série resultariam em inevitáveis spoilers. Mas é notável como a construção dos dois protagonistas é fiel à constante efemeridade de nossas vida: conectados a tudo, menos uns aos outros; olhando nos outros a salvação para nós mesmos; presos no dilema de nos dedicar a uma relação que pode nos machucar quando acabar (e irá acabar, pois diferente da morte, o amor pode ser vivido mais de uma vez), ou vivê-la com reservas e, no fim das contas, não tê-la vivido. Magoar alguém antes que este seja capaz de nos magoar é um mecanismo de defesa ou pura e simples covardia?

É importante deixar claro que não achei o resultado final incrível: os núcleos dos protagonistas beiram o surrealismo (tentativa malsucedida de criar situações cômicas) e tenho problemas com a questão dos vícios de Mickey. O elenco secundário poderia ter mais destaque, mas entendo que a série só teve dez episódios e seria difícil conciliar tudo de forma coesa. Em linhas gerais, Love propõe questões melhores do que a própria série. Todas elas claras em Amor Líquido, um livrinho com menos de 200 páginas e delicioso de ler, que você pode comprar aqui.

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