fbpx

Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Como “Capitã Marvel” contribui para o diálogo sobre o feminismo

Como “Capitã Marvel” contribui para o diálogo sobre o feminismo

O lançamento do filme na véspera do Dia Internacional da Mulher pode ser muito mais do que jogada de marketing

Ana Flavia Gerhardt - 8 de março de 2019
Este artigo contém spoilers sobre o filme “Capitã Marvel”.

Uma vez, anos atrás, uma amiga me disse que pessoas inteligentes fazem coisas inteligentes. Essa frase aparentemente simples tem me acompanhado e me ajudado em diversas situações, principalmente aquelas em que preciso escolher formas de ação diante de problemas, questões e oportunidades. No mínimo, me faz pensar: como agir inteligentemente em momentos em que minha atuação pode ser importante? Penso que essa questão cabe bem para quem participou da realização de “Capitã Marvel”.

O filme obviamente foi feito para ocupar um intervalo entre os dois últimos filmes que compõem a saga Vingadores, cuja obra mais recente se encerra com a derrocada do universo sob o poder de Thanos, e com o anúncio de que uma heroína virá para ajudar quem sobrou entre os derrotados. Era preciso, então, apresentar ao mundo quem é essa heroína, sob pena de prejudicar o andamento narrativo da saga. E apresentar logo, já que “Vingadores: ultimato” será lançado dia 26 de abril.

Mas sabemos dos instintos comerciais dos produtores de blockbusters, que certamente devem ter pensado em conferir um ar feminista ao contexto de lançamento de “Capitã Marvel”, e assim sua condição de preenchimento de lacuna narrativa não ficaria tão evidente. O período que cerca o Dia Internacional da Mulher é perfeito para o lançamento do filme principalmente no Brasil, que passa por tantos problemas relacionados a um governo de ultradireita que se recusa a compreender a luta feminista e ameaça todos os dias diminuir nossos direitos.

O Cinema está aprendendo a lidar com mulheres poderosas.

Então, já que o lançamento brasileiro de “Capitã Marvel” em 7 de março pode ter acontecido por estratégia comercial, por que não sermos inteligentes e transformar esse evento numa forma de mostrar como o filme pode compor os diálogos sobre o Dia Internacional da Mulher? Motivo é o que não falta, porque o filme traz contribuições importantes para a mudança, e para melhor, dos filmes que tratam de questões caras ao feminismo no Cinema em geral, e não apenas no Cinema de blockbusters.

Filmes inteligentes são feitos por gente inteligente

Não consigo evitar o pensamento de que os diretores Anna Boden e Ryan Fleck também pensaram em ser inteligentes quando lhes caiu a oportunidade de dirigir um blockbuster para preencher a narrativa entre os dois gigantes Vingadores. Ora, é claro que se trata de duas pessoas inteligentes, mas digo, no caso de “Capitã Marvel”, que a questão aqui é a de agir com inteligência para transformar um filme genérico num filme inesquecível. E foi o que fizeram.

Este artigo salienta três importantes feitos de Boden e Fleck, que também compõem a equipe de roteiristas. Tais feitos não apenas ampliam as possibilidades de construção de personagens femininos no Cinema, como também tornam piores ainda quaisquer outros filmes que, no futuro, assumam caminhos narrativos machistas para tratar de suas personagens femininas. Porque a partir de agora haverá sempre a possibilidade de comparar, nesse pormenor, todos os outros filmes com “Capitã Marvel”, e é no mínimo gratificante pensar que alguns futuros realizadores se sentirão desafiados a fazer coisa melhor.

O primeiro feito tem a ver com uma questão que eu já havia salientado, em artigo sobre Jessica Jones, sobre as heroínas Marvel: a dificuldade de muitas personagens com superpoderes em lidar com a própria potência, e a necessidade de ser fraca para se tornar eticamente boa. Jessica Jones e sua mãe são exemplos que se juntam a Jean Grey, talvez a personagem feminina mais trágica do universo Marvel, porque carrega um duplo infortúnio: associa seus poderes às forças do Mal por, entre outras razões, não se adaptar emocionalmente à disciplina dos X-Men. Vampira é outra heroína que sofre com os poderes de mutante, e até a vilã Mística passa por momentos difíceis em função de suas capacidades miméticas. O fato é que o número de mulheres superpoderosas em crise existencial é bem maior que o de homens, que parecem estar bem satisfeitos com suas superqualidades.

A vida sexual das pessoas em “Capitã Marvel” não é importante. E isso é muito bom.

