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A Arte de Amar

A Arte de Amar

Ana Flavia Gerhardt - 18 de março de 2018

Entre as qualidades que espero de um(a) bom(boa) diretor(a) de Cinema, sempre incluo a de reconhecer quando está diante de uma história poderosa que se baste e se integre por si, sem artifícios e exageros que possam obscurecer ou distorcer a força dos fatos que o espectador está testemunhando. Essa qualidade está presente no trabalho da polonesa Maria Sadowska, que dirigiu o ótimo “A Arte de Amar” a partir de um material narrativo rico e com artistas comprometidos com a história que estavam ajudando a contar.

A opção por um figurino em tons pastéis numa etapa da vida da personagem em que ainda lhe faltava o autoconhecimento sexual.

O filme nos apresenta a Michalina Wislocka, ginecologista polonesa que, ao escrever e publicar o livro homônimo ao filme que conta sua história, revolucionou o pensamento sobre sexo numa Polônia que, ainda na década de setenta do século passado, sufocava sob a hipocrisia imposta pela igreja católica e pelo partido comunista, defensores da moral e dos bons costumes nos moldes misóginos da tradição judaico-cristã. Sadowska opta por dividir a história de Wislocka em dois blocos que, no tempo do filme, se desenvolvem paralelamente, mas cujos conteúdos convergem para se encontrar justamente no momento em que a personagem inicia a escrita do seu livro. Dessa forma, o filme nos conta como a vida de Wislocka se desenrolou a fim de que a ideia para o seu livro fosse materializada, e, tendo ele sido escrito, quais foram os desafios encontrados e vencidos – e com a ajuda de quem – para que ele pudesse ser publicado e lido por milhões de poloneses.

O espectador só tem a ganhar com as escolhas artísticas de Sadowska, porque com isso acompanha a história de uma mulher incomum e inspiradora, capaz de reconhecer seu valor social, superar as crises pessoais e levar a cabo projetos de vida revelantes, mesmo num país mergulhado primeiro na dominação nazista, depois na imposição comunista e católica sobre os aspectos mais íntimos da vida das pessoas. Sem que a palavra “feminismo” seja pronunciada uma única vez no filme, Wislocka é mostrada como sendo uma mulher consciente do que uma sociedade falocêntrica obriga as mulheres a serem: criaturas do lar e reprodutoras no modo linha de montagem.

Pesquisadora talentosa e sensível ao drama histórico de ser mulher, a personagem, em sua vida profissional, reconhece com precisão o fato de que, para que o corpo feminino seja controlado a fim de que os bebês produzidos tenham a garantia de propriedade, o prazer sexual é negado à mulher. Por isso, qualquer que fosse a queixa de suas pacientes, elas não saíam do consultório sem alguma demonstração prática, por mais heterodoxa que fosse, sobre os poderes do clitóris e os efeitos do orgasmo para a saúde e a felicidade feminina.

Os homens da vida de Michalina lhe ensinaram formas de ser e formas de não ser.

Outra coisa que o espectador ganha é o fato de acompanhar a história de uma pessoa que vai se constituindo não apenas a partir dos conhecimentos e experiência profissional que acumula, mas também por meio das pessoas que conhece e ama, e por elas também sendo amada. A personagem Michalina Wislocka é uma mulher que, na juventude, acreditava que as sensações do corpo não eram importantes, mas, na maturidade, descobre o amor e o prazer. Essa conquista pessoal é determinante da sua transformação profissional e do seu desejo de partilhar suas descobertas com as outras mulheres – mas, se os homens também se beneficiarem com isso, tanto melhor…

Por isso, coerentemente, o filme coaduna com o pensamento feminista contemporâneo, que se afirma como sendo libertador não apenas das mulheres mas também dos homens, porque eles também acabam sendo castrados por uma ideologia machista que cobra deles desempenhos de masculinidade de que quase nunca são capazes, ou realmente desejam efetuar. Nesse sentido, é bonito e significativo o fato de, no filme, ter sido um homem a acompanhar Wislocka no reconhecimento da dimensão libertadora do seu trabalho em prol do orgasmo feminino, não apenas como uma pedagogia da felicidade familiar, mas também como a pedra de toque do autoconhecimento e da liberdade sexual da mulher.

