Collective

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Filme-denúncia entre a ingenuidade e a desonestidade

Wallace Andrioli - 20 de abril de 2021

O ponto de partida de Collective é bastante familiar ao público brasileiro: o trágico incêndio de uma casa de shows em Bucareste, na Romênia, que vitimou dezenas de jovens, episódio semelhante ao da boate Kiss. Apesar de logo no início o diretor Alexander Nanau trazer algumas imagens devastadoras do ocorrido, seu filme não é exatamente sobre isso. Collective logo parte para acompanhar as investigações, capitaneadas por um jornal esportivo, sobre os motivos de vários sobreviventes do incêndio estarem morrendo nos hospitais e a decorrente descoberta do estado catastrófico da saúde pública romena.

Há um forte apelo na denúncia realizada pelos jornalistas e reiterada por Nanau, mas o documentário tem um problema formal que reverbera terrivelmente em seu conteúdo político. O diretor optou por fazer de Collective uma espécie de thriller, posicionando sua câmera em espaços como a redação do Gazette Sporturilor e o gabinete do novo ministro da saúde e acompanhando, em tempo real, o desenrolar dos acontecimentos. O objetivo parece ter sido criar um Spotlight (2016) sem atores profissionais, em que a realidade do mundo, capturada por Nanau, basta para criar uma narrativa investigativa eletrizante.

A ingenuidade dessa proposta muito rapidamente se transforma em desonestidade. Collective jamais revela o procedimento interativo da câmera com os personagens. As ações desses últimos são tratadas pelo filme como absolutamente naturais, como se o equipamento de filmagem fosse invisível e os jornalistas e o ministro simplesmente agissem diante dele sem qualquer filtro. Isso se torna um grande problema sobretudo no caso do jovem político, já que municia um olhar maniqueísta para questões que são, certamente, complexas. O ministro da saúde Vlad Voiculescu surge em cena como um bastião de honestidade e boa vontade perante um sistema corrupto, encarnado sobretudo no Partido Social-Democrata, que governava o país no momento do incêndio na boate que intitula o filme e volta ao poder no epílogo.

Em tempos de condução criminosa da pandemia de Covid-19 pelo governo de Jair Bolsonaro, os fatos mostrados em Collective tendem a remeter, no Brasil, a esse descaso absoluto com a saúde. Mas o tratamento dado por Nanau à luta contra a corrupção no setor, sem qualquer nuance, por meio da figura de Voiculescu, não deixa de lembrar também os tempos de idealização, pela imprensa e pelo próprio audiovisual – Polícia Federal: A Lei é Para Todos (2017), O Mecanismo (2018-2019) –, da Operação Lava Jato. Não seria difícil imaginar um documentário como Collective, feito há alguns poucos anos, protagonizado por Deltan Dallagnol e Sérgio Moro.

E, enquanto isso, as vítimas do incêndio restam esquecidas quase totalmente pelo filme de Nanau. O que é uma pena, sobretudo considerando que os poucos momentos dedicados a elas, como o início e o final, são os melhores e mais fortes de Collective.

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