Carol Danvers não parece em momento algum sentir dificuldade em lidar com suas imensas capacidades. Não apenas se sente muito bem como heroína, como manifestou enorme prazer em se descobrir ainda mais poderosa do que pensava, e aprendeu rápido a usar as habilidades para interceder sobre a realidade.  Ou seja, ela usa os poderes e, responsavelmente, usa também a autoridade que assume por causa deles para, como ela mesma diz, “acabar com a guerra”. “Não tenho que provar nada a você”, ela diz a seu antigo mentor; essa fala, dita pela maravilhosa Brie Larson, enuncia uma verdade que faz parte da vida de muitas mulheres que simplesmente são poderosas e vivem um cotidiano em que continuamente realizam ações capazes de transformar o mundo e a si mesmas, lutando para não mais ter de pagar nenhum preço por isso – se não elas, pelo menos as gerações que virão.

O segundo feito tem a ver com a ausência de interesse amoroso na trajetória da heroína. Muito embora haja a impressão de que, na Terra, ela constituiu família com uma companheira, também é de importância menor se ela é heterossexual ou lésbica. Não há homens a guiar seus caminhos; o pseudo-mentor serviu apenas para controlar seus poderes, e não para ensinar-lhe algo relevante. Capitã Marvel é uma heroína que se fez sozinha e já trazia prontas, no início de sua trajetória, todas as qualidades que a tornam uma personagem especial. Seu filme de origem escapou dos clichês do gênero ao não incluir qualquer processo de amadurecimento, mas sim de conhecimento da própria história. Quem pode minimamente ocupar um espaço de orientador em sua vida é outra mulher, a Mar-Vell de Annette Benning, mesmo assim em posição periférica no seu arco narrativo.

Mulheres no comando é algo natural.

O terceiro feito diz respeito ao fato de que há no filme mais de uma mulher em posição de comando, sem que haja personagens masculinos incomodados com isso. Quando a Capitã (ainda como Vers) se encontra com Nick Fury, ele não questiona a posição de comando estratégico que ela assume – ele reconhece sua precedência absoluta inclusive ao convocá-la posteriormente para resolver o super-imbróglio Thanos. Mar-vell é uma mulher em lugar de liderança em seu planeta, e isso também é aceito sem problemas. Esses fatos parecem coisas corriqueiras, mas, se compararmos com quase todos os outros filmes em que mulheres são invariavelmente subalternas, a conquista representada na presença de duas personagens femininas em posições de liderança inconteste é um ganho a ser mencionado por muito tempo.

O que torna um filme feminista?

Em diálogos sobre Cinema, costumo colocar que a definição de um filme como sendo machista, racista, ou feminista, ou engajado, diz respeito a muito mais do que personagens fazendo coisas racistas, machistas, engajadas, empoderadas etc. Essa definição está relacionada aos tipos de inserção e ação de personagens focais em relação a figuras que por toda a História do mundo têm se mantido nos lugares de poder. Nem sempre é fácil definir um filme como racista, machista ou engajado, mas critérios precisam ser estabelecidos.

Tenho colocado a necessidade de observar filmes que são estruturalmente racistas e machistas, mesmo com personagens engajados, a partir das relações e atitudes entre os personagens que representam grupos historicamente oprimidos, de um lado, e historicamente opressores, de outro. Penso que esse critério serve para definirmos “Capitã Marvel” como um filme extremamente engajado na causa feminista, por realizar os feitos que abordei acima, dentre muitos outros mais que não sou capaz de enxergar agora mas outros articulistas certamente explicitarão.

É chegada a hora de nosso poder deixar de assustar os homens.

Mas, mais que engajado, é um filme inteligente, porque seu resultado como obra artística é um documento que prova ser possível, mesmo com um material oriundo de histórias fictícias de super-heróis, agregar, com grande conhecimento de causa, temas contemporâneos que ampliam os horizontes de ideias dos que discutem a presença da mulher no cinema, e também dos que assistem aos filmes – estes, espero que logo perceberão que “Capitã Marvel” é um filme tematicamente diferenciado.

Mas, mais que um filme inteligente, é um filme respeitoso com as mulheres, e não vou me espantar se um dia souber que o resultado final que vemos na tela é fruto de grande diálogo entre criadores, roteiristas e diretores – todos, homens e mulheres, em pé de igualdade em termos de lugar de fala. “Capitã Marvel” elevou o nível da discussão. Não quereremos nada menos que isso.

Topo ▲