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Blame!

Blame!

Mario Martins - 23 de maio de 2017

A tecnologia sempre foi vista como uma extensão do homem, realizando tarefas que braçalmente seriam duramente mais cansativas ou até mesmo impossíveis. No século XIX, a revolução industrial teve seu “boom” na Europa, incluindo as máquinas na produção comercial e trazendo melhorias na economia, uma vez que passou a se produzir mais e em menos tempo. Com o crescente e ininterrupto avanço tecnológico ao longo dos anos, a mecanização humana começou a ganhar destaque e a ganhar espaço no cotidiano, onde ficou notável a substituição de pessoas por robôs em diversos setores de mercado.

Tal fenômeno começou a indagar o futuro do confronto Homem x Máquina e as consequências dele, o que já foi retratado em filmes como: 2001: Uma Odisséia No Espaço (1968), Koyaanisqatsi: Uma Vida Fora de Equilíbrio (1982), Matrix (1999) e Eu, Robô (2004). Assim como o mais recente entre os citados, Blame!  se passa em um futuro onde as máquinas se rebelaram contra a humanidade. Tendo estabelecido redes de segurança que os classificam como moradores ilegais e operações de extermínio entre os vários níveis –como são chamados os espaços em que a sociedade se encontra na ficção, a qual é divida como se fosse um gigantesco edifício, arquitetura moldada pelas próprias máquinas- em busca das aldeias em que os poucos sobreviventes vivem escondidos.

Somos apresentados a civis que se oferecerem como um papel de soldados, que saem do vilarejo em busca de fontes de energia, comida e água. Eles andam como uma espécie de armadura e tem seus rostos cobertos para não serem escaneados como humanos. Nesse grupo se encontra nossos protagonistas Zuru e Tae, jovens que fazem parte dessa equipe de busca. A maneira em que toda essa ambiência é passada e a história é contada, é incrivelmente sutil. Não há a necessidade de se dizer ao público em que ano a história se passa, nem aonde. Basta acompanhar os acontecimentos e ligar a fotografia do filme –com seu visual pós apocalíptico, tecnológico e deserto- com os fatos.

Blame!  encontra seus pontos mais altos cada vez que a trilha sonora de Yôko Kanno entra em ação. O compositor que já havia trabalhado para o filme de animação Ghost in the Shell: Stand Alone Complex – Solid State Society (2006)  – que curiosamente possui uma temática robótica semelhante- faz um vasto uso de instrumentos, indo de um órgão para um sintetizador e de cordas para percussões eletrônicas. Um tema é apresentado no piano frequentemente ao longo do filme, o que é ótimo para dar uma característica sonora ao filme, complementando a identidade dos traços, cores e visual nítido de um cyberpunk que sabe equilibrar as cenas até as mais opacas.

O enredo é iniciado de forma brilhante, mas não é tocado com mesma maestria pelo diretor Hiroyuki Seshita. O fato de todo e qualquer ambiente do longa ser extremamente semelhante, torna os planos repetitivos. Somos constantemente apresentados a novos personagens, novos problemas, conflitos, mas ficamos com a mesma impressão por boa parte do filme, somente sendo quebrada nas cenas de ação extrema no final. Nada impede de que a intenção tenha sido exatamente essa, gerar um incômodo existencial no espectador através da cenografia, apenas me refiro no quanto tal característica prejudica possíveis e merecidas construções de tensão, dúvida, ódio e até mesmo redenção nas cenas. É possível notar enquanto se assiste que se trata de algo muito importante, tanto esteticamente como filosoficamente, mas em alguns momentos é necessário canalizar energia para se manter acordado.

Para aqueles que conseguirem vencer o enfadonho storytelling e chegar até o final, serão presenteados com uma rica obra que nada mais faz além de imitar a vida real. Pega as máquinas e as coloca no lugar de seres humanos. Seja na eterna busca de crescer socialmente e obter mais poder, seja reprimindo indivíduos não desejados como ilegais ou no quanto é possível exterminar uma raça para reivindicar espaço em alguma terra. Blame!  é um filme sobre o quanto somos vítimas de nós mesmos, já que a tecnologia é uma extensão de nossa capacidade. Se alguma crueldade mostrada o assustar, você não tem acompanhado muitos noticiários.

 

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