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Black Mirror 5×01 – Striking Vipers

Black Mirror 5×01 – Striking Vipers

O episódio de Black Mirror é um dos exemplos de como a Arte pode ampliar os campos do pensar

Ana Flavia Gerhardt - 11 de junho de 2019

Este texto traz spoilers sobre o episódio abordado.

“Striking Vipers” abre a quinta temporada de “Black Mirror” com chave de ouro e se insere no restrito rol de episódios da série que, além de apresentarem tramas e ideias emocionalmente impactantes, cruzando com perfeição questões existenciais e sociais, fazem isso ampliando espaços e condições de pensabilidade sobre o tema que abordam. Em “Black Mirror”, como em todo campo artístico, esse feito foi alcançado poucas vezes, em especial em duas: nos episódios “Engenharia Reversa” e “The entire story of you”. “Stiking Vipers” se junta a esses dois para um honrosíssimo Top 3, conforme explico neste texto.

Novamente, os videogames são usados como plataformas de imersão profunda em universos virtuais e paralelos. Isso já havia sido feito em “USS Callister”, por exemplo, e estruturou toda a produção “Bandersnatch”. É comum, como acontece com “Striking Vipers”, que os jogos sejam usados para permitir que seus usuários vivam vidas que não se sentem livres para viver, para o bem ou para o mal, no universo “real”. Seu comportamento e os efeitos individuais e/ou coletivos de suas ações nesses universos substanciam os episódios.

O gênero como uma questão de grau

Essa primeira leitura ganha contornos bastante enriquecidos em “Striking Vipers”, e faz com que o episódio se situe além da temática LGBTQ. Ele se afasta de episódios como “San Junipero”, por exemplo, e se insere na questão mais ampla de gênero, que envolve, evidentemente, o que se define como masculinidade: comportamentos masculinos, relacionamentos masculinos, cognição masculina, desejo sexual masculino. Estão presentes em “Striking Vipers” muitos elementos relacionados aos efeitos sociais contemporâneos de um ser humano nascer com um corpo masculino – basicamente, um pênis em vez de uma vagina – numa sociedade patriarcal e altamente reguladora de nossos comportamentos.

Em “Striking Vipers”, é possível notar que, no que diz respeito à categoria social de gênero, tudo é uma questão de grau. Assim, há um contínuo que parte da desconstrução expressiva dos valores sociais de gênero e vai até a masculinidade tóxica, ou seja, a dicotomia total entre masculino e feminino, que por exemplo ensina e força os homens de todas as idades a repudiar violentamente em si mesmos quaisquer traços tidos historicamente como comportamentos próprios das mulheres.

O caso do episódio de “Black Mirror” é notável não apenas pela situação em que se colocam os dois protagonistas. O videogame é usado de novo para proporcionar experiências virtuais, e os protagonistas o fazem de início para intensificar práticas que na vida “real” eles já estão habituados a exercitar. Só que, dentro do mundo virtual, eles são impelidos e passam a desejar experiências antes não imaginadas no plano do que podemos chamar “consciência” – essa “consciência”, claro, moldada pelos padrões de masculinidade do mundo ocidental, onde os protagonistas parecem estar transitando desde o início de suas vidas sem nenhum desconforto.

Como discutir a masculinidade no século 21

Os amigos Danny (Anthony Mackey) e Karl (Yahya Abdul-Mateen II) se aproximam dos quarenta anos menos próximos do que eram na juventude, tempo em que apreciavam passar horas juntos jogando Striking Vipers, um jogo de luta física. O aniversário de Danny é motivo para que Karl o presenteie com a versão atualíssima do jogo, que permite que os adversários lutem no espaço virtual incorporando seus avatares preferidos.

Chama atenção, no início do episódio, que Danny desde sempre prefira jogar assumindo um avatar feminino, o que denota a tranquilidade do personagem em relação a ser representado por uma mulher. A opção de Danny se torna intrigante se considerarmos que esportes de luta são oportunidades para homens se tocarem sem ser reprimidos. Dessa forma, podemos inferir que Danny está num ponto do contínuo da sexualidade afastado da masculinidade tóxica. Karl também parece se situar em posição análoga, já que não se incomoda em lutar com uma mulher e não manifesta qualquer preconceito com o fato de seu amigo se representar como mulher no jogo.

Para além do espanto e, depois, da aceitação daquilo com que ambos se deparam no espaço virtual proporcionado pela versão atualizada do jogo, existe a possibilidade de eles viverem experiências cuja supressão na vida “real” produz lacunas em suas vidas. E para muito além de experimentar o que é ser uma mulher fisicamente forte e corajosa, Danny pode vivenciar o prazer sexual que o corpo feminino sente, o qual é obviamente diferente do que um homem sente ao excitar-se e atingir o orgasmo. E é realmente maravilhoso imaginar a possibilidade de conhecer na prática o que é o prazer sexual tanto como homem quanto como mulher. Não é à toa que Danny não pode mais passar sem isso.

