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Baronesa

Baronesa

Matheus Fiore - 1 de junho de 2018

Para mostrar sua opinião sobre os conflitos que permearam o processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, a diretoria Maria Augusta Ribeiro não precisou dizer muito. Aliás, a cineasta praticamente nada diz em seu documentário, uma vez que O Processo” limita-se a mostrar imagens que falam sozinhas, e vez ou outra insere alguma tela preta com linhas que guiam o espectador pela cronologia dos fatos. Em “Baronesa”, Juliana Antunes segue o mesmo princípio. Apesar de sempre parecer que há uma roteirização dos acontecimentos, os momentos nos quais a obra mais “fala” são justamente aqueles em que a câmera que a câmera capta ações espontâneas dos documentados.

Diante das lentes de Juliana estão moradores da periferia. Em sua maioria, mulheres. Todas marginalizadas, vivendo em comunidades do interior de Minas Gerais. “Baronesa” é, ao mesmo tempo, um filme que documenta a realidade dessas pessoas – sem grandes novidades para qualquer pessoa que tenha noção da realidade do Brasil, é verdade -, e que também pretende trabalhar a busca por mudança de suas personagens. A Baronesa do título é um bairro, um lugar onde as mulheres do filme idealizam a possibilidade de uma nova vida.

A escolha de planos de Juliana Antunes é inteligente. Inicialmente, a cineasta escolhe filmar suas personagens com muitos close-ups, o que cria intimidade entre público e documentados. Conseguimos, assim, ter mais proximidade daquelas pessoas. Quando as personagens principais estão estabelecidas, a obra passa a ser construída por meio de planos médios e conjuntos para registrar os diálogos. As conversas, aliás, são o que move a trama. Por elas, compreendemos os contextos daquelas famílias, mesmo que os diálogos tragam sempre assuntos triviais como relacionamentos e preocupação com a violência.

E, se falamos de violência, é triste o fato de ela ser um personagem tão presente e silencioso. Desde o medo do abuso infantil até a criminalidade, a violência se faz presente em diferentes níveis, e, em todos eles, está integrada no ambiente retratado, de forma que não mais surge como um elemento extraordinário. Objetos vistos durante a projeção, como tornozeleiras eletrônicas usadas por presos bem como um revolver e um colete de balas, são raramente vistos nos bairros de classe média, mas estão rotineiramente presentes na comunidade retratada. Constrói-se, com isso, não um cenário de melancolia, mas de “regulamentação” da violência, ao ponto de ela não mais incomodar os personagens.

Apesar de compor seu cenário meticulosamente – e, aqui, vale elogiar a paciência de Antunes para construir o clima de forma paciente, trabalhando cada cena com calma para formar um cenário maior, sem pretensões dramáticas urgentes -, “Baronesa” pouco traz de novo sobre o tema tratado. As boas ideias de Juliana Antunes se mostram um exercício cinematográfico interessante, mas que não servem a uma linha narrativa clara.”Baronesa” é, portanto, uma obra incapaz de amarrar sua forma estética em uma ideia que norteie qualquer discussão. Essa dificuldade em construir suas ideias menores em torno de uma ideia que guie a trama deve-se, principalmente, ao fato de o filme fazer uma seleção de cenas muito focada na ambientação e pouco na discussão. A lenta construção narrativa funciona para estabelecer um tom, mas não para propor um diálogo entre obra e público.

Mesmo com sua incapacidade de condensar as ideias em um discurso, “Baronesa” merece elogios por ser fiel à proposta. Se no filme as ideias são apresentadas sempre de forma sutil, pelos diálogos despretensiosos e temas recorrentes (como a já mencionada violência, que sempre se faz presente no ambiente), a conclusão não poderia ser diferente. Após acompanharmos as rotinas daquelas personagens, fazer do último encontro entre elas e o público uma cena na qual uma mulher aparece sentada diante de uma casa inacabada não poderia ser mais simbólico. Para aquelas personagens que têm suas vidas constantemente atravessadas pela violência, a sina de ter um lar incompleto e inseguro parece ser inevitável.

No fim, o silêncio de Juliana Antunes como documentarista muito combina com o silêncio de suas personagens, que interiorizam a dor e escolhem o silêncio diante do luto.

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