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Circunstância (2011)

Circunstância (2011)

Gustavo Pereira - 24 de maio de 2017

Circunstância supera o rótulo de filme-denúncia. Além de expor a realidade do Irã, transformado de um regime liberal numa teocracia opressora após a revolução de 1979, trabalha com sensibilidade ímpar uma miríade de temas.

A jovem Atafeh (Nikohl Boosheri), filha de pais abastados, tem em Shireen (Sarah Kazemy) mais do que uma amizade, um amor. A diretora Maryam Keshavarz, que também assina o roteiro, sempre retrata as duas juntas em planos fechados (primeiros planos e closes), um indicativo de que o mundo interessa menos do que uma à outra. Também é rotineiro que figuras representando a opressão contra elas sejam filmadas de costas ou sem rosto. Porque a ameaça não tem uma face, mas é a estrutura social em si que as afligem.

Nesta sequência, o fundo é completamente desfocado: tudo o que interessa a Atafeh e Shireen é estarem juntas, independente do lugar

O elemento transformador em Circunstância é Mehran (Reza Sixo Safai), irmão de Atafeh que, no processo de recuperação da dependência química, se converte ao islamismo e destrói a conexão que antes havia entre os dois. Paralelamente, passa a ter por Shireen, moça órfã de pais contrários à revolução iraniana e que vive com os tios tradicionalíssimos, uma obsessão.

Atafeh e Mehran: separados por mais do que uma rede de vôlei

O uso do compositor Beethoven marca o contraste entre as relações Shireen-Mehran e Shireen-Atafeh: enquanto Mehran é associado a “Für Elise”, uma declaração de amor não correspondida, Atafeh tem um tema original claramente inspirado na “Sonata para Piano nº 14”, popularmente conhecida como “Sonata ao Luar”, uma peça marcante pela sua melancolia interna, mas bela a ponto de ser comparada ao “luar sobre o Rio Lucerna”.

Em dois momentos distintos do filme, o uso de um plano zenital (câmera no alto, apontando diretamente para baixo)

Na imagem acima, repare que Atafeh e Shireen olham diretamente para a câmera na sequência da esquerda, algo que não se repete depois. Num filme onde a religião tem papel tão decisivo na vida dos personagens, é possível interpretar a câmera em ângulo zenital como “a perspectiva de Deus”. É como se Shireen se sentisse indigna de encará-lo. Ela está completamente quebrada.

Circunstância é uma obra realista, podendo ser facilmente tomada como pessimista. Em um desenvolvimento muitas vezes não-verbal, cada personagem ganha camadas de complexidade e se torna factível. Mesmo Mehran, que durante grande parte do filme aparece como uma espécie de vilão, tem um belo momento de humanização pela insegurança. É comum assistir a este tipo de filme procurando as diferenças em relação à nossa realidade, mas são as semelhanças que mais saltam à vista.

Tülin, 26 anos: síria residente no Brasil desde 2015

Tülin Hashemi

Abaixo, uma entrevista com Tülin Hashemi, professora da ONG Abraço Cultural. Nossa conversa usou Circunstância, filme indicado por ela, como ponto de partida para falarmos sobre religião, cultura e liberdade.

 

PLANO ABERTO – Circunstância começa com a pergunta “se você pudesse ir para qualquer lugar do mundo, para onde gostaria de ir?” Vou começar com a pergunta mais óbvia possível: o Brasil era esse lugar para onde você gostaria de ir, ou sua vinda foi produto do acaso?

TÜLIN HASHEMI – Os dois, na verdade! Sempre gostei do Brasil, mas nunca imaginei vir morar aqui um dia. Mas agora, depois de quase dois anos, posso responder à pergunta do filme. “Pro Brasil”.

 

PLANO – De certa forma, o filme mostra o poder destrutivo da religião em diferentes níveis: nação, sociedade, família e indivíduo. Você considera possível conciliar Igreja e Estado no século XXI?

TÜLIN – Não acho que seja possível. Os exemplos da nossa história e o que estamos vivendo no presente mostram que isso é impossível.

PLANO – A principal consequência da Revolução Iraniana de 1979, abordada no filme, foi a adoção da charia, a lei islâmica. O Brasil tem um segmento de políticos conhecido como a “Bancada da Bíblia”: deveríamos tomar cuidado com isso?

TÜLIN – Não tenho muitas informações sobre isso, mas tem que tomar cuidado com qualquer tentativa de exterminar liberdades em nome da religião.

PLANO – Você é síria e indicou um filme de diretora iraniana. Os povos dos dois países são estreitamente relacionados. Há muita dificuldade no Brasil para encontrar cinemas que exibam filmes argentinos, chilenos, uruguaios, colombianos etc. Muitos simplesmente não chegam. Você considera o brasileiro receptivo para intercâmbio cultural?

TÜLIN – Partindo da sua comparação: Circunstância nunca passaria na Síria. Infelizmente, nosso cinema é fraco. Mas eu adoro cinema e gosto de pesquisar sobre filmes de todos os lugares do mundo. Indiquei esse filme porque ele mostra o sofrimento que muitas pessoas vivem por serem diferentes nesses países. O que passa na Síria geralmente são filmes norte-americanos comerciais.

PLANO – Não é muito diferente do que acontece aqui! A identidade nacional parece ser um problema dos dois países. Como o cidadão sírio preserva a própria cultura, quando um filme dos Estados Unidos é mais acessível do que um nacional?

TÜLIN – Na verdade, o que o povo sírio assiste mais são as novelas nacionais mesmo. O cinema egípcio é muito forte por lá também. Os filmes norte-americanos que passam têm censura. Por exemplo: um filme de 90 minutos fica com 60 depois de censurar. Lembro que eu nunca podia entender filmes por causa disso (risos).

PLANO – Um dos aspectos mais curiosos  de Circunstância pra mim foi a visão romântica que Atafeh e Shireen têm de Dubai. Ficou famoso o caso de uma norueguesa de 25 anos que sofreu um estupro e foi condenada pela justiça dos Emirados Árabes Unidos a 16 meses na cadeia por fazer sexo fora do casamento. Essa romantização é real ou uma licença poética da diretora?

TÜLIN – Mesmo a homossexualidade sendo crime por lá, acredito que seja um país mais aberto que o Irã. Muitos estrangeiros vivem lá, a sociedade underground de LGBTs deve ser forte. Não concordo com a sua colocação.

PLANO – A cena do abuso, apesar de inesperada, é extremamente forte, assim como o momento em que as duas entram no mar. Circunstância aborda diferentes situações em que a mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo. Quais diferenças você vê em relação ao Brasil?

TÜLIN – No mundo todo existe machismo, o que muda é a intensidade. No meu caso, eu morava numa sociedade tão machista que levei tempo pra poder perceber o machismo daqui do Brasil.

PLANO – Uma mulher é agredida a cada quatro minutos no Brasil, mas discursos de negação à equidade de gênero se tornaram combustível para pretensões de políticos conservadores. A união civil entre pessoas do mesmo sexo é legal, mas nenhum país do mundo assassina mais LBGTs do que o Brasil. Você nos considera um país realmente liberal?

TÜLIN – Acredito que isso dependa mais do lugar que você está no Brasil. Eu moro no Rio de Janeiro e não viajei muito ainda, então seria complicado  falar sobre todo o Brasil.

PLANO – Tülin, muito obrigado por abrir este especial do Plano Aberto com o Abraço Cultural!

TÜLIN – De nada, obrigada a vocês do Plano Aberto e obrigada ao Abraço Cultural, que mudou minha vida no Brasil!

 

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