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3% – 1ª temporada

3% – 1ª temporada

Gustavo Pereira - 28 de novembro de 2016

Mais do que a primeira série brasileira produzida pela Netflix, 3% é a prova de que um roteiro inteligente pode compensar deficiências de orçamento e elenco. Bebendo de fontes clássicas da ficção científica, sociologia, filosofia e cultura pop, o resultado é sólido e convincente, deixando bases para uma nova temporada e o desenvolvimento de uma mitologia própria.

A série tentava ver a luz do dia desde 2011, quando um episódio piloto foi produzido para buscar financiadores. A premissa é simples: “o mundo dividido em dois lados, um farto e um escasso. Entre eles, um processo de seleção”. Este processo admite jovens de 20 anos para uma única tentativa de passar para Maralto, o “lado de lá”, farto. As regras são arbitrárias e a qualquer momento as pessoas podem ser eliminadas. Não há segundas chances ou misericórdia, a única certeza quando se entra é de que apenas 3% restarão ao final.

Este é o primeiro acerto do criador Pedro Aguilera: estabelecer um paralelo entre o Processo de 3% e os processos seletivos de multinacionais. Inclusive a primeira prova, dos cubos, é tão sem propósito quanto as dinâmicas de grupo pelas quais candidatos a vagas de emprego precisam passar. Já antes disso, nas entrevistas preliminares, o único objetivo dos membros do Processo é desestabilizar os candidatos e destruir sua confiança e seu amor-próprio.

O coordenador do Processo, Ezequiel (João Miguel), cujo nome significa convenientemente “o poder de Deus”, simultaneamente coloca os candidatos no limite da sanidade e incute em suas mentes o dogma meritocrático “você é o criador do seu próprio mérito”. Independente da desumanidade do Processo, os candidatos teriam as mesmas chances de passar, pois vieram do mesmo lugar. O que Ezequiel e o Maralto ignoram é que a própria arbitrariedade do Processo cria injustiça na seleção: ele não é sobre quem é mais preparado, mas quem possui menos amarras morais para alcançar o objetivo.

O núcleo principal de candidatos é composto por Michele, Fernando, Rafael, Joana e Marco. Cada um tem um motivo para estar no Processo, e é admirável que em oito episódios o desenvolvimento de cada um tenha sido tão satisfatório. Michele (Bianca Comparato) nos apresenta a Causa, movimento com clara inspiração no Socialismo que questiona a justiça em uma sociedade que conscientemente condena 97% da população à miséria e ao caos para manter os privilégios dos outros 3% abastados. Apesar de interessante, este é um ponto fraco da série: a Causa não é muito explorada. Michele deve passar no Processo para “fazer a diferença”, mas não sabemos como. Sabotando Maralto? Incutindo noções de igualdade no “lado de lá”? Incitando uma revolução? Essas são questões que ficarão para a próxima temporada.

Fernando (Michel Gomes) é um cadeirante que busca passar no Processo para provar a si próprio que sua deficiência não o limita. Criado por um pai pastor, ele é aquele que vê o Processo (e o Capitalismo em si) como uma religião, uma Terra Prometida para a qual apenas os merecedores irão. O único caminho de redenção possível.

Marx chamaria isso de “fetichismo da mercadoria”.

Rafael (Rodolfo Valente) se mostra desde o início capaz de tudo para seguir no Processo, sem fazer julgamentos morais sobre a justiça do sistema, apenas aceitando que a vida é daquela forma e ele não está disposto a viver no inferno do lado pobre. Seu desenvolvimento durante a temporada, contudo, mostra que ele também carrega o desejo de ser mais do que apenas outro filho numa família cheia de irmãos. Ele quer “fazer diferente”.

Joana (Vaneza Oliveira), talvez a personagem mais complexa da série, viu o lado ainda pior da pobreza do “lado de cá”. Ela chega no Processo e, no decorrer das etapas, descobre sua descrença não apenas com o sistema como com a letargia de quem fica no lado pobre e não se ergue contra o lado rico. É ela quem despertará para o “chamado à ação” descrito por Joseph Campbell.

