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A Pequena Suíça

A Pequena Suíça

O excesso de subtramas apaga o filme bom que existe dentro de “A Pequena Suíça”.

Marina Pais - 19 de agosto de 2019

Se há algo que reality shows de moda me ensinaram, esse algo certamente é a importância de saber editar ideias. Às vezes ter uma boa ideia não é suficiente, é preciso ter foco para saber como mostrá-la e o que não mostrar. É importante não se apegar em excesso aos acessórios do conceito inicial, saber o que deve ser lapidado. Se “A Pequena Suíça” estivesse sendo julgada em um programa de cineastas, tenho certeza de que a principal crítica dos jurados seria a falta de foco.

O filme parte de uma premissa interessante. Tellería, um pequeno vilarejo de novecentos habitantes, deseja se separar da comunidade Catalã e passar a fazer parte da região Basca. A história se inicia no evento público em que eles estão esperando o lehendakari para oficializar a transição, que fracassa por não ser economicamente interessante para os Bascos. No entanto, os arqueólogos Gorka (Jon Plazaola) e Yolanda (Maggie Civantos) descobrem um túmulo na igreja da cidade que comprovaria a ascendência suíça do povo de Tellería. Com isso, se abre uma nova possibilidade de separação: a de transformar Tellería na pequena Suíça.

A Pequena Suíça

A transição de Tellería para a comunidade Basca tinha um apoio quase unânime. Já a transformação em um cantão Suíço é precedida de uma votação mais apertada, não tem o apoio de toda a população. Isso porque, enquanto o pedido de reconhecimento como um país Basco era motivado pela identidade do povo, o de anexação pela Suíça é motivado pela vantagem econômica. A vontade de passar a integrar um lugar descrito como ‘paraíso fiscal’. Assim, a possibilidade de fazer parte da Suíça é o que motiva os habitantes a se sentirem suíços, e não o contrário. A população de Tellería não vê na Suíça um reflexo da própria identidade, mas a possibilidade de sair do ostracismo.

Para isso, eles resolvem se adaptar àquela cultura estrangeira. Aprender o suíço-alemão, comprar algumas calças lederhosen, adaptar as canções populares e até mesmo comprar um cão são-bernardo são mudanças empreendidas para que a Suíça os reconheça como um cantão. O prefeito Antolín (Ramón Barea) e sua esposa (Maribel Salas) chegam a produzir um vídeo para mostrar quão suíça Tellería é. Esse vídeo (que parece uma produção Michael Scott) é a parte mais engraçada do filme: o formato de propaganda política funciona bem e é um bom jeito de mostrar todas as mudanças na cidade de uma forma dinâmica e divertida.

A trilha sonora de Tiago Perestrelo é outro ponto alto da experiência. Ele constantemente faz uso do Mickey Mousing para trazer originalidade a cenas que poderiam ser clichês, o que funciona bem. Além disso, a trilha é jovial e despretensiosa, e há várias músicas que poderiam ser usadas em uma animação. Isso combina com o tom do filme, que quer mesmo ser leve. Além disso, os instrumentos são sempre muito regionais, o que funciona bem para se adequar à premissa e criar uma sensação de coesão no universo construído.

A Pequena Suíça

Infelizmente, essa coesão é dinamitada pelo excesso de subtramas que infestam o filme. Há uma história de amor, outra sobre um arsenal encontrado em uma igreja e até um agente secreto no meio de tudo. Todas elas são absolutamente dispensáveis e a partir da segunda metade, quando passam a dominar a narrativa, se tornam francamente incômodas. Afinal, se há a possibilidade de se construir uma narrativa sobre o desejo de uma população inteira de migrar a sua cultura, por que dar tanto espaço a um romance genérico? É uma pena que os cinco roteiristas envolvidos (talvez esse número tenha sido um dos problemas) não tenham percebido quão interessante era a ideia inicial, e tenham desperdiçado tanto tempo de projeção com tramas irrelevantes.

No fim das contas, o filme é vítima da mesma sina dos seus personagens: a falta de foco. A história poderia ser sobre um povo que quer ser suíço e tem que se adaptar, e isso seria o suficiente. Há pontos muito interessantes que surgem a partir disso, como a violência nacionalista, que poderiam ter mais desenvolvimento se não se perdesse tanto tempo com um triângulo amoroso. Nem toda composição precisa de romance, ou de mistério, ou o que quer que seja. Faltou separar o que contribuía para a ideia central do filme e o que atrapalhava, que deveria ser eliminado. O resultado é um filme de caminhos muito bons com ideias ruins que servem de obstáculos.

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