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A Costureira de Sonhos

A Costureira de Sonhos

Filmes que seguem padrões narrativos clássicos podem mostrar evoluções de pensamento sobre as relações humanas e a sociedade

Ana Flavia Gerhardt - 27 de maio de 2019

Assistir a “A Costureira de Sonhos”, filme de 2018 da diretora indiana Rohena Gera, é recordar alguns outros filmes e livros relacionados a uma mesma narrativa, que varia em pequeníssimos detalhes: os romances que enfrentam preconceitos sociais, às vezes com finais felizes, às vezes não. O filme de Gera, que tem como protagonista a empregada doméstica e aspirante a estilista Ratna (Tillotama Shome), atualiza para o tempo contemporâneo, e para uma Índia marcada por diferenças abissais de classe, gênero e costumes, a já bem conhecida e muito filmada trama de “Jane Eyre”, romance escrito no século XIX pela inglesa Charlotte Brontë sob o pseudônimo de Currer Bell, algo comum na Inglaterra de séculos atrás.

Em “Jane Eyre”, a protagonista Jane, criada em um orfanato e treinada para serviços domésticos, vai trabalhar na propriedade do aristocrata Sr. Rochester. Ambos travam seguidos embates dialéticos acerca da injusta sociedade inglesa da época, em que as pessoas eram rigidamente categorizadas e consideradas melhores ou piores em função das posses de suas famílias e do seu lugar na tradição que circunda a realeza britânica. Eles se apaixonam, mas não conseguem se casar. Após algum tempo de separação, Jane recebe uma vultosa herança e retorna para casar-se com o amado, que ficou cego e teve a mão amputada depois de um incêndio em sua mansão.

Vale a pena notar que, embora a discussão social perpasse toda a obra de Brontë, em nenhum momento da narrativa há um verdadeiro rompimento das estruturas tão criticadas pela protagonista. Embora Jane tenha se tornado rica, de certa forma ela se mantém na sua condição original de órfã, portanto figura de baixa estirpe na ordem social britânica, já que a possibilidade de se juntar a Rochester só acontece quando ele, cego e inválido, se retira do lugar típico do macho alfa todo-poderoso. Assim, ao retornar à propriedade do futuro marido, Jane assume passar o resto da vida sendo basicamente uma cuidadora, ou seja, uma serviçal, do homem com quem se casou.

As questões de classe e gênero também ocupam o lugar temático central de “A Costureira de Sonhos”. Assim como Jane Eyre, a viúva Ratna sai da pequena vila onde nasceu e vai para Mumbai trabalhar como empregada doméstica na casa do rico Ashwin e sua futura esposa. A condição civil do casal afastaria quaisquer maledicências provincianas acerca de uma mulher e um homem não casados morando numa mesma residência. Mas o casamento não acontece, e mesmo assim Ratna permanece servindo a Ashwin, mas logo procura formas de ascensão social através do aprendizado da costura e do autodidatismo em moda e estilismo.

A viuvez de Ratna é mais uma marca da condição subalterna das mulheres na Índia. Embora não forçada a se jogar nas chamas da cremação do marido, conforme a tradição indiana do passado, Ratna ainda manda dinheiro para os sogros no interior da Índia e é obrigada a manter a castidade, sob pena de ser tratada como pária em sua aldeia. Rohena Gera não explicita a casta de que Ratna faz parte, mas parece que ela não está muito longe da casta dos intocáveis, os dalit, já que come no chão e com as mãos, é seguidamente maltratada pela família e amigos de Ashwin, e chega a ser expulsa de uma loja onde entra para observar as roupas.

O ponto de inflexão do filme não é qualquer embate entre o casal, como ocorre em “Jane Ere”, mas sim a diferença de personalidade entre Ratna e Ashwin, algo que está bem de acordo com o enquadre  micropolítico que Gera confere a seu tema. Ratna sabe perfeitamente o que deseja, e, ao chegar a Mumbai, rapidamente segue seu objetivo, mudando de estratégia ao ver que a opção que escolheu não está dando certo. O obediente Ashwin, por sua vez, é forçado a retornar de Nova York, onde era feliz e se dedicava à escrita literária, para abraçar uma profissão conveniente aos negócios do pai. Seu próprio casamento servia para agradar à família, e o rompimento só aconteceu por infidelidade de sua noiva.

O espectador acompanha com interesse o lento envolvimento entre Ratna e Ashwin, baseado na compreensão mútua e reforçado pela química intensa entre os personagens, vividos delicadamente por Shome e Gomber. Rohena Gera explora em minúcias a presença daqueles dois corpos confinados em um apartamento cujas cores fortes e escuras o tornam ainda mais apertado – sobretudo o corredor, espaço em que ambos se cruzam constantemente.

Percebe-se, ao longo do filme, o quanto a facilidade de circulação de Ratna e Ashwin dentro do apartamento vai cedendo espaço a movimentos mais estudados, decorrentes da consciência da presença um do outro à medida que a atração sexual se impõe. Os movimentos dos corpos ocupam a lacuna deixada pelas palavras não ditas, silenciadas pela timidez de ambos e pelo conflito que elas poderiam desencadear. Para a temática do filme, essa escolha bem-sucedida da diretora é importante para salientar a suspensão da diferença social entre o casal dentro daquele espaço.

A trama que abarca as questões de preconceito social numa sociedade extremamente injusta e machista como é a Índia alude ao cenário em torno do romance de Jane Eyre e o Sr. Rochester. Mas é na construção da personagem Ratna que as diferenças entre as duas histórias se marcam de forma bastante visível. Assim como Jane, Ratna também é uma pessoa agentiva, não aceita que a desqualifiquem e toma as decisões de sua vida sem temer os efeitos dos seus atos nem pedir opinião às outras pessoas.

Porém, diferentemente de Jane, que ao fim do livro acaba retornando, para todos os efeitos, ao seu lugar social de origem, Ratna se recusa a voltar à condição de aldeã, embora ainda se curve à tradição e continue a agir, ainda que de longe, segundo os preceitos em que nasceu e cresceu, mesmo reconhecendo quão injustos e sem sentido eles são. Diante de mais uma encruzilhada em sua vida, Ratna opta mais uma vez pelo afastamento de sua origem e pela ascensão profissional, o que a distancia do arco construído por Brontë para Jane Eyre.

Assim, e mais uma vez acertadamente, Rohena Gera não aponta para possíveis caminhos de mudança macrossocial na Índia contemporânea, que contrasta o desenvolvimento material de suas grandes cidades com as notícias dos estupros em série e do machismo violento que tolera e deixa impune o feminicídio. A diretora não propõe como construir uma sociedade que não veja a mulher como propriedade dos homens. Porém, de alguma maneira, o filme se encerra com a esperança de que tomadas de decisão pessoais acerca do próprio futuro são algo possível a muitas mulheres pobres e de castas inferiores, mesmo com as imensas dificuldades que elas enfrentarão em suas empreitadas. Mas, convenhamos, imensas dificuldades elas já têm, simplesmente pelo fato de serem mulheres.

O bonito título em português “A Costureira de Sonhos” não serve apenas para explicitar a profissão que sua protagonista deseja seguir. Ele aponta também para a leitura de que ela não terminará o filme como começou: terminará transformando alguns de seus sonhos em realidade.

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