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Castelo de Areia

Castelo de Areia

Mario Martins - 25 de abril de 2017

Se a vida imita a arte, nada impede que o contrário também aconteça. Acontecimentos históricos já nos deram filmes de ação, romance, ficção científica, drama e até sátiras. Uma vez que o mercado estadunidense sempre dominou o universo cinematográfico, grande parte dos filmes ambientados em marcos da história serão os que envolvem o país midiático. Principalmente se tratando sobre guerras, já que os Estados Unidos estão sempre dando um jeito de se envolver em alguma. Uma das favoritas dos roteiristas e diretores é sem dúvida a Guerra do Iraque, já tendo sido abordada em películas como Soldado Anônimo (2005), Rede de Mentiras (2008) ,Guerra Ao Terror (2008) e Sniper Americano (2014).

O longa da vez é Castelo de Areia, uma produção original Netflix dirigida pelo brasileiro Fernando Coimbra, que adquiriu muito prestígio com O Lobo Atrás da Porta. Tendo como diferencial um foco na relação humana e não no patriotismo americano, o filme usa de muitos clichês, pecando ao não usar de alguns essenciais. O enredo vagaroso poderia ter sido salvo por construções mais acentuadas de suspense, uma trilha sonora mais presente, atuações carismáticas ou até mesmo uma melhor contextualização do tema principal: a relação dos soldados com os iraquianos locais.

Coimbra inicia o filme com um aprofundamento psicológico do protagonista, o soldado Matt Ocre (vivido por Nicholas Hoult, de Skins) que frisa a vergonha como principal emoção em uma guerra. Recém chegado, o novato sofre das típicas implicâncias dos companheiros e demonstra o tempo inteiro o desconforto por estar ali, acentuando o caminho contrário ao patriotismo, já citado. Tratando a guerra como uma herança, Matt afirma servir porque seu pai e avô serviram em guerras anteriores, o que demonstra a cultura da violência a qual os Estados Unidos vem sendo moldado desde a sua colonização. A trama gira em torno da distribuição de água interrompida em uma cidade iraquiana por conta de uma explosão gerada pelos soldados americanos. Uma equipe é destinada para fazer o transporte da água, liderada pelo sargento Baker (Logan Marshall-Green), um homem que apesar de sua posição, é um dos mais humanos. É nesse momento que eles conhecem o personagem de Henry Cavill -nosso atual Super Homem no universo cinematográfico da DC Comics- que é o Capitão Syverson, responsável por toda a operação na cidade de Baquba, afetada pelo incidente.

São realizados simbólicos ataques não diretamente aos soldados, mas sim ao caminhão pipa que faz o transporte da água. O que representa um ataque direto ao próprio povo iraquiano. Um momento brilhante no roteiro que perde força ao deixar tais ataques muito soltos. Aliás, a edição do longa prejudica o desenvolvimento de boas cenas, deixando-as todas muito curtas, quando queremos ver mais delas. Há um momento que vemos a crueldade dos soldados americanos, zombando de cadáveres e fazendo piadas ofensivas à religião local e o modo em que a guerra interrompe a infância de crianças-soldado, uma maldade já tratada em longas como por exemplo Platoon (1986), que mostra o pior lado da humanidade quando o idealismo é colocado em conflito com a realidade.

O destaque de Fernando Coimbra são os poucos momentos de conflito, que não só poderiam ter mais tempo de tela, como apresentam efeitos especiais nada convincentes, o que também prejudica a fotografia da obra. O breve uso de plano sequência –técnica em que não se interrompe a filmagem da câmera e se acompanha o movimento de tela- além de explicitar o talento do diretor, nos convida a fazer parte da cena em que os combatentes agem em campo de batalha, acompanhando-os sob a ambiência bélica e hostil de uma guerra. Em algumas cenas de invasão, a direção se assemelha a de Narcos (curiosamente uma produção original Netflix também sob comando de um brasileiro), onde a ação emerge de forma delicada, encontrando aos poucos o campo de visão do público.  Contudo, o uso de diálogos expositivos excessivos e desnecessários caminha em contrapartida ao trabalho visto anteriormente em O Lobo Atrás da Porta, desperdiçando todos os esforços de Coimbra.

Não somando nada ao nosso currículo de filmes sobre guerras, Castelo de Areia convence ao mostrar o câncer que os Estados Unidos representam para a indústria armada, mas peca ao focar somente nisso, não oferecendo mais conteúdo nenhum. Até mesmo em longas que não possuem tanta ação, mesmo sendo ambientados em conflitos históricos, não se vê uma atmosfera tão tediosa. Peguemos por exemplo Além da Linha Vermelha de Terrence Malick, que em algumas cenas busca o questionamento filosófico e pessoal dos personagens sem tirar nosso desconforto por saber os perigos e a tragédia que está ocorrendo.

Os 112 minutos (vagarosamente) passam e não fica clara a intenção do filme. Ora comprando a briga do patriotismo, ora mostrando o conflito civil ocorrido no Iraque durante a guerra, Castelo de Areia usa os créditos que a Netflix possui de errar de vez em quando, mas que não deveriam ser gastos em um trabalho que possuía uma equipe com tanta capacidade. Fica a expectativa para as próximas estreias de guerra de 2017, Dunkirk e Planeta dos Macacos: A Guerra.

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