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Cafarnaum

Cafarnaum

Filme libanês acerta na denúncia social mas escorrega na proposta de solução simples para problemas complexos

Ana Flavia Gerhardt - 12 de março de 2019

Abordando pela segunda vez os temas sociais do Oriente Médio (temas globalizados, diga-se de passagem) após “E agora, aonde vamos?” (2011), a diretora libanesa Nadine Labaki causou forte impressão com “Cafarnaum”, seu mais novo longa, nos festivais do ano passado, e compôs a lista dos finalistas entre os filmes de língua estrangeira para o Oscar deste ano.

De fato, o impacto que o filme causou nas telas e nos grupos de discussão sobre Cinema o tornam uma experiência obrigatória para quem se interessa pela estética construída em função de expor as condições sociais injustas sofridas pelas pessoas mais pobres em países distantes. Pelo fato de essa estética estar transpassada pela temática abordada, não é possível fazer isso sem falar também sobre como Labaki, que compôs a equipe que roteirizou o longa, enquadra as questões específicas da realidade que aborda.

“Cafarnaum” já traz de imediato seu maior trunfo: Zain Al Rafeea, jovem refugiado sírio e ator amador que encarna com comovente e revoltante verdade seu personagem, também chamado Zain, filho de imigrantes ilegais (ou refugiados, o filme não deixa isso claro) que habitam Beirute em condições sub-humanas e sem perspectiva de melhoria de vida. A primeira parte do filme se dedica a descrever o trágico universo familiar de Zain, com a câmera ora à sua altura, evidenciando sua inteligência e autonomia naquele lugar insalubre, ora à altura de seus pais ou em plano plongée, denunciado sua imensa fragilidade como criança num mundo violento com os mais vulneráveis.

O cenário e as possibilidades não poderiam ser piores: num bairro miserável de Beirute, onde os confortos do desenvolvimento nunca foram experimentados (e não serão tão cedo), Zain, cuja idade nem seus pais sabem qual é, vive com a família numa vaga de um só cômodo, sem privacidade, nem higiene, nem escola, nem comida, nem afeto. Perambula pelas ruas buscando e eventualmente encontrando trabalho. Seus pais quase nada fazem para sobreviver, não se movem para regularizar sua situação no país e manifestam não ter a mínima ideia de como criar as crianças que geram sem qualquer planejamento – é de cortar o coração ver o caçula, ainda bebê, com um dos pezinhos acorrentado a um móvel para não sair correndo e se machucar.

Em todos os confrontos com os pais, Zain é que parece ser o adulto, porque todo o tempo se situa no mundo da agentividade, buscando soluções imediatas e estruturais para sua vida. Por exemplo, os problemas relacionados à condição de imigrantes apenas gera estagnação e inércia em seus pais; Zain, porém, ao saber disso, logo busca formas de resolver a questão, já que isso pode inviabilizar seus planos de sair daquele lugar para sempre.

Mas, igualmente, e este é o grande acerto de Labaki ao construir o personagem, Zain se situa também no mundo das ideias, porque é capaz de elaborar metacognitivamente sobre as esferas mais amplas daquilo que causa sua vida tão miserável e tão carente de amor e educação, e de possibilidades plenas de viver uma infância. Ou seja, Zain consegue enxergar mais do que os que estão à sua volta e mais amplamente do que aquele lugar lhe mostra.

Quanto aos cenários que Labaki preparou para os espectadores testemunharem sua narrativa, ninguém pode reclamar que não foi avisado de que seria exposto sem parar a tantas imagens contundentes nos 126 minutos de projeção – afinal, a palavra Capharnaum, qualquer que seja a grafia com que se escreva, não significa apenas a cidade da Bíblia, mas também confusão, bagunça, caos, algo que sumariza à perfeição a vida de Zain, envolta nos ambientes infames e desoladores que existem em todas as comunidades muito pobres pelo mundo. O espectador que já assistiu a obras como o documentário “Garapa” (2009), de José Padilha, pensa duas vezes antes de afirmar com certeza que o filme se aproveita da miséria dos desassistidos do Líbano.

