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A Vila (2004)

A Vila (2004)

M. Night Shyamalan resgata a inocência dos homens

Gabriel Carvalho - 30 de maio de 2019

Este texto contém spoilers de “A Vila”.

O cineasta norte-americano M. Night Shyamalan é conhecido por explorar as crenças dos homens. Em suas obras cinematográficas, mora um pensamento mais otimista que contrasta com a crueza da realidade. Seu longa-metragem “A Vila” traça uma visão muito particular sobre a esperança que o artista carrega.

Nesse caso, a sua crença é na própria humanidade, mais especificamente na inocência dos homens, aparentemente inexistente nos dias atuais. O amor pode ser puro? O homem pode ser puro? Shyamalan, nesse caso, nos apresenta a um vilarejo que aparenta situar-se em outra época, como se estivesse à parte de todos os males industriais, urbanos e capitalistas, vivendo pela vida e não por alguma coisa a mais. O mundo exterior é proibido, pois criaturas impedem aventureiros de irem além dos limites que demarcam a vila. Questionamentos, porém, começam a surgir, indagando os personagens sobre a natureza dos anciões, que fundaram o vilarejo, e dos monstros, que cercam o ambiente e ameaçam quem ousar quebrar as regras criadas.

Consequentemente a premissa, que posiciona o jovem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) ansiando procurar medicamentos fora dessa curiosa comunidade, Shyamalan irá apresentar as respostas negativas das criaturas às insistências do homem. O vermelho, portanto, é usado por tais monstros como forma de mostrarem o quanto estão insatisfeitos. Por sinal, essa cor, em vista de ser a cor do sangue, é proibida entre os moradores da vila.

O roteiro de “A Vila” cria uma orquestra de símbolos que existem para necessariamente transformarem-se, às vezes ganhando até mais poder. A progressão narrativa é bastante inteligente nesse sentido. Pode-se interpretar as representações do Mal como as responsáveis pelos estupros, assassinatos e dores citados pelos anciões. Esse conceito, contudo, possui a sua presença distanciada, nunca sendo mostrado completamente. Em momentos de revelações, a insanidade e a amoralidade de um certo personagem são usadas para que o longa escape de qualquer uso objetivo do Mal personificado.

A Vila The Village Shyamalan

Já os tantos possíveis significados de Bem, pelo contrário, são coisas que Shyamalan assume com muita sensibilidade. O cineasta abraça novamente as suas crenças. Quando o Mal é uma certeza, o Bem torna-se uma espécie de anti-clímax, uma surpresa. Ao mesmo tempo que os mitos são construídos, enquanto perguntas vão surgindo aos espectadores, o cineasta os convida a adentrar na pureza do vilarejo. Mas o artista nunca transporta isso ao seu público de um modo passivo.

Em uma sociedade regida por preceitos tão sérios e rigorosos, uma contestação às morais terminaria surgindo. Isto parte, primeiramente, do espectador, cético ao que presencia. Como essa sociedade, sem um único assassinato, sem derramar sangue, pode existir? Os anciões escondem segredos macabros? O controle é positivo? Com isso, a progressão narrativa é margeada por uma necessidade em refigurar os símbolos. Um senso de inquietação é também constante, embora renove-se em escopo e remaneje-se. Antes de querer reafirmar a fé, Shyamalan procura repensá-la.

O que importa realmente para o artista, contudo, é encontrar o melhor numa quase utopia de mundo. Poucos relacionamentos do cinema norte-americano, por exemplo, são mais inocentes que o construído entre Lucius e Ivy Walker (Bryce Dallas Howard). Tal amor é enquadrado por interpretações meigas e um texto poético, que se predispõe a enaltecer por meio de uma linguagem mais romântica os meandros de graciosidade e ternura que existem no relacionamento. O toque entre os dois, quando acontece, é carregado de sentimento, sempre encabeçado por uma ternura comovente. E a própria jornada do personagem de Phoenix é pautada em uma vontade graciosa, em contraste a possíveis ambições mesquinhas.

Mais para frente, quando Howard assume a dianteira como protagonista de “A Vila”, é ela quem ganha motivações incontaminadas, convincentes. Além do mais, a cinematografia de Roger Deakins concretiza o clima dos ambientes e dos contextos: quer seja para enaltecer as belezas, apresentadas objetivamente, ou os males, deixados no ar por meio da tensão que os prenuncia. O tratamento acerca de crenças por Shyamalan, porém, rompe com quaisquer possibilidades pessimistas.

A Vila The Village Shyamalan

A participação especial do diretor contribui para a fomentação do discurso proposto. Como costuma acontecer, Shyamalan surge em um cameo, tão breve quanto importante, já nos últimos minutos de “A Vila”. O cineasta interpreta um segurança manuseando um jornal permeado por manchetes que evocam o caos instalado na sociedade. Só que ela é, surpreendentemente, contemporânea a nossa. O mundo para fora do vilarejo da premissa é mesmo uma catástrofe, como os próprios anciões prenunciavam ao longo da obra.

O gesto que por fim comprova isso, no entanto, seria mais provocante caso não precisasse ser entrecortado pelos voice-overs de passagens passadas. Eles resgatam o espectador aos momentos caóticos que são descritos ao longo do enredo. Os assassinatos, os roubos, os estupros. Aqui, o roteiro preocupa-se em explicar de uma maneira mais burocrática coisas que aconteceram. Esse é o caso da descoberta de Ivy de qual era a verdade por trás dos monstros, quebrando o ritmo de cenas cronologicamente posteriores.

Mesmo assim, esse personagem de Shyamalan, imerso no que há de pior no universo, não consegue enxergar um outro, que está roubando remédios para ajudar a protagonista. Ou seja, esse seu segurança mostra-se ingênuo para certas intenções. Intenções essas, no caso, que são boas. Quem espera, nesse nosso mundo mais cruel, que alguém possua propósitos puros, querendo ajudar uma mulher cega? Em mais uma obra que pensa a fé em meio às desesperanças, Shyamalan acredita que a própria humanidade pode se resgatar.

Os enredos do cineasta apresentam o choque entre o que é realismo e o que não é. Chegam, por fim, a uma conclusão que reconstrói as fés, ao invés de destruí-las como as premissas prenunciavam. O realismo, por sua vez, apresentar-se-ia como uma contradição às possibilidades de super-heróis existirem ou alienígenas serem derrotados. O mágico, os milagres são possíveis ou meras coincidências, meras enganações? Em um mundo de extrema desconfiança, parece ser impossível o místico – nesse caso, o Bem – ser uma verdade.

A Vila The Village Shyamalan

E se o próprio Shyamalan aparecesse para Bryce Dallas Howard ou pegasse o seu colega roubando remédios do estoque? O que é anti-climático para alguns mostra ser, no entanto, coerente para uma obra sobre sustentar uma crença por utopia em meio ao caos. É que a pureza de “A Vila”, em contrapartida ao restante do universo, permite que a inocência verdadeira, construída por tantas décadas por esses anciões temerosos da sociedade, permaneça intocada. Tão questionador também é Shyamalan, repensando até mesmo o seu raciocínio de que o cineasta encontra a solução no mundo exterior para que o interior, o que é pacífico e não possui criminalidade, continue a prosperar.

Esperançoso, sem sombra de dúvidas, porque apenas o acaso irá permitir que um mundo assim continue. É também irônico, paralelamente, que a vila esteja encontrada dentro de uma reserva ambiental. Uma preservação, portanto, da humanidade em pureza. Se o cineasta não enxerga o Bem na cena, ele enxerga na vida, nos conduzindo a esse tocante encontro de uma inocência que é resgatada da extinção.

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