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Black Mirror 3×02 – Versão de Testes

Black Mirror 3×02 – Versão de Testes

Matheus Fiore - 22 de outubro de 2016

Este episódio acompanha Cooper (Wyatt Russell), um americano aventureiro que encontra na Inglaterra o  ponto final de sua viagem antes de voltar para casa. Usando um aplicativo de encontros semelhante ao Tinder, conhece a inglesa Sonja (Hannah John-Kamen) e, após um encontro, tornam-se amigos.

No seu último dia na Europa, Cooper encontra dificuldades  em sacar dinheiro no banco  e não consegue comprar as passagens para casa. Ele então busca, por um aplicativo, um curto emprego que possa providenciar o dinheiro necessário para comprar a passagem, e com ajuda de Sonja encontra uma vaga para testar uma nova tecnologia de uma empresa de video-games conceituada.

Cooper passa por pequenos e “reversíveis” procedimentos cirúrgicos para poder testar a nova tecnologia e, eventualmente, encontra-se perdido num pesadelo de realidade aumentada. Não há, porém, qualquer metáfora de valor perceptível na narrativa de Versão de Testes. O episódio gira em torno do protagonista tentando compreender o funcionamento do programa  e, posteriormente, tentando sair dele.

Em certo momento, a presença de figuras do passado do personagem (que foram muito bem inseridas no desenvolvimento do mesmo no começo do capítulo) sugere que vemos um personagem trancafiado no inconsciente da sua mente. O roteiro, porém, peca ao deixar várias pontas a serem desenvolvidas e não aprofundar-se em nenhuma.

A ideia do episódio é brincar com os efeitos das recém desenvolvidas tecnologias de realidade aumentada. A partir do momento que você experiencia certas situações com tamanha intensidade, o quão “irreais” elas realmente são? Não há, porém, qualquer conexão clara com alguma crítica social, que sempre é o foco das tramas da série.

Há de se destacar o personagem principal, Cooper. Apesar da excelente atuação de Wyatt Russell, que competentemente constrói um protagonista ora seguro e articulado, ora travado e destruído mentalmente, é muito prejudicado pelo roteiro. O excesso de piadas e diálogos expositivos torna óbvios não só as conclusões de vários momentos chave do episódio como constrói um protagonista irritantemente falador.

O destaque do capítulo acaba sendo a edição e a montagem, que precisamente brincam com o tempo de algumas cenas e deixam em aberto o que realmente aconteceu e o que não passa de devaneios do protagonista.

No fim das contas, Versão de Testes acaba fazendo um interessante questionamento sobre como a humanidade, no século XXI, cria máquinas tão fortes que acabam superando o potencial do cérebro humano, que pode não ser capaz de conceber e acompanhar tão rápida evolução.  Sobrando espaço ainda para mostrar como  as empresas estão alheias à isso, pensando apenas em criar a experiência mais imersiva possível sem considerar as consequências.

O resultado, porém, é um desserviço à própria série. Inúmeras vezes Black Mirror é referenciada como uma crítica à relação do ser humano com a tecnologia nos tempos modernos. Na verdade, antes de Versão de Testes, a série nunca buscou tal crítica, apenas usou a tecnologia como roupagem para criticar nós, humanos. Aqui, o programa parece ter aberto mão das questões existenciais para aderir à um conteúdo mais “acessível” e simplista.

Não é um mau episódio, mas ao fugir totalmente da proposta da série até então, não traz nenhum questionamento novo e muito menos desenvolve os que apenas aborda superficialmente. Talvez seja, junto de The Waldo Moment, o mais fraco capítulo de Black Mirror.

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