A intenção de Labaki parece ser mesmo trazer à nossa mente o sentimento de revolta por ver crianças abandonadas, exploradas e passando fome, quando deveriam receber três refeições por dia, estar na escola de manhã e brincando à tarde sob o cuidado de cuidadores amorosos. Não há nenhum refresco nem alívio cômico: as situações que Zain continuamente enfrenta são difíceis de resolver até para um adulto, e todas as soluções que encontra, embora inteligentes, lhe dão um breve alívio apenas para resultarem em mais desventuras.

Entretanto, enquanto é extremamente bem sucedido na denúncia social, e com o apoio de um elenco realmente comprometido com o projeto, “Cafarnaum” não logra, por dois motivos, o mesmo sucesso no que diz respeito à articulação entre seus temas principais, a saber, os imigrantes ilegais, os refugiados e os maus tratos sofridos pelos filhos dessas pessoas.

O primeiro motivo é o de que, pelo que se vê no filme, parece que apenas esse grupo social é maltratado pelo desemprego e por políticas públicas inexistentes, e parece que apenas as crianças ilegais é que são abandonadas por seus pais e exploradas por aproveitadores. Por isso, não fica evidente no filme qual é a relação entre esses dois temas, mas, como a simultaneidade está sempre ligada à causalidade, a impressão que fica é a de que os problemas abordados por Labaki se circunscrevem à categorias dos ilegais no Líbano. É, no mínimo, muito incômodo comprar essa ideia.

O segundo motivo já foi apontado por mim na crítica a “Distrito 9″, de Neill Blomkamp, diretor que não repetiu em seus filmes seguintes o acerto de sua obra de estreia, que consistiu em dar uma feição precisa ao problema que abordou sem a pretensão de acreditar que podia propor uma solução para ele. Propor soluções simples, que é o que dá no espaço e tempo de um filme, a problemas históricos complexos foi algo que Blomkamp fez em “Elysium” (2013), e é uma atitude ingênua, porque ignora as bases estruturais e históricas que acabam redundando em cenários que trazem muito mais articulações do que um olhar inicial pode identificar.

O problema contemporâneo da imigração ilegal conecta a Europa, o Oriente Médio e a África com amarras reforçadas por séculos de história, e remonta a ações de conquista e exploração por parte dos imperialistas europeus que destruíram a rede de relações sociais nas sociedades que ocuparam e exploraram com violência. E os problemas da infância desamparada e da falta de planejamento familiar estão diretamente ligados não apenas às relações familiares e a preceitos religiosos, mas também a políticas públicas que precisam cumprir minimamente a obrigação do Estado de cuidar dos mais vulneráveis, as crianças estando em primeiro lugar nessa categoria. Até os liberais de raiz admitem essa necessidade.

O tratamento, por parte de Labaki, de questões extremamente complexas com propostas simples, sem minimamente sugerir que o que se apresenta é um dedal de água pura num oceano de sangue, pode proporcionar mais empoderamento a Zain, mas enfraquece o filme como um todo. E, por se limitar ao grupo dos imigrantes ilegais, acaba por flertar perigosamente com a limpeza étnica, algo sempre a ser repudiado.

Eu aprecio bastante o Cinema que, com refinamento estético e técnico, busca tocar as mentes das pessoas sobre o que elas não vêem, ou sobre o que elas pensam ver. Gostaria muito que o Cinema socialmente engajado pudesse atingir mais gente, porque as percepções preconceituosas sobre o mundo têm alimentado sobremaneira as redes sociais, propagando fake news para reforçar governos ultraconservadores e neoliberais, que propõem a terceirização do Estado e a ausência de políticas públicas sociais relacionadas aos temas que “Cafarnaum” aborda: planejamento familiar, educação sexual, direitos das mulheres de todas as idades, direitos humanos. Mas sugerir soluções simples para problemas complexos, além de enfraquecer a relação de premissa-conclusão que sustenta o filme, é pactuar inadvertidamente com esses governos, porque eles também as sugerem, convencendo muita gente de que estão certos.

Muitas vezes, boas intenções com ações ingênuas acabam provocando um caos tão gigantesco quanto aquele que “Cafarnaum” descreve. E, convenhamos, já temos nossa cota de caos suficientemente preenchida.

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