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Corra!: o terror do racismo absoluto

Corra!: o terror do racismo absoluto

Ana Flavia Gerhardt - 11 de dezembro de 2017

Este artigo traz spoilers sobre o filme Corra!

Um navio cruza as águas do Atlântico, em alguma noite de algum dia de algum ano do século dezoito ou dezenove. Em seu porão, dezenas de homens se amontoam, acorrentados, perplexos e aterrorizados sem saber o que os conduziu até ali e o que o futuro lhes reservará. Um deles reza para o deus Anansi, lamentando não ter oferendas, mas  mesmo assim suplicando para ser poupado daquele horror.

De súbito, Anansi aparece, negro como eles, mas vestido como alguém do nosso presente, e logo se vê por quê: como um oráculo, ele veio para dizer a sorte daqueles homens e o que lhes ocorrerá quando pisarem o solo novamente. Tudo lhes será tirado, as liberdades, a dignidade, o respeito, a hereditariedade; sua vida pode terminar sob o capricho de qualquer pequena autoridade; homens enriquecerão sobre suas costas e seu suor, e dessa riqueza eles nada usufruirão. Serão encarcerados, torturados, assassinados, por séculos.

Mas, diz Anansi, há uma chance de escapar a destino tão repugnante: basta tomarem a chave que ele lhes entrega, abrirem os cadeados que os prendem, matarem seus algozes e atearem fogo ao navio, até que nada mais dele reste sobre as águas do grande oceano. Um dos homens apinhados argumenta que essa ação lhes traria também a morte. Diante dessa frase, Anansi responde: “You are already dead, asshole”.

Não, esta não é uma das cenas de Corra!, de Jordan Peele. É a primeira cena do segundo episódio da série American Gods, que teve sua primeira temporada completa resenhada aqui  no Plano Aberto. Essa cena é maravilhosa porque dimensiona na medida exata o que é, em última instância, o racismo: a pessoa racista é aquela que não atribui a determinados tipos de pessoas o mesmo estatuto de vida que atribui para os de sua raça. Malgrado todas as filosofias e religiões que pregam igualdade para todos, a realidade que temos construído é a que é filigranamente descrita por Judith Butler em seu livro Quadros de guerra: há pessoas que valem mais que as outras, há pessoas que merecem viver mais do que outras, e os parâmetros para essas diferenças de valor variam quanto à época, à sociedade, às condições de sobrevivência etc.

Mas o certo é que a nossa pretensa igualdade não passa de uma esperança para o futuro, e é bem provável que no futuro permanecerá, porque nos falta a mínima condição ética e maturidade para aceitarmos como, na verdade, somos tribais e assassinos, apavorados diante do desconhecido e do diferente, e sedentos de vingança contra os que não são iguais a nós. Exatamente por isso, sentimos que os diferentes nos roubam a paz, a honra, o espaço, a comida, o dinheiro, o trabalho, o oxigênio, apenas por existirem.

Somos racistas porque precisamos ser mais iguais do que os iguais

Não é por outra razão que, sem qualquer aporte comprobatório da sua veracidade, inventamos times de futebol, países, raças, gêneros, religiões, partidos políticos e tudo o mais que nos agrupa mediante alguma semelhança, e com uma finalidade imbecil: para nos vangloriarmos de sermos melhores por pertencermos a um grupo, o povo escolhido por Deus, e relegarmos todos aqueles que não são nós à condição de indigência. Apenas porque eles não são nós. A tribalidade é uma coisa tão inerente a nós que somos capazes de, dentro do nosso próprio grupo, começarmos a imaginar que alguns de nós são menos nós do que nós, e esse pensamento é suficiente para as rupturas, rompimentos, discórdias e dissidências. E isso nunca tem fim.

Como tudo, conceitos como gênero e raça, que antes eram tidos como de base biológica, não são mais aceitos dessa forma por um número cada vez maior de pessoas. É cada vez mais forte a ideia de que um pênis ou uma vagina não tornam uma pessoa um homem ou uma mulher. Analogamente, a cor da pele também é um mero detalhe na construção situada e social da raça: me ressoa na memória até hoje a voz de uma aluna querida afirmando que, no Brasil, ela era branca, mas, nos Estados Unidos, era latina. Porém, se tudo é inventado, não se pode dizer que por isso não é real. Acho que não há nada mais real do que aquilo que é inventado.

