Carro Rei

Carro Rei

O cinema de gênero a serviço de nada

Wallace Andrioli - 23 de agosto de 2021

O mote de Carro Rei aponta para uma relação bastante prazerosa com o cinema de gênero, para uma apropriação criativa e releitura de seus códigos a partir de aspectos da experiência social brasileira. O filme de Renata Pinheiro, de certa forma, até se vende assim, é isso que ele quer muito ser. Mas passa bem longe de ter sucesso. Sobretudo em razão da opção por encadear a narrativa a partir de um discurso político raso, maniqueísta e, o que é pior, pessimamente articulado.

Os elementos fantásticos, que a princípio remetem ao delicioso Christine, o Carro Assassino (1983), de John Carpenter, são totalmente secundarizados pelo esforço da diretora e roteirista (o texto tem coautoria de Sérgio Oliveira) por dizer algo (o óbvio) sobre o estado das coisas no Brasil. O prazer prometido se esvai quase completamente: a cena de sexo de uma personagem com o carro do título e alguns momentos soltos de Matheus Nachtergaele são resquícios de um filme que poderia ter existido, mas que no fim das contas não se importa nada com o cinema de gênero ao qual esboça se filiar. O primeiro momento, aliás, apesar do conceito atrativo de conjugar carne e máquina, é filmado com o mesmo burocratismo que contamina a composição de todos os planos de Carro Rei. Nada aqui é minimamente memorável.

A vontade de falar de política e o maniqueísmo não são problemas em si mesmos. Por sinal, bons filmes de gênero com certa pegada juvenil frequentemente fazem isso, combinando o fantástico a tramas que em algum ponto promovem o embate entre little people e homens poderosos e malvados. Mas nem com esse tipo de clichê Carro Rei consegue se refestelar. Fragmentos de uma narrativa como essa aparecem esparsamente e não funcionam sequer para organizar uma história minimamente bem contada, a despeito de qualquer obviedade esperada.

Resta um filme desconjuntado, mas não num bom sentido, de abertura ao imprevisível, demolidor de fórmulas de roteiro, devorador de influências estrangeiras para originar um cinema precário mas criativo e transgressor, como é, por exemplo, aquele realizado por Adirley Queirós. Em Carro Rei, Renata Pinheiro mistura o pior de vários mundos: as críticas políticas que qualquer um consegue fazer, a mise en scène truncada, que não gera sequer um grande momento cinematográfico, os clichês de gênero sem realmente demonstrar qualquer paixão por eles, o roteiro bagunçado mas que também não é propositalmente lacunar ou feito para romper com esquemas consagrados. O estranhamento produzido a partir de determinado momento do filme e que segue até o fim não tem, portanto, nada a ver com ousadia. É só o resultado de uma enorme incapacidade de concretizar uma ideia que, lá no início, pode ter sido boa.

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