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Colateral (2004)

Colateral (2004)

Do abstrato ao concreto (e as arestas que ficam pelo caminho)

Wallace Andrioli - 19 de fevereiro de 2024

Pouco depois de entrar no táxi de Max (Jamie Foxx), ainda no início de Colateral, o assassino profissional Vincent (Tom Cruise) fala sobre sua visão de Los Angeles: um lugar onde tudo está desconectado e ninguém se importa com ninguém, concluindo com a história do cadáver de um homem que passou despercebido por horas no metrô da cidade. Essa primeira interação entre os protagonistas encapsula boa parte do filme de Michael Mann, das tensões formais que carrega aos temas de que trata.

A começar pelo fato de Colateral se dedicar, ao longo das quase duas horas seguintes, a contradizer Vincent, amarrando fios, construindo sentidos e uma narrativa estruturada a partir justamente dessa dispersão mundana característica das grandes metrópoles: Anne (Jada Pinkett Smith), a passageira que no início do filme flerta com Max, numa sequência que parecia existir apenas para apresentar certas características desse último, é na verdade o alvo final do assassino, possibilitando que o taxista se torne heroi e consolide os laços com a mulher desejada; o epílogo concretiza visualmente a história contada pelo vilão, tornando-o o próprio cadáver esquecido em público; o momento de aparente distensão, quando Vincent leva Max a um clube de jazz, se revela parte do trabalho do primeiro. Tudo se aproveita, tudo se fecha. Mann tem interesse no registro realista dos espaços urbanos, documenta o caos cotidiano de Los Angeles, mas faz cinema narrativo. A matéria-mundo transformada em ficção de altíssimo nível.

Ao mesmo tempo, o diretor consegue manter, na imagem, uma ambiguidade muito produtiva entre concretude e abstração. A cidade, as relações de trabalho (repetidamente discutidas pelos protagonistas) e o fio narrativo são elementos concretos. Mas a câmera no mundo, especialmente em ambientes tendentes ao caos como os de Los Angeles, gera composições visuais fragmentárias que remetem a certo abstracionismo, a presenças estranhas não totalmente compreensíveis: o reflexo distorcido do carro de Max num prédio espelhado; o imenso mural na saída da garagem dos táxis, representando a luta entre um toureiro e um touro; as colunas de fumaça de uma fábrica compondo o pano de fundo da viagem dos dois personagens principais; as muitas vias que se entrelaçam e formam a paisagem urbana sempre em movimento.

Nesse sentido, a cena dos coiotes atravessando a rua é o rasgo mais significativo no tecido narrativo de Colateral: por alguns instantes, o carro, os personagens, a ação e a trama permanecem suspensos, em espera. Muito mais interessante que buscar algum tipo de simbolismo na entrada repentina desses animais, é tratá-la como um momento assignificante, tipicamente moderno, em que o aleatório do mundo irrompe e interrompe a lógica do realismo romântico fechado. Colateral é, portanto, um esforço de organização do caos que se reconhece enquanto tal, inclusive em suas impossibilidades.

Por fim, vale voltar à cena da conversa inicial entre Max e Anne. Colateral se desenrola quase totalmente em torno da relação entre os dois protagonistas masculinos, com o taxista saindo da posição de mera submissão – não só pela violência, mas também argumentativa, já que Vincent é um sujeito muito bem articulado – conforme performa melhor na escolha de palavras. Nesse sentido, seu desempenho na breve interação com o perigoso traficante Felix (Javier Bardem) é central para reposicioná-lo aos olhos do assassino profissional e do espectador. E flerte é performance.

Antes de conhecer Vincent ou Felix, Max se sai incrivelmente bem no diálogo com Anne. Mann filma esse momento num fluxo delicioso: o taxi desliza pelas ruas de Los Angeles, a estilosa “Hand of time”, do Groove Armada, toca na trilha sonora e o protagonista vai conquistando lampejos de atenção da atribulada advogada, até ela enfim demonstrar um interesse romântico por ele. Colateral é uma obra-prima, mas seria igualmente maravilhoso se suas duas horas se resumissem a Max e Anne trafegando pela metrópole e se conhecendo. Afinal, poucos cineastas são tão competentes na encenação do flerte, na captura daquela eletricidade que surge entre duas pessoas quando elas se percebem interessadas uma na outra.

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