Todas as sociedades são machistas e racistas. As que se afirmam como não sendo, ou são ridiculamente hipócritas, ou ainda não se descobriram como realmente são, porque ainda não vivenciaram a presença do diferente. Embora seja muito difícil a uma sociedade negar o próprio machismo, é muito fácil não ser racista morando num lugar em que todo mundo é branco.

Filmes sobre racismo são filmes de terror

Eu estou falando essas coisas todas porque Corra! é um filme sobre racismo. E, como todos, é um filme muito necessário – aliás, todos os filmes sobre racismo serão necessários, mesmo os ruins, o que não é absolutamente o caso de Corra!.

Sobre Corra!, penso ser importante pontuar que se trata de um filme sobre racismo, porque muitos que a ele assistiram acham que é um filme de terror, ou que é um filme sobre racismo que passa a ser um filme de terror, mas a meu ver é um filme de racismo que, ao se transformar num filme de terror, se torna mais ainda um filme sobre racismo. Ou, numa perspectiva ainda mais fidedigna, é um filme ao mesmo tempo sobre racismo e sobre terror, porque não há nada mais absolutamente aterrorizante do que o racismo (e o machismo, preciso pontuar), e Corra! vai às últimas consequências do racismo como a forma absoluta do terror, evidenciando a que ponto de violência pode chegar quem considera que tanto faz que determinadas pessoas estejam vivas ou mortas – porque, assim como os encarcerados do porão do navio, para eles elas já estão mortas.

As qualidades de Corra!, que, em minha opinião, o transformam num filme visceral sobre o racismo absoluto, dizem respeito não apenas ao tema, que entrelaça numa malha fina o racismo como um elemento produtor do terror na sua mais pura forma, que é o terror da violência praticada por um ser humano sobre outro ser humano. Dizem respeito à construção do roteiro e da narrativa, que foram capazes de me fazer compreender com clareza a articulação entre racismo e terror, onde uma coisa afirma a outra, a todo tempo.

A aparente paz muitas vezes esconde o terror total.

Racismo e terror vão entrando um no outro ao longo do filme, a ponto tal que, no momento do plot twist, o que se tem é um reenquadre que nada mais faz do que evidenciar e confirmar a construção cognitiva que vimos fazendo ao longo da narrativa, que é a de um filme sobre racismo, para um filme sobre o racismo como a mais pavorosa motivação para uma ação humana. Corra! é um filme sobre o terror que pode advir quando alguém não vale nada para uma pessoa, portanto a ela pouco importa que esse alguém esteja vivo ou morto. É um filme sobre até que ponto pode chegar o racismo, depois da escravidão, dos campos de extermínio, das diásporas, dos refugiados, dos muitos e muitos genocídios que envergonham a história das sociedades. É um filme que mostra que ainda se pode fazer pior do que tudo isso que já fomos capazes de fazer aos nossos semelhantes, por não sermos capazes de vê-los assim.

Eu de fato achei a pseudo-virada narrativa de Corra! a coisa mais interessante do filme em termos de gramática de Cinema, de Cinema como textualidade, se é que posso nomear assim: gostei muito da forma como significados são reenquadrados para tão-somente serem reafirmados em intensidade ainda maior: durante a recepção aos ricaços, os comentários racistas que os convidados faziam ao jovem namorado (Daniel Kaluuya) não eram de ordem discriminatória, mas sim de avaliação da mercadoria que eles iriam mais tarde disputar entre si. Ou seja, não era um racismo, digamos, discursivo, normativo; era uma coisificação absoluta.

Transformando a combinação em Cinema

Em conversas com amigos, alguns se ressentiram de algumas fragilidades no roteiro, sobretudo na falta de desenvolvimento de alguns personagens. Mas me pergunto se esse pouco desenvolvimento não foi proposital, já que o que mais se pudesse mostrar deles desmontaria a opção por mostrar todo o cenário horrendo apenas ao fim do filme. Assim, Jordan Peele escolheu revelar as verdades devagar, num ritmo que foi se acelerando à medida que também se acelerava nosso coração e se aquecia nosso sangue diante de novas revelações.

