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Animais Noturnos

Animais Noturnos

Nathan Amaral - 29 de dezembro de 2016

Animais Noturnos, a segunda adaptação dirigida pelo cultuado estilista Tom Ford, é um thriller-noir baseado no romance de Austin Wright, Tony & Susan, que conta a história de Susan Morrow (Amy Adams), dona de uma galeria de arte que, após vinte anos sem contato com seu ex-marido, o escritor Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal) recebe em sua casa um manuscrito de seu novo romance: Animais Noturnos. Susan, levada pela curiosidade e pelas palavras do próprio Edward de que este era um romance baseado em seu casamento, começa uma leitura que irá influenciar diretamente em toda sua vida.

Utilizando-se de toda a sua aguçada percepção de estética e elegância, Tom Ford nos presenteia com um dos filmes mais belos do ano e com alguns sinais artísticos que, já presentes em sua estreia, Direito de Amar (A Single Man, 2009), reafirmam seu estilo como diretor.

Ao contrário de seu irmão mais novo, Animais Noturnos não é um drama intimista e de certo classicismo-contemporâneo, que lembra filmes extremamente cultuados como Beleza Americana e discorre sobre o amor de forma passiva. Este é um filme agressivo e extremamente simbólico, sobre amor, ódio e poder que, traz boas propostas de suspense e um sub-enredo interessante de críticas sociais.

A partir do primeiro contato que temos com o manuscrito do romance o filme passa a estruturar sua montagem e narrativa em uma meta-história – dois planos, que também podemos chamar de timelines: uma, da realidade, que nos mostra a vida de Susan ao passo que ela vai avançando na leitura do romance e a segunda, fantasiosa, que nos mostra o desenrolar da história presente no manuscrito. O objetivo do filme é criar não somente criar pontes entre os personagens e suas memórias mas também todo um conjunto simbólico de metáforas e reflexões que irão influenciar ou assombrar a vida de Susan e nos prender com o desenrolar de sua leitura.

Para que esses dois planos/timelines funcionem bem de acordo com o objetivo traçado pela trama há todo um esforço de união entre os elementos de arte, roteiro e sonoridade: assim como em Direito de Amar a paleta de cores de Animais Noturnos é soturna, com poucos momentos de cores fortes que acompanham algum tipo de saturação. A cor é um elemento principal nos dois filmes, já que muitas vezes seremos conduzidos a conexão com os sentimentos das personagens e do enredo a partir dela.

Une-se isso a uma câmera semi-aberta, que a todo momento busca um foco específico no rosto das personagens e a criar um jogo de iluminação que vá amplificar o desconforto e o suspense no telespectador – todos estes detalhes essenciais na criação de um thriller.

Um detalhe particularmente interessante é a belíssima fotografia do filme: ela tem como foco os olhos das personagens, fazendo com que a todo momento sejamos sugados pela vertigem do suspense. Além de um uso estritamente técnico/estético é também importante notar esse detalhe como uma das tentativas de criar um sub-enredo de crítica social que paira sob todo o filme: a comparação do homem com o animal.

A trilha sonora, clichê para o gênero, não tem papel relevante além do esperado – ao contrário, as vezes soa excedente e satura um pouco a narrativa (um defeito que também está presente em seu filme anterior). No quesito sonoro o bom destaque está para sua engenharia: os efeitos sonoros são sublimes e extremamente competentes para nos conduzir a trama, principalmente quando interligados à atuação.

Outro aspecto positivo em Animais Noturnos é sua atuação. Seu elenco principal busca, e eventualmente entrega, atuar além das claras limitações presentes no roteiro e na limitada construção de seus personagens; Gyllenhaal e Aaron Taylor-Johnson por algumas vezes nos fazem esquecer os pecados do roteiro e amarram seus diálogos de forma sublime, encarnando não somente o espírito da trama mas também ilustrando de forma visceral a carga filosófica e crítica do sub-enredo.

Se na direção de arte o filme apresenta boas qualidades é no roteiro que estão seus principais pecados: sua construção é corrida em alguns momentos e desnecessariamente lenta em outras. Há esforços em excesso para criar pontes entre Susan e Edward, gerando momentos de sentimentalismo que roubam o foco do terror psicológico (este, por sua vez, que quando existe também é criado em cima de cenas já previsíveis) e do suspense que são as marcas da leitura do romance.

É no roteiro que as pretensões de ousadia do filme esbarram no muro dos clichês: há a criação de dois filmes separados, um drama romântico e um thriller, onde o primeiro, ao invés de se interligar e justificar todo o significado, toda a simbologia e principalmente todas as emoções que se esperam do segundo, não consegue soar como algo mais do que um copo d’água fria na cara de Susan (e na nossa) quando retorna das leituras e passa a viver sob a influência das memórias de Edward.

Ao fim de Animais Noturnos temos o ensaio sobre amor, vingança, ódio, redenção, força e poder mais estiloso e visualmente agradável do ano que teria tudo para superar as expectativas e conduzir seus clichês ao sucesso absoluto, mas que falha exatamente porque não consegue se livrar deles, porque nos olha nos olhos por 116 minutos mas não nos diz nada quando tem oportunidades fulminantes de dizer tudo.

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