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Love, Death & Robots – 1ª temporada

Love, Death & Robots – 1ª temporada

A tragédia da condição humana e nossas relações com amor e tecnologia

Matheus Fiore - 17 de março de 2019

O formato antológico permite inúmeras possibilidades para uma obra como “Love, Death & Robots”. Um dos principais exemplares do formato é “Animatrix”, uma coleção de nove curtas-metragens das irmãs Washowski que foi criada para enriquecer e aprofundar o universo da trilogia “Matrix”. Ali, os episódios são independentes narrativamente e também esteticamente, mas todos eles existem dentro de um mesmo universo, e nos mostram um pouco mais sobre o cenário da saga de Neo. Há um pouco de “Animatrix” em “Love, Death & Robots”, mas há também influências de outras antologias.

Há também exemplos mais recentes e mais próximos do caso de “Love, Death & Robots”. A bem sucedida série inglesa “Black Mirror“, por exemplo, utiliza seu formato antológico para desenvolver uma mesma ideia por meio de histórias independentes. A série de Charlie Brooker parte sempre de algum relacionamento humano com a tecnologia para falar sobre o lado obscuro do ser humano – sem nunca se prender unicamente à tecnologia. Há também a última obra dos irmãos Coen, “A Balada de Buster Scruggs“, que conta seis histórias independentes, mas as amarrando por suas temáticas: todas falam sobre existência e morte, e como esses dois elementos acabam banalizados em um mundo de acontecimentos tão efêmeros como é o do velho oeste.

No caso da série produzida por David Fincher (“Se7en”, “Clube da Luta” e “Garota Exemplar”) e Tim Miller (“Deadpool”), os dezoito episódios que variam de 5 a 15 minutos têm bastante em comum com as obras dos Coen e de Brooker. Como o título sugere, amor, morte e robôs estão sempre presentes de alguma forma. Os significados do trio de palavras, porém, é mais amplo do que uma leitura superficial pode indicar. O amor, por exemplo, é expandido até o afeto, como em “A Boa Caçada”, quando a empatia permite que dois personagens criem um relacionamento que mudará o destino de um deles. É uma série que traz sim, o amor romântico, mas quase nunca se atém somente a este, flutuando sempre por diversas formas de afeto, carinho e admiração.

Sobre a morte, em um instante falaremos sobre, mas antes é bom analisar o “robôs” de “Love, Death & Robots”. Há, sim, muitos episódios nos quais robôs protagonizam ou participam ativamente da história. Há outros, porém, nos quais eles não dão as caras, como em “Ajudinha”, Metamorfos” e “Noite de Pescaria”. O “robôs” do título parece muito mais sugerir a tecnologia – e nossa relação com ela –, já que diferentes níveis de equipamentos, sistemas, máquinas e elementos digitais e virtuais aparecem ao longo dos dezoito capítulos.

Voltamos, então, à morte. A morte em “Love, Death & Robots” é um elemento que parece acompanhar inexoravelmente todos os personagens da série. Muito além de um elemento atrelado à sanguinolência de histórias como “A Vantagem de Sonnie” e “A Guerra Secreta”, a morte, aqui, faz parte da ideia central de Fincher e Miller, que é estudar a tendência autoestrutiva da humanidade – algo que fica bem evidenciado quando a morte é utilizada como meio para a transformação no único episódio parcialmente feito em live-action: “Era do Gelo”.

Esse potencial destrutivo é aproveitado de diferentes maneiras nas histórias, algo que só é permitido pelo formato antológico, que emancipa cada capítulo de ter de seguir alguma lógica ou trama anterior. Se “Histórias Alternativas” brinca com a inevitabilidade da guerra a partir de diferentes destinos alternativos para Adolf Hitler, “Para Além da Fenda de Áquila” mostra como a morte, às vezes, não necessariamente significa o fim da vida, mas o impedimento da continuidade de uma ideia – no caso, a expedição intergalática fracassada –, ou seja: a morte de algo intangível, como um sonho ou um objetivo.

O curioso é que os episódios mais bem humorados são justamente aqueles que constatam a fragilidade e a efemeridade da condição humana, como o já citado “Era do Gelo” e o divertido “Os Três Robôs”, ao passo que os mais melancólicos são justamente os que os personagens têm noção dessa condição frágil e ínfima, como no lindíssimo “Zima Blue”, e tentam eternizar essa existência miúda pela arte. A sensação é que, na visão dos realizadores, até mesmo os sentimentos humanos são algo insignificante diante da existência de todo o universo, pois na série, olhar para o passado trágico da humanidade não evoca nenhuma tristeza ou preocupação, apenas… humor e desdém.

Outra ideia interessante trabalhada em “Love, Death & Robots” é a forma como alguns episódios evocam mitos e lendas de forma anacrônica, como o renascimento de Drácula no século XXI e a presença de lobisomens na invasão americana no Iraque. Ambos os episódios que trazem tais lendas, “Sugador de Almas” e “Metamorfos”, as narrativas flertam bastante com o terror e mostram essas lendas tratadas de forma bem diferente. O episódio do Drácula foca mais na experiência de gênero possível pela construção do cenário: uma equipe armada e um cientista invadem a tumba do vampiro e se vêem encurralados; essa experiência, porém, ainda permite comentários sobre as três palavras que guiam a série. A tecnologia permite encontrar e reviver o passado, mas o fascínio (ou amor?) pela morte acaba delineando contornos trágicos para essa aventura. No caso da trama dos lobisomens, é interessante que até em uma situação hipotética fantástica como a da existência dos seres meio-lobos, esses elementos fantasiosos não teriam outro destino se não a instrumentalização para fins bélicos – o que nos faz pensar: no caso do Drácula, qual seria seu fim caso capturado pelos humanos?

É por ter essa capacidade de tratar as três ideias que constituem seu título de forma fluida e desenvolver inúmeras narrativas a partir dela, que “Love, Death & Robots” é um belíssimo exemplar de antologia. A variação estética e a exuberância visual podem até ser os principais atrativos do projeto de David Fincher e Tim Miller, mas é na forma como os temas são sutilmente trabalhados e amarrados que a série se sobressai e mostra ter, além da ficção científica, do terror e do épico, muito a oferecer.

Para assistir à primeira temporada de “Love, Death & Robos”, série original Netflix, clique aqui.

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