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Armas na Mesa

Armas na Mesa

Matheus Fiore - 24 de janeiro de 2017

Em Armas na Mesa, novo filme de John Madden estrelado pela excelente Jessica Chastain, acompanhamos o conflito entre duas organizações de lobistas. De um lado, um grupo milionário financiado por políticos defende o porte de armas; do outro, uma empresa menor liderada pela protagonista Elizabeth Sloane tenta impulsionar a lei que aumenta a regulamentação do Estado sobre o armamento da população.

Desde os primeiros planos, fica escancarado que Sloane é a dona do filme. Os enquadramentos fechados em seu rosto com profundidade de campo reduzida dão destaque às falas da personagem, que são um perfeito resumo dos rumos que a narrativa tomará, com Elizabeth sempre um passo a frente de seus adversários. E assim como a protagonista, por boa parte da projeção a direção é eficiente em desviar o espectador e evitar que os segredos de Armas na Mesa sejam muito óbvios.

A obra também é feliz ao utilizar planos contínuos e que circulam os personagens em suas reuniões para criar um senso de unidade nas equipes de lobistas, além de imprimir um senso de urgência em suas ações que, graças à montagem, tornam o filme ágil, mesmo repetindo muito suas fórmulas  de solução de conflitos. A organização da mise-en-scene também é primordial para a construção da liderança e imponência de Sloane, que está sempre na dianteira da projeção, posição bem simbolizada ao encaixa-la de costas e distante de sua equipe, como se seus subordinados a seguissem de longe.

Mesmo tentando evitar destacar qualquer discussão política acerca do porte de armas, o filme não consegue manter-se neutro. Ao retratar os desarmamentistas como pessoas altruístas de índole inquestionável e os armamentistas como empesários trapaçeiros e milionários, a obra acaba recebendo um tom maniqueísta que prejudica uma bem-vinda análise da situação armamentista nos Estados Unidos. Por outro lado, este maniqueísmo é importante para a construção da suspensão de descrença que mostra-se necessária nos momentos finais do longa.

Apesar de não ter seu passado explorado nem sua personalidade bem desenvolvida, os problemas de Elizabeth são levemente expostos pela direção. Além dos sempre presentes medicamentos e de sua insônia, a protagonista constantemente é encaixada no plano de forma que as paredes parecem sufoca-la. Opção esta que é intensificada conforme sua batalha contra os armamentistas aproxima-se de seu ápice. Aliada à estas boas escolhas de fotografia e direção, há uma ótima atuação de Chastain no papel da lobista protagonista. Não só sua agressividade e frieza são perfeitamente críveis dentro do contexto de seu trabalho, mas também acabam tornando a personagem o grande trunfo de Armas na Mesa.

Infelizmente, o elenco de apoio não consegue acompanhar a grande atuação de Chastain. Mark Strong e Gugu Mbatha-Raw estão muito seguros em seus papéis, mas o roteiro não proporciona nenhum momento de destaque que os deixe sair da mesmice. A falta de outros grandes personagens torna Sloane uma personagem excessivamente forte e cria uma sensação de que, a qualquer momento, a protagonista encontrará sozinha uma solução para os conflitos do filme.

O que caminhava para se tornar um interessantíssimo drama, infelizmente, é prejudicado pela inserção de elementos que exigem uma gigantesca suspensão de descrença por parte do espectador. Mesmo que a arte exija tal boa-vontade do público para aceitar acontecimentos “mentirosos”, há de se construir um tom mais fantasioso ao longo da projeção, algo que não acontece em Armas na Mesa, filme que calca sua narrativa no realismo e na dialética das discussões políticas.

Por em momento nenhum colocar sua protagonista numa situação de insegurança acerca do projeto em que está envolvida (a única passagem na qual Sloane demonstra desespero é seguida pela solução do problema), o longa não consegue criar mistério algum para seu espectador, que não se verá receoso quanto à conclusão da trama, apenas curioso quanto às soluções mágicas a serem trazidas pelo script.

Há um gigantesco espaço para discutir o porte de armas nos Estados Unidos e criticar a forma como políticas do tipo são discutidas e aplicadas no sistema americano, mas o roteiro sempre arranha os temas superficialmente e não tarda para conduzir a trama novamente à um caminho menos polêmico e mais focado no entretenimento. O resultado é um clímax em que espera-se apenas qual será o grande golpe que resolverá todos os problemas da narrativa, mas que não consegue humanizar sua protagonista.

Armas na Mesa é um divertido drama que retrata o mundo do lobismo tão fortemente presente nas políticas americanas, mas que perde a oportunidade de aprofundar-se como estudo de personagem, desperdiçando uma fantástica atuação de Jessica Chastain. Um filme com boa direção, mas que se vê impossibilitada de reinventar o frágil roteiro que usa como base. Uma obra com acertos, mas que torna-se previsível em seu segundo ato e, mesmo com suas duas horas de projeção, não consegue desenvolver os importantes questionamentos trazidos acerca da questão do porte de armas. É bom entretenimento, mas poderia também ser boa arte.

 

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