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A Torre Negra

A Torre Negra

Matheus Fiore - 23 de agosto de 2017

Tendo sua primeira parte lançada quando Stephen King ainda estava na faculdade, A Torre Negra é uma das sagas de literatura fantástica mais aclamadas da história. O problema é que adaptações de obras consagradas nunca são garantia de qualidade. Se as sagas Harry Potter e Senhor dos Anéis são um sucesso de crítica e público, o mesmo não pode ser dito das séries cinematográficas O HobbitAs Crônicas de Narnia. Infelizmente, A Torre Negra está mais próxima do segundo grupo, trazendo um universo mal explorado e desinteressante, que, por optar se dedicar ao público infanto-juvenil, é comparável aos recentes – e insípidos – Jogos Vorazes Maze Runner.

Para os que, assim como eu, não leram a literatura de King, eis o resumo da história: Jake Chambers é uma criança que constantemente sonha com um mundo mágico paralelo. Tratado como louco, Jake acaba, um dia, chegando ao tal mundo, e descobre se tratar de uma dimensão alternativa chamada Mid-World, onde o pistoleiro Roland (Idris Elba) é o responsável por proteger a Torre Negra, monumento mágico que mantém o equilíbrio entre os mundos. Em sua jornada, Roland acaba criando uma rivalidade com o feiticeiro Homem de Preto (Matthew McConaughey), vilão que pretende destruir a Torre e mergulhar todos os mundos na escuridão.

Já no primeiro frame projetado – após a passagem com frases que introduzem a história -, A Torre Negra tenta transformar elementos da narrativa em alegorias. A Torre, por exemplo, é um símbolo de resistência, que mantém o equilíbrio dos mundos do universo criado. O plano inicial, então, traz uma outra “torre”, o poste da escola do protagonista, acompanhado com os auto-falantes que anunciam o fim do intervalo escolar. Escolher iniciar a obra com o poste fazendo referência à Torre, portanto, é uma forma de, subjetivamente, conectar o mundo mágico do Pistoleiro e do Homem de Preto aos dilemas reais da vida de Jake. A obra, se seguisse tal abordagem, poderia ser uma exposição de alegorias sobre as dificuldades da juventude, e o universo mágico criado seria análogo ao mundo do protagonista. Mas é claro que, como o blockbuster genérico que é, A Torre Negra não se importa com alegorias. O máximo que vemos disso é a rápida sugestão de que os sonhos do menino nada mais são do que uma projeção de seus sentimentos relacionados à perda do pai. Já no começo do segundo ato, o longa se transforma em uma aventura blasé e sem vida, muito graças à falta de desenvolvimento de todo o núcleo de Mid-World.

Tudo que existe em A Torre Negra é descartável. É criado para funcionar por uma cena para, em seguida, deixar de existir, fazendo com que todos os personagens e tramas pareçam não como peças de um universo fantástico, mas como ferramentas do fraco roteiro para levar Jake – o único personagem que importa – do ponto A ao ponto B. Peguemos a menina loira do vilarejo, por exemplo. Após duas trocas de olhares entre ela e Jake, surge um possível interesse amoroso para o protagonista. O que vemos, porém, é a personagem existir apenas para ser salva pelo “príncipe encantado” minutos depois para nunca mais ser vista.

A relação paterna, que aparentemente seria um dos pilares da trama, também não funciona. Não só não há desenvolvimento que aprofunde a relação de Jake com seu falecido pai, como seu padrasto surge como um estereótipo desinteressante e mecânico, surgindo sempre para despejar frases que influenciem na história e desaparecendo logo depois. A relação que poderia funcionar é a de Jake com Roland, o pistoleiro, mas a tentativa de criar um herói  cansado e amargurado mais parece desinteresse em participar do projeto, trazendo uma repetição de trejeitos (o olhar sério, e disparo com a pistola rápido e com o braço esticado) insossa e preguiçosa.

E se o texto e as atuações do filme deixam a desejar, não é a direção que salva A Torre Negra. Incapaz de dar alguma escala às cenas ambientadas em Mid-World, Nikolaj Arcel faz com que o vasto mundo mais pareça um pequeno sítio no interior do Texas misturado com o “limbo” de A Origem. Sem carinho na construção do mundo mágico com que Jake sempre sonhou, é improvável que algum espectador vá sentir empatia ou receio de que toda aquela região seja destruída. Aliás, a montagem também é grande culpada na falta de vida dos núcleos da obra. Se por um lado o filme tem sua trama bem estruturada, fazendo seus 90 minutos parecerem apenas um videoclipe ruim, mas curto, a alternância entre os dois mundos é excessiva, e os saltos entre eles ocorrem sempre que a história parece caminhar para ter algum momento mais dramático, tornando a obra ainda mais efêmera e linear.

Até no som o filme mostra-se problemático. Há trechos, por exemplo, nos quais claramente algumas falas foram inseridas na pós-produção, resultando em diálogos que trazem a voz do protagonista com equalizações diferentes, algo imperdoável em um filme com orçamento milionário. A música também é um fracasso, sendo sempre um acompanhamento óbvio para qualquer nuance dramática. Quando o pistoleiro saca a arma, há um tema; quando ele aponta para Jake – quando os personagens ainda não se conhecem -, há outro. O silêncio não se faz presente em nenhum momento. Em um filme de pistoleiro, o silêncio sempre deve ter papel fundamental na tensão.

A Torre Negra até pode divertir. As frases de efeito piegas e alguns momentos de tiroteio protagonizados pelo desconfortável pistoleiro de Elba (que desperdício desse grande ator, não?) devem agradar os que buscam apenas uma diversão passageira acompanhada por pipoca. Há de se registrar, porém, que a incapacidade de desenvolver alegorias e personagens e de contar a história com imagens – a trama acaba sendo construída, desenvolvida e concluída por meio de diálogos didáticos e desinteressantes – fazem com que o resultado final seja um blockbuster medíocre. O engraçado é que, no meio de tantos erros, ainda é possível tirar valor de raros momentos isolados, como o contraste entre Roland e o mundo humano que rende algumas piadinhas divertidas.

A mais triste constatação é que, no meio desse filme mal planejado, há inúmeras ideias que poderiam render uma saga interessante. É como se a Warner tivesse decidido contar Harry Potter em um só longa-metragem de duas horas. Feito sem carinho desde o script e ainda entregue nas mãos de um diretor sem imaginação, A Torre Negra é engraçadinho, mas óbvio e sem personalidade. Quem diria que, em um filme com Idris Elba e Matthew McConaughey, a melhor coisa seria uma piada sobre Coca Cola…

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