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Deuses Americanos 2×01 – A Casa na Pedra

Deuses Americanos 2×01 – A Casa na Pedra

Sem trocadilhos, um episódio meio morto

Gustavo Pereira - 11 de março de 2019

Para quem acompanhou as notícias relacionadas à produção de “Deuses Americanos” desde o fim da primeira temporada, em 2017, o lançamento desta segunda é quase um milagre (mais uma vez, sem trocadilhos). Após a demissão dos showrunners Bryan Fuller e Michael Green e do pedido de demissão de Gillian Anderson (que você agora pode ver na excelente “Sex Education“), a série inspirada no best-seller de Neil Gaiman também perdeu o compositor Brian Reitzell e Darran Tiernan, um de seus principais diretores de fotografia. No melhor espírito “sou capitão deste navio e, se ele afundar, eu afundo junto”, Gaiman tomou pra si a responsabilidade de juntar os cacos e, junto com Jesse Alexander, co-escreveu pessoalmente o roteiro de “A Casa na Pedra”, retomada da série. Mas não é preciso ter um olhar atento para notar que as coisas mudaram pra pior.

Deuses Americanos American Gods A Casa na Pedra The House on the Rock Neil Gaiman

“Deuses Americanos”, o livro, é uma história muito mais intimista do que a premissa indica. É a jornada de um homem descrente que, frente ao inexplicável, tem como única solução voltar a crer. Gaiman reforça isso afastando Shadow Moon (na série interpretado por Ricky Whittle) da ação diversas vezes, dando a ele – e ao leitor – tempo para reflexões pessoais. É compreensível que a adaptação não tome este caminho por questões de mercado, mas o preço é o enfraquecimento do personagem. Shadow é pequeno em meio a uma guerra de deuses. Ao lado deles, o protagonista vira personagem de apoio. O elo entre ficção (série) e realidade (público) se enfraquece.

Deuses Americanos American Gods A Casa na Pedra The House on the Rock Neil Gaiman

Isso cai, inevitavelmente, na responsabilidade do próprio Neil Gaiman, que em “A Casa na Pedra” comete o mesmo erro de roteiro de “Creed II“: um protagonista que não evolui com experiências passadas para a conveniência da trama. Após finalmente acreditar em Odin (Ian McShane) no fim da primeira temporada, como começar a segunda novamente questionando se o que está vendo é real? Shadow não precisa mais ser “o olhar encantado do espectador”, pois o espectador já não está mais encantado.

Deuses Americanos American Gods A Casa na Pedra The House on the Rock Neil Gaiman

E isso, em parte, pela forma como este episódio de “Deuses Americanos” foi fotografado. As paletas ricas, vibrantes e contrastantes deram lugar a composições muito mais “chapadas”: quadros monocromáticos de dourado, azul, marrom etc. ocultam elementos cênicos que antes ajudavam a fascinar o público. A reboque, uma iluminação muito escura (diferente do chiaroscuro, onde luz e sombra contrastam e dão volume, o trabalho de Tico Poulakakis esconde os belos cenários criados pelo designer de produção Rory Cheyne).

Deuses Americanos American Gods A Casa na Pedra The House on the Rock Neil Gaiman

Algo interessante na fotografia da primeira temporada mantido nesta foi o uso de planos-detalhe para sequências aparentemente banais (o mesmo processo é usado também em ocasiões como uma jogada de golfe e o limpar de uma latrina), algo que indiretamente sacraliza os rituais, dando a eles um caráter solene em que cada mínimo elemento desempenha um papel importante no resultado final

Uma oportunidade interessante de dinâmica entre Moon, Odin, Sweeney (Pablo Schreiber) e Laura (Emily Browning) é apresentada e imediatamente descartada, privando a série de uma ferramenta poderosa tanto para desenvolver personagens quanto para criar alívios cômicos. A ausência de Gillian Anderson criou um protótipo de MacGuffin que pode ou não se sustentar no restante da temporada. Em linhas gerais, “A Casa na Pedra” é mais um avião taxiando do que levantando voo.

É sempre injusto criticar um episódio antes que os demais venham, pois o crítico corre o risco de, ao fim da temporada, queimar a língua por ter reclamado de algo que faz sentido no “plano maior”. Mas é difícil não achar que “Deuses Americanos” continue existindo por qualquer motivo que não a fé de Neil Gaiman.

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