Karl, por sua vez, que recusa na vida “real” relacionamentos mais longos e compromissados, experimenta com Danny o que é o sexo vivido entre duas pessoas que cultivam um relacionamento duradouro, baseado em conhecimento, cumplicidade e confiança. Sobre isso, são significativos os momentos de afeto que ambos, no espaço virtual do jogo, se permitem após cada intercurso sexual, o que mostra que não é só de que sexo que se trata. Note-se, sobre isso, que a intensidade do encontro entre eles, proporcionada pela amizade que cultivam há décadas, não é atingida nos encontros sexuais que Karl busca com outros jogadores.

Menino veste rosa e menina veste azul, sim

É interessante notar que as experiências vividas por cada um fazem parte do que é interditado pelo modelo de masculinidade hegemônico, em que machos de verdade não podem ser penetrados em hipótese alguma. Aliás, muitos machos sequer reconhecem como prazerosa a experiência de qualquer pessoa sendo penetrada, já que ignoram que as mulheres também têm prazer sexual. Machos de verdade precisam cobrir o maior número de mulheres possível, e os relacionamentos afetivos são prejudiciais à potência masculina, baseada em quantidade, e não em qualidade de relacionamentos. Isso mostra que, embora aparentemente “desconstruídos”, tanto Danny quanto Karl estão imersos numa cultura que lhes dita como pensar e se comportar, e o faz de uma forma tão cotidiana que eles não percebem que estão reproduzindo um modelo.

Ao aceitarem viver apenas no espaço virtual e individual a quebra desse modelo, eles mostram ser como muitos homens e mulheres adultos que só conseguem liberar seu desejo socialmente interditado em guetos, espaços virtuais e outros lugares criados para isso. Portanto, ainda não estão prontos para usufruir desse desejo na vida pública; mas, de todo modo, a carapaça da sexualidade formatada já está rompida. Essa ruptura se torna ainda mais impactante se lembrarmos que o episódio é ambientado no Brasil atual, que vive um momento de repressão institucional às sexualidades não normatizadas. Coincidência? Não sei…

Evidentemente, não estou falando daqueles cujo desejo inclui formas de violência contra outras pessoas de todas as idades. Estou falando de gente adulta cujo desejo sexual não responde aos rótulos heteronormativos hegemônicos, e que, ainda temerosa do próprio desejo e da reação alheia, busca o sexo consensual em espaços fechados, como Danny e Karl fizeram.

Em favor dessas pessoas, é preciso dizer o quanto todas as formas de sexualidade, até as institucionalmente “permitidas”, são comportamentos vigiados, controlados e regulados de maneiras explícitas e implícitas. Mesmo em sociedades mais avançadas em termos de costumes, que buscam com afinco combater o machismo e a homofobia, reconhecer-se como se é é uma construção lenta e dolorosa, como mostra por exemplo o maravilhoso filme “Amor de fim de semana”, que citei nesta lista.

Rótulos são apenas tentativas de prever o que podemos ser

Por isso tudo, acredito ser insuficiente afirmar que os protagonistas estão tendo uma experiência LGBTQ, como li em alguns textos sobre o episódio. Me incomoda estabelecer algum rótulo definido para os personagens bem como para suas práticas. Me parece mais que eles estão justamente rompendo com esses rótulos e vivendo todas as fases que essa ruptura representa, e não propriamente “saindo do armário” ou algo parecido.

Ao fim e ao cabo, a grande proposta e o grande achado de “Striking Vipers” não consistem em contar uma história preocupada em definir para o espectador quem são as pessoas. A ideia é a de apresentá-las como pessoas capazes de se deparar com novas formas de vivência sexual, gostar disso e aprender a incorporar isso em suas vidas, nos lugares em que elas podem ser vividas de forma prazerosa, sem abrir mão de outros prazeres e relacionamentos que lhes são caros. O espaço virtual criado pelo episódio é uma metáfora da possibilidade de abertura de chances para uma vivência afetiva e sexual negociada com aqueles que amamos.

Sobre esse ponto em especial, o que torna “Striking Vipers” tão importante em meio a tantos outros episódios de “Black Mirror” imensamente caros aos fãs é a ação de estender a problematização sobre a masculinidade para esferas absolutamente fora dos padrões hegemônicos. O tema abordado, e também a forma como ele foi abordado, nos termos, nas condições, nas complicações e nas soluções oferecidas, agregaram conceitos e discussões que os estudos de gênero mais atuais nos oferecem como possibilidades de pensar, enriquecendo o campo da Arte com teorias contemporâneas e difundindo conhecimentos acadêmicos para a sociedade num sentido amplo.

No passado, havia um imenso preconceito, acompanhado da também da ausência de recursos conceituais para refletirmos sobre a masculinidade. Isso impedia o diálogo sobre esse desejo que escapa, sobre isso que afeta muitos homens que aparentemente se encaixam nos rígidos padrões de gênero impostos pela grande maioria das sociedades. Atualmente, o campo conceitual sobre o assunto é mais evoluído, mas ainda há grande silenciamento e repressão. Por isso, falar sobre a masculinidade de uma maneira conceitualmente fundamentada e livre de conservadorismo ainda é um ato de ousadia e de coragem.

Por todas essas razões, me alegra muito que milhões e milhões de pessoas em todo o mundo certamente estarão, na solidão de suas casas, se identificando  com as perplexidades e sentimentos de Danny e Karl. Isso lhes reforçará o sentimento de que nada pode ser mais humano e mais são do que o desejo.

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