Há ainda um terceiro ganho, que é o de reconhecer o que caracteriza uma pessoa que se descola das determinações sociais de pensamento e ação, desenvolvendo um raciocínio intelectual absolutamente independente e capaz de resistir a todas as forças em contrário, que invariavelmente questionam a sanidade mental e o caráter de uma pessoa que não se encaixa em expectativas tradicionais de existência. Longe de ser o que diziam sobre ela, a personagem Michalina Wislocka era uma pessoa genuinamente preocupada com as outras e consciente da contribuição relevante do seu trabalho para a sociedade polonesa: “você já teve um orgasmo?” “você usou preservativo?”, ela perguntava, interessada em sempre ajudar as mulheres a ter prazer sem os fardos que o sexo acarretava a elas.

Talvez por isso, por estar num patamar superior de pensamento social, Wislocka era movida pelo impulso de fazer um bem verdadeiro, e por isso era incapaz de qualquer julgamento de valor sobre absolutamente qualquer prática sexual. Era isso que a tornava tão subversiva, e ouso dizer que, ainda hoje, em 2018, quando voltamos a viver um tempo de encaretamento e de pruridos moralistas e ridículos, Wislocka, seu livro e o filme de Sadowska são capazes de provocar escândalos entre os “cidadãos de bem”.

À esquerda: Magdalena Boczarska como Michalina Wiloska. À direita: Michalina Wiloska como ela mesma.

Uma história tão poderosa precisava apenas de ações artísticas sutis que não atrapalhassem sua potência afetadora. E essa é a escolha de Sadowska. Para descrever a personalidade agentiva e perseverante de Wislocka, A diretora conta com o apoio do talentoso roteirista Krzysztof Rak, autor  do texto de “Deuses”, dirigido em 2014 por Lukasz Palkowski e um dos maiores sucessos de público da história do Cinema polonês. O diretor de fotografia Michal Sobocinski, por sua vez, ajuda Sadowska a construir um filme tão iluminado quanto sua protagonista, numa Polônia em que sempre é verão e os dias são longos e ensolarados.  Os figurinos de Ewa Gronowska acompanham as mudanças de comportamento e o amadurecimento sexual de Wislocka, vestindo-a inicialmente em tons pasteis para depois materializar a descoberta de seu próprio prazer com roupas mais coloridas e floridas.

Além dessas ações, a atuação vigorosa, entregue  e perspicaz de Magdalena Boczarska contribui decisivamente para que Sadowska revele com seu filme uma mulher brilhante, de pensamento acelerado, inquieto e incansável. Admiramos uma Wislocka que nos aparece grandiosa em plongée e contra um céu azul; acompanhamo-la em alguns planos-sequência que nos incluem na cadeia interminável de suas ideias e em sua capacidade de mesclar descobertas pessoais com o desejo de auxiliar outras mulheres a também descobrirem a si mesmas.

“A Arte de Amar”, disponível na Netflix,  é um filme necessário num tempo em que retrocedemos nos valores éticos e morais e tememos a perda de direitos sociais alcançados apenas recentemente, em virtude de forças sinistras que associam o mundo neoliberal à repressão sobre as mulheres, os não-brancos, os da comunidade LGBTQ e os mais vulneráveis economicamente. Um filme sobre uma grande mulher da história da Polônia, realizado por uma cineasta polonesa, faz nascer o desejo de que haja, também no Brasil, mais filmes sobre grandes mulheres brasileiras: pelo menos três já há: “Zuzu Angel”, de Sérgio Resende (2006), “Elis”, de Hugo Prata (2-16) e “Nise, o coração da loucura”, de Roberto Berliner (2016), entre alguns outros. Mas, evidentemente, ainda há muitas outras grandes brasileiras cujas histórias estão para serem contadas.

Na semana em que escrevo esta crítica, uma grande brasileira foi morta pelas forças da violência e do atraso histórico que têm ganhado espaço crescente em nosso país. Em meio à dor pessoal e civil que essa morte me causou, se mantém em mim a esperança de que a história dessa mulher um dia seja contada como Cinema, para afastar mais ainda o risco de que sua vida e sua luta tenham sido em vão. Esta é uma das tarefas sociais do Cinema: manter vivas as ideias e o desejo de mulheres extraordinárias como Michalina Wislocka, Nise da Silveira, Elis Regina, Zuzu Angel, Marielle Franco e muitas outras, para que guardemos na mente e no espírito que as conquistas que melhoram o mundo são realizadas por pessoas como elas, e não por quem detém o poder ilegitimamente.

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