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The Walking Dead – 6ª temporada

The Walking Dead – 6ª temporada

Matheus Fiore - 4 de abril de 2016

A quinta temporada de The Walking Dead teve um dos melhores finais do programa até aqui, e deixou a promessa de uma grande sexta temporada, já que nos gibis, o arco de Alexandria/Hilltop marcava o recomeço da civilização. Mesmo com o enorme potencial, a série mais uma vez decepciona, acovarda e entrega um produto irregular e enganoso.

As duas metades desta temporada são muito parecidas. Ambas começam com episódios arrebatadores, com muita linguagem de cinema, desde nuances de direção à caprichos acima do comum na fotografia e na montagem, e criam a expectativa de vermos uma temporada com a qualidade de produção de Vinyl ou Better Call Saul. Ledo engano. Já no segundo (e depois no décimo) episódio voltamos a ver a mediocridade de sempre. Um dos maiores defeitos da temporada é a tentativa de dar alguma profundidade ou tom artístico aos episódios com planos fechados em crucifixos, poças de sangue e outros elementos simbólicos dos capítulos. The Walking Dead sempre foi e sempre será um seriado “pipoca”, de entretenimento efêmero e simples, não há porque tentar levar o programa à um rumo que não o compete.

O grande problema desta temporada não é a pretensiosa direção, e sim o roteiro. Feito para enrolar no melhor estilo Teste de Fidelidade, faz péssimas opções de desenvolvimento dos personagens e escolhe os piores caminhos para evoluir a trama. Na primeira metade, entrega no terceiro episódio um dos piores cliff hangers possíveis, a aparente morte de Glenn. Um mistério forçado, desnecessário, bobo e covarde deixa o espectador à espera de respostas até o oitavo capítulo. Durante essa espera, temos o pior episódio do programa, onde Daryl encontra Dwight pela primeira vez e perde sua moto e sua besta. Talvez a única coisa que salve esta primeira metade é a curva dramática de Abraham, que até hoje só servia pra cenas de ação e aqui ganhou alguma profundidade.

Os personagens, alias, são outro problema em The Walking Dead. Nesta temporada, nem Carol salva. Depois de ter a melhor curva dramática da série, a personagem volta a agir como uma criança chorona de forma abrupta e desnecessária, forçando mais uma subtrama inútil. Rick, por sua vez, tem bem menos espaço neste ano, mas mesmo assim é bem desenvolvido com ajuda de Morgan (que finalmente ganhou uma função). Com exceção do já citado Abraham, os péssimos coadjuvantes ocupam tempo de tela demais e travam a história.

Daryl Dixon é um dos piores personagens do apocalipse zumbi. Inexplicavelmente idolatrado pelo público, o redneck não tem diálogos, não tem nenhuma curva dramática, não tem carisma, e só serve pra atirar e matar, é um plot device ambulante. Desde a quarta temporada, quando após perder o irmão Daryl agiu como se nada tivesse acontecido, Dixon não evoluiu em absolutamente nada, e passa episódios inteiros grunhindo como um animal, sem formular uma frase.

Além destes principais, Glenn, Michonne e Maggie apenas marcam presença. Estes, que tem enorme potencial, são esmagados pelo excesso de subtramas ruins e não têm muito espaço. Os únicos momentos de destaque são quando Maggie começa a exibir alguma liderança em Hilltop e Michonne mostra seu lado mais humano ao se relacionar com Rick. Escolhas interessantes e que mostram rumos diferentes do esperado para as principais personagens femininas da série.

Os demais personagens são descartáveis e em sua maioria estão fazendo hora extra. O padre Gabriel até tem um momento de destaque no meio da temporada, mas depois some. Carl (o personagem com maior potencial) é praticamente ignorado aqui.  Jesus aparece, chama atenção em um dos episódios mais bem humorados  do programa, e logo desaparece. Sobram personagens de extremo mau gosto, sem nenhuma alma ou personalidade: Eugene, Tara, Enid e Rosita chegam a causar calafrios de vergonha alheia com sua total falta de vida e inverossimilhança.

Por outro lado, os Salvadores são bem encaixados, quase sempre aparecendo de surpresa e rendem bons conflitos. Com uma direção ágil, a invasão ao depósito para resgatar um membro da colônia Hilltop é uma das melhores e mais brutais sequencias da temporada. A cena funciona bem para mostrar o lado estratégico do grupo de Rick, principalmente pela montagem dinâmica dos momentos de infiltração, que passam a impressão de que toda a operação foi concluída em pouquíssimos minutos. O conflito moral despertado em Glenn e Heath na cena foi uma boa sacada do roteiro e mostra os resquícios de civilidade dos personagens.

Outro bom episódio – que quase salva o ano – é o de Maggie e Carol presas pelo grupo de capangas de Negan. Apesar da primeira se comportar como uma cega em tiroteio, a segunda (que aqui ainda não havia sido idiotizada) mostra sua inteligência e perspicácia para resolver a situação. O capítulo é perfeito na representação da mente conturbada de Carol, que é bem representada pela direção de arte do local do cárcere, sempre sujo e com muitas sombras. Uma pena que esta nova Carol foi transformada numa personagem boba e sem sentido pouco tempo depois.

Os episódios finais focam em mais mau desenvolvimento de personagens e escolhas sem sentido. Chega a ser patético dedicar um episódio inteiro à jornada de uma coadjuvante sem carisma para mata-la no fim, antes mesmo de pensarmos em ter alguma empatia pela personagem. Além de Rick, todo o grupo de Alexandria passa a se comportar como baratas tontas. Um exemplo disso é quando Daryl, Glenn e um grupo vão em busca dos Salvadores, estando estes armados e em maior número, uma opção nitidamente burra e que só poderia resultar na captura dos “heróis”.

O Season Finale até traz boas ideias, mas peca por mais uma vez protelar e não recompensar. A tensão pré-clímax é muito bem estabelecida, principalmente pela competente trilha sonora, que funciona ao induzir apreensão. Por outro lado, as cenas de Carol perdida estraçalham o ritmo do episódio. Os quinze minutos finais são fantásticos. A apresentação do novo vilão foi a melhor cena da série até hoje. Negan é imponente, em certos momentos filmado no contra-plongée, está quase sempre sozinho no quadro, enquanto os heróis sempre dividem a tela, seja com seus colegas, ou com o próprio vilão (que sempre está maior ou acima). Esta opção passa uma forte sensação de grandeza de Negan e apequenamento de Rick e seus amigos, impotentes diante do novo inimigo. A opção de não mostrar a vítima de Lucille foi injusta com o público, que teve que assistir quase dezesseis horas de enrolação para não ter a recompensa.

The Walking Dead novamente deixa a desejar com uma temporada porcamente escrita, desonesta e presunçosa. Apesar de ter quatro ou cinco bons episódios, até estes são prejudicados pelo excesso de personagens e histórias. Resta torcer para que o eleito de Lucille não seja um personagem sem importância, e que os roteiristas sejam mais honestos com seu fiel público. Já são seis temporadas espantosamente inconstantes, a série já havia encontrado um  caminho e deveria parar de experimentar e criar subtramas desnecessárias. Se os produtores e roteiristas abraçarem a simplicidade que a história pede, a sétima temporada, por retratar um dos momentos mais empolgantes das HQs, poderá ser a melhor do programa.

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