Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

A Cura

A Cura

Nathan Amaral - 16 de fevereiro de 2017

A maior dificuldade de filmes do gênero thriller é quebrar o horizonte de clichê e previsibilidade que os permeia. Seja em filmes de puro suspense, seja em filmes de puro terror: ano após ano somos bombardeados com novos pretendentes à vaga de redentor cult do gênero e estes vem com requintes diferenciados: alguns apostam na direção de arte, visual e montagem, outros apostam em um bom elenco e em pequenos dispositivos de roteiro – todas essas alegorias que nos ajudam a digerir a previsibilidade.

A Cura é o novo competidor à esta vaga e, de fato, aposta em todos os elementos que citei. O filme conta a história de um ambicioso executivo Jr., Lockhart, que vai em busca de seu chefe em um sanatório e acaba descobrindo os horrores que permeiam o local e sua tão desejada cura.

Este é um filme que começa bem, onde podemos observar os desenhos nos excessos: nas atuações dos coadjuvantes que contrastam constantemente com a personagem principal e a colocar nos rumos centrais da trama: quando em Nova York Lockhart não é suficientemente vil e ardiloso como um homem de Wall Street, quando no sanatório ele não é suficientemente concessivo e crédulo aos encantos do local e sua cura.

Os primeiros minutos nos presenteiam com as possibilidades do que poderia vir a ser um grande enredo de suspense, temperado com críticas sociais ao establishment, misturado a um excelente trabalho de fotografia e efeitos especiais.

Lockhart, ao pisar no sanatório e inaugurar o segundo ato do filme é a personificação do executivo Jr. de Wall Street: irreverente, impiedoso e cético em seu olhar de superioridade, fazendo demandas e tateando o ambiente e seu povoamento com descrença. Este embate, entre a atmosfera calma e claramente distorcida do sanatório e suas personagens com o realismo nova iorquino prende a atenção e prepara o espectador para qualquer desdobramento.

A partir dessa cena o roteiro passa a, gradativamente, corroer a estrutura do filme com… clichês. O digno suspense do homem de negócios versus a utopia de um mundo perfeito vai dando lugar à subterfúgios sobrenaturais e científicos alá Lovecraft já saturados no gênero. Os únicos elementos, na trama, que ainda prendem alguma expectativa são as histórias das personagens e o desdobramento daquele que se torna o mistério principal: a cura.

O que se apresenta entre esse segundo ato, inicial ao ethos do filme, e sua conclusão é uma sucessão de jogos mentais, alegorias comuns e requintes de over-acting por todos os lados. O sobrenatural perturbador torna-se simplesmente absurdo, dando espaço a um conjunto muito bonito visualmente mas que carece de inovações. Os diálogos deterioram em razão e função, levando a um clímax vazio e uma conclusão que nem mesmo a atuação de Dane DeHaan (Lockhart) consegue resgatar o filme ao seu patamar inicial – quando era apenas uma proposta.

A Cura é um filme que entretém o espectador e tem tudo que um thriller rated-R pode oferecer: sangue, cenas perturbadoras, um enredo amarrado com elementos sobrenaturais e papeis bem definidos em todo seu conjunto de personagens. Seu defeito está em se limitar a isso: em compensar com uma montagem exuberante os mesmos caminhos de todo o gênero e em não conseguir superar uma tendência que também assolou Animais Noturnos, de Tom Ford.

Um prato cheio para alguns, uma nota de rodapé no gênero para outros. Eis mais um candidato com muito a propor e pouco a realizar.

Topo ▲