Já Marco (Rafael Lozano) vem de uma família famosa por todos os membros conseguirem passar no Processo e prova que, mesmo em uma sociedade extremamente pobre, existem aqueles que são privilegiados e não se sentem incomodados com esta vantagem competitiva na hora de uma disputa que deveria ser igualitária.

Este Processo se passa em meio a uma crise administrativa. O Maralto testemunhou seu primeiro homicídio e Matheus (Sérgio Mamberti), não por acaso outro nome bíblico, este significando “o presente de Deus”, questiona se os métodos de Ezequiel não são muito rigorosos e defende que os Processos sejam mais leves e inclusivos. Para isso, ele envia Aline (Viviane Porto) para avaliar Ezequiel de perto e descobrir algo que possa tirá-lo da coordenação do Processo. Eventualmente, ela descobrirá.

3% se divide em dois arcos, com um episódio-flashback separando os dois e, ao mesmo tempo, contando a história de Ezequiel e como ele se tornou tão descrente e brutal. Sua esposa Julia, interpretada brilhantemente por Mel Fronckowiak (com quem eu tinha grandes reservas, admito), tem o conflito interno mais dramático de todos os personagens e seu destino muda Ezequiel, que ano a ano de Processo vai se tornando menos humano, assim como os candidatos que passam por ele e, tão doutrinados pelo status quo, são cães de guarda do interesse alheio, aprovam o Processo e condenam a Causa.

O roteiro não perde oportunidades. Ao estabelecer uma possibilidade, ele a explora. Não são poucos os momentos “oooh” nos oito episódios. Meu favorito é o quarto, uma representação grotesca de O Senhor das Moscas, livro de William Golding.

Negativamente, Direção de Arte, Figurino e Maquiagem pecam na inconsistência para criar pobres: um cabelo frisado, um pouco de sujeira no rosto e uma roupa artisticamente rasgada. Mesmo mal de The 100, onde todos os miseráveis são bonitos e atraentes. Algumas soluções de Cenografia também são manjadas, como a concepção asséptica do local onde o Processo é realizado, para contrastar com a pobreza suja das favelas do “lado de cá”. Os atores do elenco de apoio são fracos, principalmente quando comparados aos protagonistas, que estão muito bem. As cenas com a participação deles são realmente risíveis pela pobreza de interpretação. O uso de atores pesados como Mamberti e Zezé Motta foi desperdiçada pelo pouco tempo (e espaço) de tela.

Isso não são pobres, são ricos sujos

Isso não são pobres, são ricos sujos

E isso não é uma surra, é uma groselha

E isso não é uma surra, é uma groselha

ISSO JÁ ESTÁ MAIS PERTO DE UMA SURRA

ISSO JÁ ESTÁ MAIS PERTO DE UMA SURRA

Apesar do final enfraquecer a oposição entre Processo e Causa, 3% cumpre seu papel em oferecer uma trama inteligente e ousada. A Direção não aparece muito, mas tem seus momentos de brilho usando enquadramentos com personagens refletindo em portas de vidro, espelhos etc. para se sobrepor aos seus interlocutores, embaralhando a perspectiva de quem está no controle. Seu grande mérito está no Argumento. Poderia virar uma versão de baixo orçamento para Jogos Vorazes, mas consegue ter assinatura.

A solidão opressiva de Fernando, um dos quadros mais bonitos da temporada

A solidão opressiva de Fernando, um dos quadros mais bonitos da temporada

Cássia (Luciana Paes) não está falando com Joana, mas consigo mesma...

Cássia (Luciana Paes) não está falando com Joana, mas consigo mesma…

... enquanto Joana se vê onde Cássia está e precisa decidir se é isso que quer. Esta é uma das sequências mais ricas no quesito Direção

… enquanto Joana se vê onde Cássia está e precisa decidir se é isso que quer. Esta é uma das sequências mais ricas no quesito Direção

A segunda temporada definirá se 3% veio para ficar, mas não deve em nada para produções do gênero mundo afora. O que, considerando as baixas expectativas por aqui, já é digno de elogios. Tire suas próprias conclusões assistindo agora mesmo.

 

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