Outro detalhe discutido pelos meus amigos foi sobre um certo alívio cômico que não funcionou. Concordo com eles, mas não penso que isso compromete a qualidade e importância geral do filme. De todo modo, o que se mostra é tão pesado, e é pesado sempre, porque logo de início se vê claramente que há algo errado na bela casa em frente ao lago. Confesso que, num dado momento, eu tive de ir tomar uma água, porque já estava ficando pesado demais. Um alívio de alguns instantes era necessário, para evitar uma debandada geral do cinema. Mas… talvez de outro modo.

As atuações contidas de Corra! acentuam o terror que o filme provoca.

Completando a estrutura, junto com o roteiro e o alívio cômico, que sustenta o racismo-terror de Corra!, o elenco está um primor mesmo. Como até num dado momento as coisas fluem num registro contido, é preciso observar as reais intenções entremeadas nas sutilezas, e as atuações se comprometem completamente com essa tarefa, em especial as mulheres, e todas têm seu momento de brilho intenso: Georgina, a empregada da casa (Betty Gabriel), ganha um enquadre só dela, para denunciar a dualidade em que vive aprisionada, e o faz com a total empatia de nós espectadores; Rose, a filha e namorada (Allison Williams), me encantou por, no primeiro e segundo atos do filme, flanar sobre toda aquela tensão toda com leveza e sem chamar atenção pra si, e permaneceu nessa linha básica de atuação, num tom preciso e constante, sem exageros, mesmo após o pseudo plot twist e sua condução ao centro do clímax.

Mas o filme está na mão de Catherine Keener, que estamos acostumados a ver em comédias leves, e se relevou uma artista com muitos recursos e poderes, já que ela é que foi a responsável por capitanear o despertar e a intensificação da trama, e o faz de forma muito ousada, porque opta por uma atuação sem subir o tom, sem se alterar, mantendo a serenidade na expressão, mas ainda assim deixando a gente num estado de tensão crescente a cada vez que aparecia em cena, já que sua personagem deu a entender desde o início que era capaz de coisas do arco da velha. Uma beleza mesmo ver uma atriz sair de sua zona de conforto e dar conta de sua tarefa com tanta crença, entrega e competência.

Quanto menos clichês, mais terror

Acho interessante salientar a importância das interpretações sem exageros para a construção temática do filme. Todos eram muito civilizados, educados. De longe, de forma alguma se poderia pensar que se tratava de monstros assassinos. E obviamente nenhum deles se via assim, porque para eles aquilo que eles matavam não era ninguém (o que por exemplo justificava o fato de tomarem para si corpos negros, já que, para eles, ninguém daria por falta de criaturas tão insignificantes, portanto eles jamais chamariam atenção), então não havia motivo para problemas de consciência, nem para paralisar um processo que se desenvolvia tão bem.

Talvez a maior lição que Corra! nos ensina é a de que devemos saber diferenciar forma e conteúdo.

Essa articulação de coisas, da educação e gentileza com o racismo absoluto, a meu ver se presta a duas leituras: uma diz respeito à naturalização total da crença de que há pessoas que não valem nada, algo que está completamente integrado em sociedades como a brasileira, por exemplo, que não se levanta indignada contra o genocídio de meninos, meninas, homens e mulheres pobres e negros nas periferias das grandes cidades, e de índios em suas comunidades.

A outra diz respeito à postulação Arendteana de que o mal é uma prática que pode ser perpetrada por qualquer pessoa, inclusive aquela de quem nada se desconfia, e inclusive aquela que sequer imagina quanto mal está fazendo. Nesse pormenor, Corra! se alinha a inúmeros filmes que denunciam a falácia das aparências, quase todos sendo filmes de terror: quando não um terror de quase nos matar de medo, um terror de nos mostrar como realmente somos, e dos horrores que somos capazes de impor aos nossos semelhantes. E, nesse sentido, o maior mérito de Corra! é ser, ao mesmo tempo, essas duas coisas. E isso o torna um filme singular e importante.

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